Refletir enquanto é tempo sobre as próximas eleições autárquicas

OPINIÃO

29 MARÇO 2021 | 15h21

Na sequência das recentes eleições presidenciais pronunciei-me num anterior texto sobre o facto de que, em Cascais, a coligação PSD/CDS enfrenta sérias dificuldades. Posteriormente, a "Iniciativa Liberal" anunciou que apresentará uma candidatura municipal própria. Tendo em conta que os dois partidos da extrema-direita parlamentar obtiveram, em Cascais, o total de 18.045 votos facilmente se percebe que podem provocar um grande desgaste numa maioria autárquica que, em 2017, foi eleita com 35.520 votos.


Ou a atual coligação de Carlos Carreiras vai buscar o apoio da extrema-direita ou fica numa situação em que a oposição pode, efetivamente, ser maioritária.

 

É certo que há uns dias mudou o cabeça da lista anunciado pelo Chega para concorrer à Câmara passando o operacional da extrema-direita, Pacheco Amorim, para candidato à Assembleia Municipal enquanto o concorrente à presidência da Câmara é agora João Rodrigues dos Santos. Tal mudança não terá certamente significado na votação deste partido, tanto mais que o número dois do Chega continuará a dar a cara pela candidatura e o seu atual eleitorado responde essencialmente ao populismo do caudilho nacional.

 

Uma forma deplorável de estar na política

 

Todavia, esta 'novidade' justifica uma outra reflexão.

 

João Rodrigues dos Santos foi até há muito pouco tempo militante, em  Cascais, do Partido Socialista .  Conhecemo-nos dessas lides e não quero fazer quaisquer juízos pessoais sobre alguém ter sido, durante décadas, dirigente da JS local e ativo membro do PS-Cascais e aparecer subitamente como candidato de uma força que se situa nos antípodas do socialismo com os mais serôdios valores do salazarismo.

 

Felizmente, com o 25 de abril ganhámos a liberdade de fazer opções mesmo quando elas significam estar do lado daqueles que ambicionam acabar com essa mesma liberdade. Que João Rodrigues dos Santos e mais alguns ex-socialistas se tenham repentinamente convertido em anti-democratas fanáticos da xenofobia, da violência e do colonialismo é, sobretudo, um problema deles.

 

Mas este 'fenómeno' é preocupante enquanto consequência de uma deriva que se tem acentuado na vida política nacional e local.

 

Os partidos existem como expressão organizada de valores e projetos inerentes a classes ou camadas sociais. Integrar um partido é querer estar com outros na ação por essas ideias e propostas com as quais se considera haver uma identificação conjunta. São esses princípios que justificam qualquer militância partidária e a tentativa de alcançar o exercício de poder, nacional ou local, só tem valia como um meio para a concretização dos objetivos comuns.

 

Infelizmente, desde há uns anos parece ampliar-se uma outra visão sobre a militância política. Demasiados "quadros partidários" assumem o seu partido como uma espécie de clube que deve ganhar eleições para com isso, em primeira linha, propiciar uma melhoria de vida aos seus "esforçados" dirigentes. A militância partidária passa a ser vista não como um serviço que se pretende prestar à sociedade mas como um processo de afirmação e progressão pessoal.

 

Para estes os partidos são essencialmente agremiações facilitadoras de vedetismos, empregos e 'empenhos' num jogo em que as 'alternâncias' e 'oposições' são apenas parte de um teatro para manipular 'votantes'. Para tais "militantes" os valores ou o ideário deste ou daquele partido, bem como a ética e as solidariedades que lhes deveriam ser inerentes, são sempre secundarizados face ao objetivo supremo que é o de chegarem a lugares de conforto pessoal que de algum modo os situe acima dos demais conterrâneos.

 

Mudar para um outro partido mesmo que com valores diametralmente opostos é uma das consequências naturais desta nova militância fundamentada na visão egoísta e utilitarista dos partidos. Uma outra consequência é a criação de redes e cumplicidades transversais a distintos partidos onde mais do que as publicitadas diferenças sobreleva o comum entendimento individualista, interesseiro e oportunista. São articulações e compromissos arquitetados na sombra de uma espécie de comunidade de 'boys and girls' para quem os 'jobs', as 'cunhas' e as negociatas importam mais do que quaisquer diferenças ideológicas ou partidárias.

 

Também por isso, a salubridade da democracia é uma das dimensões em causa nas eleições autárquicas.

 

A mudança necessária e possível

 

Em Cascais a oposição tem, no próximo outubro, uma oportunidade excecional para mudar o rumo da vivência municipal. Olhando para os números é expectável que o Partido Socialista possa ter um papel essencial na construção de uma alternativa aos desmandos da governação autárquica PSD/CDS.

 

Em 1993 a situação política nacional era bastante adversa porquanto dois anos antes (1991) o PSD tinha obtido mais de 50% dos votos em eleições legislativas e, todavia, o PS nas eleições autárquicas 'saltou' dos seus anteriores 15.200 votos (25%) para os 32.500 (43%) que lhe deram a vitória em Cascais.

 

Bastou para tanto apresentar-se como uma verdadeira alternativa, com um projeto de mudança e um candidato, José Luis Judas, que corporizava claramente a diferença face ao PSD sendo alguém com projeção política nacional, capacidade de realização e assumidamente de esquerda.

 

A situação é hoje, para o PS, muito melhor quando, a nível nacional, o PS desfruta de apoio maioritário e o PSD/CDS encontra-se muito fragilizado. Está perfeitamente ao alcance do PS Cascais mobilizar o voto dos cerca de 31 000 eleitores que, no concelho de Cascais, votaram socialista nas legislativas de 2019 desde que se apresenta com um projeto e protagonistas confiáveis para a mudança.

 

Ainda com base nos números de eleições anteriores é expectável que a CDU eleja um vereador. Do conjunto dos partidos da oposição atualmente representados na Assembleia Municipal, além do PS, apenas a CDU deverá reunir condições para, nas próximas eleições, eleger um vereador o que seria consequente com a capacidade de resistência e persistência democrática que tem sido constantemente evidenciadas pelo vereador Clemente Alves.

 

O Bloco de Esquerda, o partido Pessoas-Animais-Natureza e outras candidaturas que possam surgir provavelmente não reunirão condições para elegerem qualquer um dos 11 vereadores da Câmara Municipal mas, certamente poderão ter reforçadas representações na Assembleia Municipal e nas Assembleias de Freguesia.

 

É neste quadro que mesmo que a coligação PSD/CDS consiga ficar em primeiro lugar os partidos da oposição poderão dar início a um percurso de mudança que marque uma rutura clara com o que foram os muitos anos de governação de Carlos Carreiras: autoritarismo, betonização, despesismo, propaganda e incapacidade de qualificação do concelho.

 

Os cidadãos de Cascais esperam a diferença. Querem e merecem que o concelho deixe de estar subordinado aos interesses da especulação imobiliária e do turismo para que os cascalenses possam desfrutar de bem-estar e qualidade de vida em plena liberdade.


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