Em jeito de despedida

Opinião

                                                                                   18 JULHO 2018


Adeus João. Tantos anos e quantas cumplicidades…

Se fossemos católicos pedir-te-ia que levasses um abraço ao Miguel e ao Paulo mas também à Cita, ao Aboim, ao Veloso e ao Arnaut, que tu sempre foste homem para juntar vontades onde tal importa.

Mas como as nossas esperanças estão mais nos homens do que nos deuses atenho-me apenas às nossas últimas conversas e ao teu derradeiro combate.

Estavas certo de que na atual sociedade «a cultura mercantil e consumista alastra, perverte todos os domínios da sociedade e adultera os nossos modos de vida e de estar». Sabias que «ela é, precisamente, o contrário do humanismo que reclamamos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS)».

Por isso, na missiva que enviaste, juntamente com o António Arnaut, ao jantar de Abril passado, falavas da necessidade de «fazer regressar o SNS aos seus valores e princípios fundadores e constitucionais, a saber:

· direito à saúde para todos e assegurado pelo Estado através do Serviço Nacional de Saúde.

·um SNS universal, geral e gratuito, de gestão integralmente pública, cuja prestação de cuidados obedeça a padrões de qualidade e humanidade

·[um SNS] que se relacione com as iniciativas privadas e sociais na base da complementaridade e não da concorrência»

                                
                                                            João Semedo (1951-2018)
 
Tu e o Arnaut foram claros quando escreveram -  «o que pretendemos é uma lei de Bases da Saúde em linha com a lei do SNS, a lei de 1979. Sem o 25 d e Abril não teríamos criado o SNS e sem a democracia não o teríamos feito crescer. O SNS, como filho primogénito que é da Revolução de Abril, merece de todos e de cada um e cada uma de nós, a maior exigência na sua defesa. Nos dias de hoje, esse é o maior desafio que se apresenta a todas as forças de esquerda: todos juntos, salvarmos o SNS. É o apelo que queremos partilhar convosco e que vos convidamos a abraçar, com a força de Abril.»

Por isso, te quero garantir que a luta continua e que prosseguiremos determinados neste combate.

A pré-proposta que a "Comissão Belém Roseira" elaborou para o Ministério da Saúde e que, está por estes dias, em "debate público" é exatamente o contrário do que vocês defendiam.

Na sua aparente ambiguidade ela é, de facto, um passo decisivo para escancarar a saúde ao mercantilismo financeiro e, a curto prazo, destruir o SNS. A concretizar-se arrastará os portugueses, sobretudo os que não são bastante ricos, para uma trágica (a palavra é tua) situação terceiro-mundista em que a saúde é privilégio apenas dos poucos que a podem pagar porque para a grande maioria restam apenas serviços curativos mínimos.

Tu sabias que esta batalha não iria ser fácil. Mas tinhas confiança que com o Povo, esse constante marginalizado, e com a convergência dos democratas seria possível salvar o SNS e requalificar os cuidados de saúde.

Acreditavas que os profissionais da saúde, como tu, entendem que a saúde é um bem da Humanidade e não uma mercadoria rentabilizável. Que face à cultura mercantilista em ascensão há que reiterar sem ambiguidades que «uma cirurgia não é uma mercadoria e muito menos um espetáculo para ter público» havendo que «deixar as nossas coronárias, vesículas e fígados de fora dessa cultura que degrada o ser humano».

Por isso confiavas que os profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares) iriam estar na frente da defesa do SNS e nisso contariam com o apoio dos trabalhadores e das populações em geral.

Os próximos meses serão decisivos.

Infelizmente já cá não estarás para travares mais esta tua (de todos) batalha.

Deixo-te um abraço amigo (também para a Ana Maria, se lhe calhar ler estas linhas).

Até sempre camarada e amigo.

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