Cascais: refeições escolares com produtos biológicos?

Opinião




O País continua imerso na atmosfera fúnebre das semanas passadas, entre as manifestações de pesar do Presidente e as imagens exaustivas da desgraça. Outubro passa, este ano, com um passo lento e um manto de luto, que só não é adequado à estação pelo calor que continua a fazer-se sentir.


Começa, no entanto, a ser hora de preparar o futuro; de mudar as coisas; de começar de novo; de renascer.


Em Cascais, sugiro começar pelas escolas.


Entre os projetos que têm vindo a ser executados e que são, sem dúvida alguma, meritórios, gostaria de referir o da Quinta do Pisão onde se produzem, num ambiente diversificado, produtos biológicos que são vendidos a quem os quiser comprar. A estrutura da propriedade e a forma como tem vindo a ser explorada permitem a conjugação de atividades bastante enriquecedoras numa paisagem diversa daquela que a maior parte dos cascaenses tem por hábito ver.


Ora, num momento de reflexão profunda em que se afigura inevitável uma modificação estratégica dos moldes em que o território nacional tem vindo a ser explorado; num momento em que se antevê a essencialidade das preocupações ambientais para o futuro comum; num território concelhio que tem uma grande diversidade, considero que deverão ser desenvolvidos programas com as escolas – desde o  pré-escolar – que dêem a conhecer às crianças este projeto e aquilo que aí é produzido, e simultaneamente se desenvolvam as práticas relacionadas com a agricultura sustentável e os mercados biológicos.


Com efeito, estas questões são hoje matérias de educação alimentar e de saúde pública e estão estreitamente relacionadas com o uso dos solos e a necessidade de repensar a utilização dos mesmos para garantir não apenas o sustento mas, acima de tudo, a segurança e a sustentabilidade das comunidades. Por isso mesmo, torna-se essencial o desenvolvimento de projetos como o da Quinta do Pisão e dos mercados biológicos, que deveriam passar a ter maior relevo em todo o concelho. 


Repare-se que o peso económico do comércio dos produtos biológicos tem vindo a crescer exponencialmente (basta ver o alargamento das áreas de produtos biológicos em diversos supermercados e a quantidade de estabelecimentos comerciais e de restauração a eles dedicadas que têm surgido), contendo um valor acrescentado muito superior aos da agricultura industrializada.


Num mundo de superprodução e global é, de novo, o particular e genuíno que pode fazer a diferença.

Em relação ao projeto da Quinta d o Pisão, julgo até que muito lucraria a CMC e a população em geral se se começasse uma experiência-piloto de fornecimento de refeições escolares com base nos produtos orgânicos produzidos na mesma. Esse programa poderia ser implementado através da celebração de protocolos entre a CMC e organizações de produtores biológicos (como a Agro-Bio) por forma a tornar rapidamente extensível ao maior número possível de alunos (de início, do primeiro ciclo) o acesso a produtos dessa natureza nos menus escolares.


A organização de visitas de estudo à Quinta do Pisão e a inclusão de refeições feitas com produtos biológicos nas diversas escolas do concelho permitirá uma tomada de consciência das gerações mais novas que poderá ser essencial na modificação das mentalidades e no cuidado com a natureza e o meio envolvente que as recentes tragédias de forma tão nítida vieram impor.


Atente-se, porém, que o que aqui defendo não visa a exclusão dos processos de concurso público no fornecimento de refeições escolares, que foi recentemente defendida pelo Vereador Frederico Pinho de Almeida. Esses concursos são essenciais à transparência do processo. Se críticas há a fazer aos concursos públicos para o fornecimento de refeições escolares e à qualidade das refeições, é ao baixo preço das mesmas previsto no programa e caderno de encargos desses concursos e não ao processo de concurso público em si.


Estas são algumas medidas que procurarei que venham a ser discutidas com todos os partidos em sede de Assembleia de Freguesia e de Assembleia Municipal.


Começando pelos mais novos é possível incutir valores e preocupações que muitas vezes os mais velhos tendem a menosprezar. Começando já, no rescaldo desta valsa triste, as folhas deste outono poderão não ser totalmente mortas mas sim o prenúncio do renascimento que se impõe. 

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1 comentário:

João Pinto disse...

Totalmente de acordo! Acrescento ainda, que a implantação da horta pedagógica que eu defendo e submeti a apreciação no OP, no Val de Caparide, teria todas essas valências e restauraria todo um património desprezado. Recordo que, há pouco mais de 50 anos, era daqui que saíam os produtos hortícolas para abastecer os mercados da linha. "Curiosamente", têm sido criadas muitas hortas comunitárias, sem que alguém as tenha sugerido no OP...

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