“Então e as pessoas?”

Opinião

                                                                                         30 ABRIL 2018


Recebo frequentemente mensagens e comentários de pessoas referindo que o PAN tudo faz em prol dos animais e nada faz pelas pessoas. Refleti bastante antes de escrever sobre esta temática. Mas como ativistas dos direitos dos animais, mas também ambientais e humanos, somos constantemente confrontados com esta questão e não quis deixar de partilhar algumas considerações pertinentes: afinal, porquê esta nossa batalha pelos direitos destes seres? Será que estamos a ofuscar as outras causas? É ou não possível trabalhá-las de forma interligada?

Comecemos pelo início. Todos somos animais. Bem sei que tendemos a esquecer-nos deste facto. É também uma verdade absoluta que todos os animais querem viver e nenhum gosta de sofrer.

Sim, existem diferenças entre os animais humanos e os animais não humanos. As pessoas encabeçam a lista de maior capacidade cognitiva na Terra e isso é inquestionável. Esta lista contempla também outros animais tão adorados, como golfinhos e cães, e de facto estes são seres muito sensíveis e inteligentes. Os porcos, por exemplo e segundo estudos científicos, são mais inteligentes do que cães e conseguem resolver os mesmos problemas que os chimpanzés. Então, serão assim tão diferentes para não merecerem da nossa parte respeito, dignidade, proteção e empatia independentemente do fim a que se destinam?

As questões éticas são muitas vezes culturais. Ora veja-se: quantas e quantos de nós ficam horrorizados de saberem que cães são alimento de seres humanos do outro lado do planeta? Possivelmente tantos quanto os indianos que observam que deste lado do mundo comemos carne de vaca. Afinal o que muda nestas duas realidades? Apenas e só a nossa perceção de que culturalmente devemos comer uns e amar outros.



Importa referir que quando defendemos os direitos dos animais, também defendemos os direitos dos seus tutores que sofrem com eles. Imaginem por exemplo uma pessoa idosa cuja única companhia é o seu animal que fica doente. Se essa pessoa não tiver possibilidades de pagar as despesas médico veterinárias, claramente sofrerá com isso.


Os animais que acolhi e resgatei são parte da minha família e cada um que partiu deixou uma enorme mágoa no meu peito. Sei que muitas pessoas sabem do que falo quando refiro isto. Há uma ligação entre seres que se cuidam e protegem. Um amor incondicional por parte daquele companheiro especial que nunca me deixa só.

Mas há mais: quantas pessoas sem habitação se recusam a entrar em casas de abrigo por não quererem abandonar os únicos seres que não lhe viraram as costas num momento difícil? Outro exemplo: durante a grande catástrofe dos incêndios, os detentores dos animais de pecuária sobreviventes não tinham como os alimentar; quando ativistas levaram ração às populações, era ver a felicidade no rosto das pessoas.

Analisemos outros factos: o ser humano domina o planeta, explorando todos os seus recursos, não apenas por necessidade mas para alimentar a sua inesgotável – e grandemente manufacturada socialmente – sede de “querer sempre mais”. Tudo é descartável, tudo passa a velho e fora de moda num ápice. Queremos tanto e cada vez mais à custa de todos que brevemente o planeta deixará de poder providenciar-nos até as necessidades mais básicas.



Um exemplo muito recente desta realidade desfigurada: parte da sociedade portuguesa manifestou recentemente o seu desagrado pelo perigo de ter javalis perto das populações. Mas esquecemos um pequeno grande pormenor: quem invadiu quem? Se destruímos e exploramos todo o seu habitat natural é óbvio que eles tendem a procurar água e alimento noutros locais. De repente todo o planeta é o habitat humano e como consequência enfrentamos a sexta extinção em massa. Se não alteramos urgentemente os nossos comportamentos brevemente todos nós iremos pagar a derradeira factura.

Devemos ter consciência de que a experiência societal humana não passa de um nanosegundo na vida do planeta. Podemos destruir tudo mas na verdade só estamos a condenar-nos porque a Terra regenerar-se-á. Estamos a semear a nossa própria extinção.

Considero-me uma humanista, e sei que existem muitas pessoas dotadas de uma sensibilidade incrível capazes das coisas mais maravilhosas. É nessas que deposito esperança, mas é por elas e por todos os seres que trabalho diariamente. E em “todos” incluo também humanos explorados por outros humanos. Cada vez que pagamos um preço não justo por algo estamos claramente a contribuir para a exploração de seres humanos. As minhas refeições são conscientes dos verdadeiros custos ambientais e por isso não consumo produtos de origem animal. Dizer simplesmente “já está morto” mas comprar estes produtos de origem animal fabricados, por exemplo, de modo industrial é compactuar e alimentar para que cada vez mais animais morram nas piores condições possíveis.

De forma ética, responsável e dentro das possibilidades de cada pessoa devemos ajudar a contrariar este caminho perigoso que trilhamos. A água está a escassear em várias regiões do globo e neste verão Portugal foi afectado por uma seca severa que ameaçou vitalmente a vida das populações. Cada gesto conta. Por exemplo, cada kg de bife de vaca a menos que comermos equivale a uma poupança de cerca de 15.000 litros de água. Imagine-se o quão fácil é regenerar o ambiente com estes pequenos grandes atos.

A história fala por nós e precisamos de uma urgente mudança de paradigma porque  estamos a destruir a nossa “Casa Comum” usando e abusando de todos os outros seres também eles legítimos habitantes deste planeta.

Quando ouço falar em prioridades penso sempre que existem vários jarros. Cada jarro corresponde a uma causa. Claro que de modo absolutamente relativo cada um/a de nós pensará de maneira diferente e verá as suas prioridades divergirem de outras pessoas. Mas não deveremos nós agir em várias frentes? É que mesmo dentro das causas sociais haverá sempre quem diga que isto é mais prioritário do que aquilo. Desde tenra idade aprendemos várias disciplinas e certamente haverá quem considere que a matemática é mais importante do que o português ou a história, mas nem por isso deixamos de beber um pouco de cada uma delas, certo?



É curioso perguntarem “então e as pessoas?” quando nós, enquanto espécie, destruímos todos os habitats e exploramos todos os recursos finitos do planeta de forma insaciável e ad eternum. Dizer que, “eu não o fiz ou não o faço”, não nos torna menos responsáveis, pois cada ação conta e é no dia-a-dia que juntos e juntas podemos fazer a diferença. É no conjunto das pequenas escolhas de cada pessoa que reside o problema.

Trabalhar em prol dos direitos dos animais não anula nem veta o trabalho que se desenvolve em função dos seres humanos ou mesmo do ambiente. Muito pelo contrário. Na verdade está tudo interligado. Uma sociedade justa e plena de igualdade, equidade, felicidade e harmonia implica que todos possamos fazer a nossa parte seja em que jarro for.

O ideal é conseguirmos encher todos os jarros porque uma coisa é certa: não haverá equilíbrio se um dos jarros estiver completamente vazio.
Imprimir

1 comentário:

Camilo Soveral disse...

O PAN inspira-se numa visão e numa ética globais, não antropocêntricas, e num modelo cultural e civilizacional alternativo ao dominante, pois assenta no reconhecimento da interdependência e no respeito de todos os seres vivos. Aos animais humanos e não humanos. Vivemos juntamente com a natureza a chamada casa comum e por isso está tudo interligado.

Excelente texto. Parabéns Sandra.

Abraços Camilo Soveral

MULTIMÉDIA. SEGURANÇA

A PSP e o Metro recomendam: "Durante a abertura de portas não utilize o telemóvel. Pode ser vítima de roubo."

Abrigos precisam-se!

Quem põe na ordem donos de caninos?

Hospitalização domiciliária traz benefícios para o doente agudo

Hospitalização domiciliária traz benefícios para o doente agudo
Artigo de OPINIÃO Drª Francisca Delerue

Expulsemos as traquitanas