Aprendizagens 1

Opinião

 




“A vida tem-me ensinado que nenhuma coisa é simples, que só às vezes o parece, e que é justamente quando mais o parecer que mais nos convirá duvidar”
José Saramago


A maioria dos cidadãos e cidadãs de Cascais parece não ter grande interesse pelo funcionamento dos órgãos municipais e mesmo quando se trata das eleições para a sua autarquia abstém-se de votar.


Na verdade Cascais é um espaço privilegiado quer no seu ambiente quer na sua geografia humana. Entende-se que quem cá vive tenda a não atribuir a real importância ao que de mal vai acontecendo e continue a adiar o seu contributo para uma mudança de rumo no concelho.


Simultaneamente são bastante significativas as diversas redes que, sobretudo a partir do Poder instituído, atuam objetivamente para desmotivar a intervenção dos cascaenses ou mesmo para intimidar quantos procuram expressar uma opinião própria sem ser em estrita subordinação aos caciquismos reinantes.


Todavia, neste quadro de anemia democrática, quatro anos de participação na Assembleia Municipal possibilitaram-me uma aprendizagem viva de quanto Cascais vai mal e como é necessária uma mudanças significativa para o seu futuro.



Realidades preocupantes

Quando os cascaenses das freguesias a Norte se queixam de serem sistematicamente discriminados e de verem acentuarem-se as assimetrias que os prejudicam sabemos que têm razão. 


Quando  ao longo da costa litoral se erguem barreiras de betão que destroem irreversivelmente as suas potencialidades  e são recusadas pelas populações deveria haver um consenso de alarme.


Quando os bens públicos, por mero dogmatismo ideológico e, ou, incompetência de gestão, são delapidados para sustentação de chorudos negócios privados  não é possível ignorar a gravidade deste facto.


Quando a iniciativa municipal para o desenvolvimento pouco vai além dos interesses dos promotores turísticos e dos especuladores imobiliários, com evidente prejuízo para os habitantes e contrariando uma necessária estratégia de progresso sustentável,  é necessário mudar de orientação.


Quando a coesão social e intergeracional desmerece a atenção municipal em favor do incremento das desigualdades e do incentivo à gentrificação é obrigatório parar para refletir.


Quando o património natural, edificado e cultural  se degrada a olhos vistos sem uma resposta adequada para a sua recuperação e valorização importa perceber e contrariar tais erros.


Quando a participação dos cidadãos, a sua iniciativa e congregação de esforços são condicionados pela criação de redes clientelares e tolhidos por critérios arbitrários de apoio e pela manipulação de subsidiodependências há razões para uma preocupação coletiva.


Quando parte relevante dos muitos impostos e taxas que os cascalenses suportam é despendida num foguetório de eventos, festas e propaganda  não é aceitável a indiferença.


Quando a resposta aos problemas estruturais do concelho e às necessidades dos munícipes é substituída pelo marketing das promessas vãs e a ilusão das estratégias virtuais o nosso futuro comum fica comprometido.


Na verdade estas e outras são marcas negativas da atual realidade municipal.


Não se trata de denegrir tudo o que a Câmara faz. Obviamente que do trabalho diário das centenas de pessoas que integram os serviços e empresas municipais resultam medidas e programas positivos. Seria quase impossível que assim não fosse.


Todavia, infelizmente, não faltam factos a fundamentar a avaliação negativa e a motivar as críticas.



Factos inaceitáveis

infraestruturas essenciais que continuam por realizar, há AUGI (Áreas Urbanas de Génese Ilegal) por completar e integrar, há carência de transportes públicos e de rodovias.


O indesejável PPERUCS (Plano de Pormenor do Espaço de Reestruturação Urbanística de Carcavelos Sul) e a Fundação universitária do Pingo Doce (Nova SBE) plantada à beira mar à custa do erário público constituem, entre muitos outros, exemplos de atentados urbanísticos, violadores do ambiente e do querer dos cidadãos.


O escândalo dos antigos hospitais, em Cascais e na Parede, assim como o edifício do antigo SMAS cedidos em condições prejudiciais para o erário público a negócios privados da saúde e do ensino contraria as promessas feitas e é danoso para o futuro da generalidade dos munícipes.


A paulatina destruição das zonas verdes ainda sobreviventes, como é o caso na Guia e em Birre, constituem irrecuperáveis ofensas ao ambiente e ao sentir das comunidades. 


O projeto imobiliário na entrada nascente de Cascais, a sanha de construção que vai proliferando no Monte Estoril e em Carcavelos assim como os apetites  de edificação na Marina são o prenuncio conhecido  da ofensiva do betão a que a revisão do PDM veio abrir portas. 


Entre muitas outras, estas são razões de sobra para que nos preocupemos.



Mudanças necessárias

Seria muito útil se houvesse a compreensão comum de que não é possível progresso social e democrático sem a existência de sínteses inovadoras resultantes da dialética das posições contrárias, que só o respeito pelo contraditório abre possibilidades à construção de consensos e de estratégias mobilizadoras.


Mas parece ser preferido, como repetidamente tem sido feito pela atual maioria partidária de Cascais, iludir os problemas acusando todos os demais de ter visões radicais,  ignorantes e mentirosas. 


Está provado que a autossuficiência equívoca, a incapacidade autocrítica e o caudilhismo messiânico são o produto natural do absolutismo incontrolado. São eles que habitualmente conduzem à arrogância, à intimidação e aos comportamentos persecutórios


Nas últimas semanas assistimos, em Cascais, a factos muito preocupantes quando aqueles que criticam a atual maioria são acusados de constituírem uma esquerda subversiva, quando vemos um vereador no exercício do seu direito de oposição ser abusivamente detido por forças policiais com a total conivência dos órgãos municipais ou quando lemos que um funcionário, apenas por cumprir com as suas responsabilidades de saúde pública, é acusado pelo Presidente da Câmara de estar ao serviço de uma filiação política como se em Cascais existisse um qualquer serviço de informação a fazer lembrar os tempos de outrora em que os cidadãos democráticos eram espiados, catalogados, e reprimidos por um ‘excelentíssimo Presidente do Conselho’ cego no deslumbramento do seu ilusório poder, iludido por bajuladores e mercenários. 


É necessário dar início a uma mudança de cultura política e cívica no concelho. 


Urge aprofundar um debate ponderado e diversificado de todas as forças políticas e cívicas do concelho dando corpo a uma outra forma de ver e viver o território.


É necessário contrapor ao absolutismo autocrático uma mobilização democrática, participativa, dialogante e respeitadora de todos os cascaenses.


Enquanto não for esse o paradigma político em Cascais cumpre-nos ser frontais e dizer NÃO.


Não à asfixia democrática no município, não à degradação de Cascais, não a quaisquer limitações da liberdade.


Há que fazê-lo assumidamente porque, como lembrou Borges Coelho, muitas vezes é preciso dizer não para que a água da vida possa correr límpida.

2 comentários:

João Casanova Ferreira disse...

Denúncias oportunas e esclarecedoras. E ainda por cima todas verdadeiras.

Anónimo disse...

Excelente artigo .
Devolvam sff o municipio às PESSOAS .
Basta de show off com o nosso dinheiro, de empresas sanguessugas do orçamento municipal, que não prestam contas a ninguém , do facilitismo, do caciquismo, do emprego para os amigos e familia, não cumprindo com o estatuido no código de ética e conduta, das vinte e uma visitas da PJ aos Paços do concelho tidas como normais, da falta de respeito em democracia pelos outros, em que a sua opinião não conta, de não cumpriram com as emanações da Comissão Nacional de Eleições, da falta de tolerancia para com as outras forças vivas do concelho ... não precisamos disto em CASCAIS .

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