Ensaio sobre a lucidez em Cascais

Opinião




A fábula política de Saramago ilustra os efeitos de uma maciça votação em branco que fere a legitimidade de um regime.  


“…. fora uma manifestação inocente, um desabafo, a indignação pelo descalabro praticado por políticos pertencentes aos partidos da direita, da esquerda e do meio. Políticos de partidos diferentes, mas de actuações iguais, usufruindo de privilégios que afrontavam a população. Os eleitores estavam cansados, revoltados.” (José Saramago).


Os “políticos” daquela cidade inominada por Saramago, em vez de reflectirem sobre o significado do fenómeno social, autoproclamaram-se governantes e iniciaram uma demanda inquisitorial contra os manifestos resistentes. Fossem votos nulos a interpretação seria a mesma e no caso da abstenção seria a atuação do poder semelhante. 


Por que não poderia Saramago estar a retratar Cascais? 


Em 2013 os votos de protesto (brancos e nulos) ascenderam a 9,01% e houve 62% de abstenção. Como Saramago ilustrou, a minoria eleita com 16% dos eleitores alcandorou-se no poder e exerceu-o firmemente: i) controlou os meios de comunicação social municipais; ii) bombardeou com propaganda institucional; iii) desobedeceu a recomendações de organismos nacionais; iv) desrespeitou reiteradamente o estatuto do direito de oposição e v) violou o espírito da democracia representativa em Carcavelos-Parede.


De forma diferente daquela narrada por Saramago, entre 2013 e 2017, houve quem resistisse. Houve quem dissesse não. Houve “políticos de partidos diferentes, mas de atuações [diversas]” que apresentaram propostas sérias e exigiram uma governação democrática e plural, respeitando a história republicana do concelho. 


Em 2017 os votos de protesto diminuíram para 5,01% e a abstenção também diminuiu para 56,46%. Continua a haver uma minoria eleita por apenas 20% dos eleitores que se encarrapitará no poder. Uma minoria de direita radical que acusa todos os outros cidadãos e partidos que não pertencem à sua “frente reaccionária” de “frentismo revolucionário”, numa demonstrativa incompreensão do que é o pluralismo democrático (o PSD tem uma coligação formal para agrilhoar o CDS). Ainda não tomaram posse e já pretendem intimidar ameaçando com queixas “contra a oposição por difamação”.


Entre 2013 e 2017 traçou-se um caminho de denúncia, de esclarecimento e de resistência que começou a dar frutos. Menos cidadãos foram afectados pela “cegueira branca”, mais pessoas julgaram valer a pena votar e, apesar das manifestações de “gloriosa vitória” do PSD/CDS, mais de 41.805 (54,06%) de votantes manifestaram a preferência por outro governo municipal. 


A frente do poder extremista em Cascais não gosta desta interpretação. É compreensível pois: "… os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão." (José Saramago).




2 comentários:

João Casanova Ferreira disse...

Verdades inconvenientes que desnudam os ditadores instalados que se consideram democratas. O eleitor continua a não acreditar, mas vai entender (a seu tempo e à sua custa) o funil em que o aprisionaram. Convém perceber que são incapazes de compreender em política a diferença entre função e profissão. A primeira é nobre, servir os outros, com verdade, transparência e isenção; a segunda não existe, mas acham-se no direito natural de ser considerados profissionais desse radicalismo egoísta de regedor.

Anónimo disse...

Faz-me um pouco de confusão esta sobranceria e esta falta de respeito pela democracia, sobretudo vinda de quem representa só 12% dos eleitores de Cascais. Podia discorrer de onde vem esta pesporrência, mas acho que conhecemos todos a "herança" democrática com que o PS hoje se debate, gerindo um profundo silêncio, claro.

O que eu gostaria mesmo de saber é se quem deu a cara por esta candidatura, outra herdeira desta linha política, Gabriela Canavilhas, irá mostrar respeito pela democracia, pelos 12% de cascaenses que nela votaram e respeitará o lugar que os eleitores lhe escolheram dar, o de vereadora durante 4 anos? Ou se tudo isto foi uma farsa e o PS mandou cá uma rockstar e que afinal fará o mesmo que o seu líder, António Costa, fez em Loures, onde tendo perdido as eleições nunca lá pôs um pé?

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