Depois dos incêndios: a regeneração

Opinião




Passado quase meio ano tragicamente marcado por incêndios, cabe regenerar as pessoas e a ecologia destruída. Mas os incêndios não se curam com adesivos, é preciso uma abordagem radical e transformadora.


O Concelho de Cascais teve sorte. No segundo ano mais quente de que se tem registo (seguido logo de 2016), Portugal sofre uma época de incêndios alargada, que se iniciou a 17 Junho, com a tragédia de Pedrogão (64 mortes e 254 feridos) e se prolongou até 15 de Outubro (42 mortes e 71 feridos). 
 

Segundo o relatório provisório do ICNF registaram-se, até 30 de Setembro, um total de 14.097 ocorrências. Apesar de menos 10% face aos anos anteriores, os incêndios produziram 215.988 hectares ardidos - o valor mais elevado desde 2007. 


Esta contabilização, feita ainda em Setembro, quando se esperava o fim da época dos fogos, não tinha incluído o ‘pior dia do ano em incêndios’. Neste dia, após 523 incêndios, o número de hectares ardidos sobe para 490 mil, segundo dados do European Forest Fire Information System


No ano que deixa metade do país a arder, Cascais tem escapado relativamente ileso, pelo menos até à escrita deste artigo. 


De acordo com o Plano de Ação para a Adaptação às Alterações Climáticas recentemente apresentado pela Cascais Ambiente, o novo executivo de Cascais deverá implementar um plano de defesa da floresta contra incêndios. Esperemos que o façam. O plano, apesar de novo, assenta num conjunto de ações (de limpeza e reflorestação) que já decorrem desde 2011. 


É provável que todos os municípios necessitem de um plano semelhante, mas este será apenas uma pequena parte da solução. Qualquer plano municipal terá de se articular com uma estratégia integrada a nível regional e nacional, que passe por regenerar, despolitizar e financiar a proteção civil e um novo ordenamento do território. Será necessário ir para lá de soluções pontuais e partir para um novo paradigma: regenerar o território e restituir às pessoas, tanto quanto possível, e ecologia e o ambiente que perderam. 


Não podemos também desligar os incêndios das alterações climáticas. No ‘pior dia do ano’, segundo o IPMA deviam estar 15ºC de média, mas estavam 24ºC, a humidade devia ser 60-70%, mas em estava 25% (em alguns sítios 10%). A época de incêndios estava em alta, mas já era Outubro.


Será preciso uma estratégia coletiva e integrada, que passe pela limpeza regular das florestas, por uma floresta biodiversa, privilegiando as espécies autóctones, as ‘árvores bombeiras’ (como os Vidoeiros e os Carvalhos) e a regeneração dos solos ardidos. É essencial uma punição mais dura para os incendiários, mas mais importante ainda, é fundamental a coresponsabilização. 


O recente relatório da Comissão Técnica Independente refere que 98% dos incêndios têm origem humana, mas estes ocorreram na maior parte por negligência ou acidente. É importante implementar uma ação forte de sensibilização (que passa também pela comunicação social) contra as queimas e as fogueiras.   


«Os incêndios não são um problema, são uma consequência de um problema», diz Miguel Teles da Plantar Uma Árvore - uma associação sem fins lucrativos, que organiza desde 2009 ações de voluntariado para regenerar zonas florestais, sobretudo na área metropolitana de Lisboa (mas também a nível nacional). Há duas semanas estiveram na Peninha onde não plantaram árvores, porque o tempo continuava quente demais, mas fizeram ações de limpeza.


Regenerar a floresta é também regenerar as pessoas e os animais, é dar uma resposta justa – se é que tal é possível – àqueles que tragicamente perderam as suas vidas, ficaram feridos, perderam as suas terras e o seu bem-estar. 


Segundo Miguel «o que se faz depende muito das áreas, mas passa por fazer uma gestão dos matos, do material vegetal presente no terreno, recuperar a floresta nativa, as linhas de água.» Mas não existem soluções rápidas. A regeneração do sistema social e ecológico é um processo de longo-prazo. 


«É preciso uma gestão permanente do material vegetal, aproveitar esse material para evitar a erosão e construir abrigos para animais. O nosso papel é acelerar os processos vegetais até conseguir restituir o habitat o mais natural possível, mais resiliente e com maior capacidade de regeneração» explica Miguel Teles. 


«É fundamental envolver o maior número de pessoas possível na recuperação ecológica. É um projeto de longo prazo. Os carvalhos, por exemplo, são espécies que demoram décadas até ficarem adultas, por isso é essencial envolver as pessoas.» 


Cabe aos governantes aprender com as boas práticas da sociedade civil. Tal como a Plantar uma Árvore, várias associações e iniciativas estão já a trabalhar no terreno, na sua base está um corpo de voluntários que age onde o governo falha. Um artigo da Wilder dá exemplos de estratégias para cuidar de florestas afetadas a ser implementadas por iniciativas locais.


Para o PAN é fundamental uma perspetiva integrada, holística e sistémica que visa, em última análise a transição para um sistema agroflorestal mais sustentável, onde pessoas, animais e natureza coabitam em harmonia.

*Deputada Municipal do PAN

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1 comentário:

Anónimo disse...

Não deixa de ser engraçado a deputada municipal atribuir á sorte o facto de não terem havido incêndios substanciais em Cascais, talvez tenha razão, certamente na mesma perspectiva até atribui ao azar os incêndios que aconteceram em Portugal sob vigilância do governo que o seu partido tem apoiado no parlamento. Imagino que se o concelho tivesse ardido como arderam outros já não fosse azar, fosse responsabilidade desta administração.

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