O Pacto Ecológico Europeu e o aeroporto de Cascais

OPINIÃO

07 janeiro 2021                                                               

2020 ficou marcado pelo brutal impacto que o vírus da Covid-19 teve nas pessoas, famílias, empresas e contas públicas. Mesmo considerando que a vacinação voluntária em massa já acontece na Europa, e noutros locais do globo, 2021 não augura rápidas mudanças de políticas sociais e económicas, pois os impactos desta crise continuam a grassar com a imprevisibilidade dos números de contaminados e de mortos desta pandemia. Existem ainda relatos científicos que mostram que o próprio vírus poderá estar a mutar tornando-se ainda mais contagioso e mortal. Mas nada como esperar pela comunidade científica para falar com o devido saber.

Mas em que é que esta pandemia se relaciona com o Pacto Ecológico Europeu e o aeroporto de Cascais? Porque a União Europeia se comprometeu a reduzir até 2030 pelo menos 55% das suas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e cada euro gasto hoje, seja a nível municipal, nacional ou europeu, ditará se travamos a fundo nas emissões, e canalizamos o dinheiro público para essa rápida transição económica, social, cultural e ecológica que necessitamos, desde a mais pequena aldeia até às grandes metrópoles, seja nas ilhas quer no litoral ou no interior, ou desperdiçamos este orçamento de carbono a correr atrás de um modelo de “desenvolvimento” obsoleto e assente em indústrias e infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis.

E é este o caso do aeroporto de Cascais. Percebendo que a pandemia nos trouxe ainda mais dificuldades financeiras e económicas fará sentido continuar a investir numa infraestrutura que caminha para a obsolescência? Fará sentido fazer parcerias e acordos para termos viagens a low cost de Cascais para Portimão, Viseu ou Bragança (na Sevenair)? Será um bom investimento gastar dinheiro camarário para o manter como o 4º aeroporto mais movimentado do país (a seguir a Lisboa, Porto e Faro)? Será também racional apostar na formação de pilotos quando o sector da aviação contribui com cerca 4% do total das emissões de GEE na Europa e representa 14% no sector dos transportes? Mesmo quando este sector se encontra em forte declínio e contração na economia “pós” Covid-19? Melhor, alguém conhece o real impacto da poluição sonora, atmosférica e luminosa de se expandir o aeroporto de Cascais, como a Câmara tenciona fazer?

Estas perguntas terão várias respostas, o que as distingue são os olhos de quem as analisa. Numa visão meramente economicista, clássica, estes investimentos fazem sentido porque trarão, hipoteticamente, mais comércio, negócios, turismo, investimento, empregos. Numa perspectiva holística, ecologista o que pesa é que tipo de turismo vem para Cascais, Portugal, que custos ambientais e sociais advêm de ter mais transporte de passageiros e mercadorias aéreas no concelho, no país e na Europa, que tipo de empregos se está a fomentar e que outras alternativas de mobilidade, turismo e comércio se perdem com o investimento em infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis.

Esta análise faz me lembrar as aulas de Economia que tive no 10º ano, em Coimbra, onde aprendi o que era um custo de oportunidade. O exemplo foi simples. Numa tarde podemos escolher ou ir a um cinema ou estudar para o teste. O resultado do teste determinar-se-á, grandemente, pelo investimento feito em cada opção. Tudo é um custo de oportunidade. Em Cascais, nada me parece mais claro. Perdem-se as melhores oportunidades de transitar para uma economia descarbonizada, investindo na expansão das actividades aeroportuárias em Tires, porque quem governa o município continua a optar por ir ao cinema em vez de estudar para o derradeiro teste das nossas vidas: a crise climática.

*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.



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