OPINIÃO
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| 07 janeiro 2021 |
Mas
em que é que esta pandemia se relaciona com o Pacto Ecológico Europeu e o aeroporto
de Cascais? Porque a União Europeia se comprometeu a reduzir até 2030 pelo
menos 55% das suas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e cada euro
gasto hoje, seja a nível municipal, nacional ou europeu, ditará se travamos a
fundo nas emissões, e canalizamos o dinheiro público para essa rápida transição
económica, social, cultural e ecológica que necessitamos, desde a mais pequena
aldeia até às grandes metrópoles, seja nas ilhas quer no litoral ou no
interior, ou desperdiçamos este orçamento de carbono a correr atrás de um
modelo de “desenvolvimento” obsoleto e assente em indústrias e infraestruturas
baseadas em combustíveis fósseis.
E
é este o caso do aeroporto de Cascais. Percebendo que a pandemia nos trouxe
ainda mais dificuldades financeiras e económicas fará sentido continuar a
investir numa infraestrutura que caminha para a obsolescência? Fará sentido
fazer parcerias e acordos para termos viagens a low cost de Cascais para
Portimão, Viseu ou Bragança (na Sevenair)? Será um bom investimento gastar
dinheiro camarário para o manter como o 4º aeroporto mais movimentado do país
(a seguir a Lisboa, Porto e Faro)? Será também racional apostar na formação de
pilotos quando o sector da aviação contribui com cerca 4% do total das emissões
de GEE na Europa e representa 14% no sector dos transportes? Mesmo quando este
sector se encontra em forte declínio e contração na economia “pós” Covid-19?
Melhor, alguém conhece o real impacto da poluição sonora, atmosférica e
luminosa de se expandir o aeroporto de Cascais, como a Câmara tenciona fazer?
Estas
perguntas terão várias respostas, o que as distingue são os olhos de quem as
analisa. Numa visão meramente economicista, clássica, estes investimentos fazem
sentido porque trarão, hipoteticamente, mais comércio, negócios, turismo,
investimento, empregos. Numa perspectiva holística, ecologista o que pesa é que
tipo de turismo vem para Cascais, Portugal, que custos ambientais e sociais
advêm de ter mais transporte de passageiros e mercadorias aéreas no concelho,
no país e na Europa, que tipo de empregos se está a fomentar e que outras
alternativas de mobilidade, turismo e comércio se perdem com o investimento em
infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis.
Esta
análise faz me lembrar as aulas de Economia que tive no 10º ano, em Coimbra,
onde aprendi o que era um custo de oportunidade. O exemplo foi simples. Numa
tarde podemos escolher ou ir a um cinema ou estudar para o teste. O resultado
do teste determinar-se-á, grandemente, pelo investimento feito em cada opção.
Tudo é um custo de oportunidade. Em Cascais, nada me parece mais claro.
Perdem-se as melhores oportunidades de transitar para uma economia
descarbonizada, investindo na expansão das actividades aeroportuárias em Tires,
porque quem governa o município continua a optar por ir ao cinema em vez de
estudar para o derradeiro teste das nossas vidas: a crise climática.


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