MULTIMÉDIA

Escolas de Cascais: negociatas e ideologias.


                                                                          09 JANEIRO 2019

Carlos Carreiras, no seu estilo habitual, veio dizer, de acordo com o site da CMC, que “se o Ministério da Educação não permitir que a autarquia invista os 40 milhões de euros nas escolas do concelho, o município não voltará a fazer investimentos em escolas que são da competência do governo.” Isto porque o Governo recusa aceitar a pretensão da Câmara de encerrar a Escola Pereira Coutinho. Além do encerramento da Pereira Coutinho, a CMC diz querer construir uma nova Escola Secundária de Cascais, juntando também o Agrupamento de Escolas de Alcabideche e o Agrupamento de Escolas Ibn Mucana.


O Presidente da Câmara e o Vereador com o pelouro da Educação parecem querer fazer depender o investimento da autarquia da aceitação pura e simples dos seus intentos em termos de deslocalização das escolas. Com efeito, aparentemente, o plano da CMC passa por retirar do centro de Cascais escolas públicas do 2º e 3º ciclo e secundárias e remeter o ensino público para o Lado B de Cascais. Lá, bem longe dos condomínios de luxo que poderão então ainda surgir no Bairro do Rosário e junto à Praça de Touros, porque, afinal de contas, para este executivo, só o ensino privado parece dever ser contemplado. Tão contemplado que se cedem terrenos públicos por “tuta e meia” a colégios privados; tão contemplado que se cedem terrenos da RAN e REN para construção de escolas particulares; tão contemplado que se esfregam as mãos pensando no valor dos terrenos da Pereira Coutinho que, se urbanizados, renderão muito mais do que o investimento de 40 milhões de euros que a CMC promete fazer nas escolas.


Atendendo ao crescimento da quantidade de prédios que se tem verificado nos últimos tempos nas zonas mais centrais e mais caras de Cascais (Praça de Touros, Cidadela, Estoril, Monte Estoril, entrada do Jumbo, Birre, Areia, etc.) seria de esperar que a CMC se preocupasse em instalar nesses locais as escolas públicas necessárias a receber a população que (supostamente) aí passará a residir. Estranhamente (ou talvez não…), não é isso que se verifica. É antes o seu contrário: o desaparecimento de infraestruturas e áreas verdes públicas e a sua substituição por condomínios privados.


Em vez de apostar na criação de escolas públicas centrais de qualidade, a CMC prefere extinguir aquelas e favorecer – à custa de bens públicos – as escolas particulares. Sofre, manifestamente, de um preconceito ideológico grave: aparentemente, para os lados da sede do Município, só o que é privado é bom. Mas, hélas, há que financiá-lo com dinheiros ou bens públicos, “delapidando” bens públicos em benefício de privados, em total contradição com o liberalismo que parece professar. Esse preconceito é tão agudo que só aqui se passa um fenómeno deste estilo. Com efeito, nem em Oeiras, nem em Lisboa, nem em Sintra, nem em mais lado nenhum se vêem desaparecer escolas públicas centrais para dar lugar a empreendimentos privados.

O tipo de desenvolvimento que a CMC pretende levar a cabo cria uma forma de apartheid social e urbano e só prejudica as famílias que se veem impossibilitadas de ter os seus filhos em escolas públicas de qualidade próximo das zonas onde vivem, beneficiando exclusivamente os “golden visa” que, depois, nem aqui residem efetivamente. Tendo em conta aquilo que a CMC já está a fazer em alguns bairros sociais, não é de admirar, aliás, que em breve comece a pensar na deslocalização do cemitério da Guia para aí deixar construir mais uns empreendimentos de luxo. 


Este plano de deslocalização das escolas, se for levado por diante, apenas conseguirá dificultar a vida às crianças cascaenses e aos seus pais e isolar e degradar mais o ensino público ao mesmo tempo que confirma a tendência de tornar o litoral de Cascais um mega-aldeamento turístico ao gosto de patos-bravos do séc. XXI.


Numa altura em que cada vez mais se reconhecem as deficiências e inconvenientes dos grandes agrupamentos de escolas – que pais, alunos e professores criticam – e em vez de se empenhar no melhoramento das escolas públicas existentes que permitam à população em geral não ter que pagar as elevadas mensalidades dos colégios privados e gastar tempo e dinheiro em deslocações, a CMC rema contra-a-corrente e sugere a deslocalização de escolas (com os impactos ambientais e na qualidade de vida dos cascaenses que isso tem) e a criação de um regime digno de apartheid para os estudantes do ensino público de Cascais. Mas certamente alguém irá ganhar muito com isto. Resta saber quem.

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3 comentários:

Da Serra disse...

Ah...Ah...Ah... tanta crítica (merecida) ao José Luís Judas quando era presidente da CMC, pelo actual presidente, e agora... a construção voltou em força!!!

JD disse...

Partilho do ponto de vista de que a CMC se confunde com o modelo de promotor imobiliário sem contemplações com a população que, afinal, não lhe interessa minimamente, e são disso várias as manifestações. Não sendo promotor imobiliário, dificilmente se pode perceber que não haja interesses egoístas, que à CMC compete moderar ou travar, e ficar longe deles.
Subscrevo o singular comentário anterior.
JD

Anónimo disse...

Este artigo retrata fielmente,a ganância de alguns face ao interesse publico das pessoas .

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