Quem são os radicais afinal?


                                                                               26 JULHO 2019

A nossa casa está a arder” diz, e bem a jovem Greta Thumberg. A Casa está a arder, a cozer e a derreter. A arder juntamente com o milhão de espécies em risco da cada vez mais eminente sexta extinção em massa.

Recentemente, uma onda de calor afetou a Califórnia, nos Estados Unidos, e já causou a morte de centenas ou milhares de mexilhões, que foram encontrados na costa do Pacífico completamente cozidos e com as conchas queimadas. Os glaciares continuam a derreter a uma velocidade vertiginosa.

Não apenas Greta, mas tantos outros jovens (os mais prejudicados) unem-se agora para tentar salvar o planeta. Basta ver a adesão à manifestação “Jovens pelo Clima”, que aumenta de ação em ação.


As Alterações Climáticas e o flagelo da poluição e do lixo são, a meu ver, a pedra basilar, a pedra roseta para todos os outros temas e problemas da sociedade e do mundo. Um artigo no The Guardian refere inclusivamente que os “direitos humanos podem não sobreviver à Crise Climática que se vive”.

Num artigo da Visão, o nutricionista Pedro Graça dizia o seguinte:
“Há uns meses atrás ouvi um importante responsável da área da agricultura afirmar que a defesa do meio ambiente necessitava de uma estratégia global e sensata e não devia ser confundida com pequenas ações radicais. Estas pequenas ações assemelhavam-se a aperitivos, como um prato de tremoços, que nunca resolveriam situações mais gerais como as que vivemos atualmente. Pois permita-me discordar. Não apenas porque as “estratégias globais sensatas” significam habitualmente manter tudo na mesma, mas porque o consumo de tremoços e outros pequenas ações são a chave para o cidadão agir e para tornar melhor a saúde do nosso planeta.”

Não só subscrevo esta afirmação, como acrescento e a estendo a outros responsáveis partidários: porque dizer (e escrever) que os nossos gestos não ajudam "um milímetro" o ambiente é simultaneamente uma irresponsabilidade e uma estratégia para manter os mesmos velhos hábitos, sempre na perspectiva do “Eu até já faço mas não é por aí”.

Sabemos que mudar custa, mas não sejamos ingénuos: não é um “salvador”, um Governo ou um Estado que vai mudar o paradigma, por muito que nos queiram convencer disso. São esses sem dúvida, mas também somos todas e todos nós. A luta pela nossa sobrevivência tem duas frentes: a coletiva e a individual, que é cada vez mais sustentada por estudos científicos.
Muito se tem falado no combate às alterações climáticas e em temas relacionados com a ecologia, mas não se pode falar verdadeiramente de ambiente sem se falar do que não é popular mas é urgente: o veganismo, o vegetarianismo ou no mínimo a drástica redução de produtos de origem animal. Porque os hábitos de consumo e a Crise Climática estão interligados. O consumo excessivo destes produtos está literalmente a colocar o planeta em risco. A indústria agropecuária é responsável por grande parte das emissões de CO2, destruição de solos e esgotamento de recursos hídricos e aquíferos. Por exemplo, 1 kg de carne emite tanto CO2 como andar 150 km de carro, ou ainda, usando o mesmo kg de carne, são necessários cerca de 15000 litros de água para o produzir até chegar ao prato. É assim tão radical deixar de comer carne, sabendo que existem alternativas saudáveis e muito mais sustentáveis?

Outro tema controverso e nada popular é o das sobre-pescas. Estima-se que em 2050 haverá mais plástico nos oceanos do que peixe. Em parte devido ao excesso de plástico mas também a diminuição de peixe. Insistimos em continuar a viver acima dos nossos recursos, a pescar acima dos valores aceitáveis para o equilíbrio dos ecossistemas. Todas e todos nós podemos ajudar a colmatar estes números eliminando ou reduzindo o consumo de peixe.

Na vanguarda desta temática, acompanhando a crescente procura e aumento de vegetarianos em portugal, o PAN conseguiu ao longo destes 4 anos incluir a opção vegetariana obrigatória em todas as cantinas públicas. Esta medida teve enormes repercussões no ambiente e eco lá fora.
Para ajudar numa transição saudável, a Direção-Geral de Saúde já tem dois manuais para quem deseja uma equilibrada e vegetariana para adultos e para crianças.

A Greta é uma ativista climática e como tal é também ela vegana e um exemplo a seguir, apesar da maior parte das pessoas por desconhecimento ou conveniência nunca o referirem.  É curioso que o ano em que o parlamento Português declarou o estado de emergência climática é também o ano do veganismo. Não tenhamos dúvidas: “Comer é um ato político” e o ativismo sério começa no prato.

Da parte do PAN, estamos a fazer o nosso trabalho. Com a eleição de um Eurodeputado, conseguimos lugar na Comissão do Orçamento, na Comissão das Pescas e um lugar como primeiro Vice-Presidente da Comissão Europeia da Agricultura. É nestas 3 comissões que grande parte do combate à Crise Climática pode ser feito.
Voltando às ações de cada um quero dar como exemplo a seguinte frase: “é só uma garrafa de plástico”, disseram 7 Billiões de pessoas. O peixe e o sal contêm pequenas partículas de plástico e estima-se que cada um de nós ingira cerca de 70 000 partículas de plástico por ano
Este flagelo é tão grande que já existem ilhas de plástico no Pacífico e mesmo no Atlântico. Este ano uma equipa de investigadores descobriu na Madeira e nos Açores um novo tipo de poluição causada pelo plástico em algumas rochas. Foram encontradas partículas de plástico no fundo do mar durante um mergulho de profundidade. As tartarugas marinhas confundem sacos de plástico com alforrecas, acabando por morrer. Baleias são encontradas mortas com toneladas de plástico no seu interior. Toda a vida marítima está em risco mas não só, no Japão por exemplo veados estão a morrer devido ao lixo deixado pelos turistas.

O PAN apresentou propostas para que os sacos de plástico fossem mais caros e isso acabou por reduzir e muito o seu consumo. Cada vez mais existem alternativas como os sacos reutilizáveis ou de panom é uma questão de hábito. Será assim tão radical?  Na mesma linha, o PAN conseguiu ver aprovada a sua proposta de Tara Recuperável, que brevemente entrará em vigor. Mas não basta. Temos mesmo de reduzir o consumo de plástico e acabar com os descartáveis que se usam uma única vez e perduram no tempo, fazer ações de limpeza, sensibilizar as pessoas à nossa volta para este flagelo.



Uma imagem, biliões de ações diárias (beatas para a chão). E ainda dizem alguns sectores políticos que a mudança apenas se fará com a mudança de sistema. A questão é que o sistema somos todos nós, diariamente. As pequenas ações e a irresponsabilidade de quem acha que “por fazer pouco não muda nada”.

Somos muitas vezes apelidados de radicais. Mas a noção do que é radical é percecionada de diferentes formas. Exemplo disso é o projeto de Lei do PAN relativo ao fim a dar às beatas de cigarros,  recentemente aprovado no Parlamento. A proposta prevê coimas, mas também prevê a existência de cinzeiros em estabelecimentos. Tendo em conta de que as beatas já são a maior fonte de lixo mundial é assim tão radical esta proposta? Não será mais radical achar que liberdade individual é liberdade para sujar o que é de todos e de todas?  Radical é termos as ruas, os mares, as florestas cheias de beatas, isso sim é radical. 
Quando nós dizemos que  a “Nossa ideologia é a ecologia”, queremos, sim, mostrar que independentemente das ideologias obsoletas da velha dicotomia de esquerda/direita esta é a derradeira pedra basilar. 

Volto a perguntar: será o PAN um partido Radical? Serão as medidas do PAN radicais? Serei eu também assim tão radical?

Radical é saber de tudo isto e querer manter o Status Quo. Radical é manter tudo como está, mesmo perante a iminência da nossa própria sobrevivência.  Se ser radical é cuidar e proteger do que é de todas e todos, então sou radical e, sim, o meu partido também.

Cada gesto conta. Sem julgamentos, nenhuma destas mudanças é demasiado radical ou demasiado pequena. Todas são necessárias.

Faltam 10 anos para o ponto de não retorno, e cientistas de Harvard dizem que temos apenas 5 anos para salvar a humanidade das alterações climáticas.  Radicalismos à parte, eu acredito que ainda vamos a tempo.

*DEPUTADA MUNICIPAL DO PAN

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