Os malabarismos do senhor do costume


28 JANEIRO 2020

Carlos Carreiras veio, recentemente, publicar numa das suas páginas de Facebook, um gráfico destinado a criar a algumas mentes menos avisadas a ideia de que o número de licenciamentos urbanísticos diminuiu desde que chegou à CMC e foi particularmente baixo enquanto Piteira Lopes assumiu o pelouro. Evidentemente, apesar de Carlos Careiras apregoar em letras garrafais que tal é a verdade, não deixa de ser uma verdade bastante coxa. Esperar-se-ia de um contabilista um pouco mais de rigor e de menos demagogia mas é também sabido que Carreiras prefere a demagogia à frieza de certos números ou constatações e que o mesmo sabe que há muitas formas de vender um produto.

Com efeito, antes de mais, importa realçar que se trata de número de licenciamentos e não de número de fogos licenciados ou de superfícies (comerciais ou habitacionais) licenciadas, o que é bem diferente.

Basta uma contabilização rápida do número de fogos de alguns empreendimentos em Cascais para se perceber que o gráfico dá uma ideia errada da realidade. Vejamos, só no sector de luxo ou extra-luxo:

- One Living: 84 apartamentos;

- Bayview: 35 apartamentos;

- Bloom Marinha: 85 apartamentos;

- Maria Pia: 14 apartamentos;

- Marinha Prime: 55 apartamentos;

- Avencas Ocean View: 9 apartamentos;

- Quinta de S. Gonçalo: 54 apartamentos;

- Hotel Cidadela Cascais: (além do hotel propriamente dito) 10 moradias e 28 apartamentos;

- Nau Cascais: 28 apartamentos;

- Santa Marta Residences: 10 apartamentos;

- Villa Praia: 4 apartamentos;

- Lumen: 5 apartamentos;

- Casas da Areia: 7 apartamentos;

- Castelhana Residences: 6 apartamentos;

- Estoril Villas: 9 apartamentos;

- Lazúli Cascais Residences: 6 apartamentos;

- Edifício Teatro Cascais: 21 apartamentos.

- Monte Estoril Ocean Residence: 14 apartamentos.

- Villa Montrose: 23 apartamentos;

- Monte Estoril Apartments: 12 apartamentos;

- Estoril Villas: 9 apartamentos;

- Casas da Areia: 7 apartamentos;

- Villa Praia: 4 apartamentos;

- Villa dos Melros: 12 apartamentos;

- Bicuda Urban Village: 9 apartamentos;

- Pinhal do Guincho Villas: 6 apartamentos;

- Villa Marinha: 9 apartamentos;

- Quinta Pedra d’Água: 11 apartamentos;

- Villa Sofia: 5 apartamentos;

- Estoril Terrace: 7 apartamentos;

- Villa Vista Bella Estoril: 4 apartamentos;

- Casas do Picadeiro: 4 lotes.


A referência aqui feita a apartamentos engloba as moradias e não tem em conta as áreas dos respetivos lotes. Os empreendimentos referidos são apenas alguns dos que foram licenciados e construídos nos últimos anos. Não se trata de uma lista, de forma nenhuma, exaustiva e engloba apenas empreendimentos situados nas zonas mais sensíveis, designadamente do ponto de vista ambiental, como a zona da Marinha-Guincho-Bicuda-Areia-Birre.

Fora do sector de luxo, a CMC anunciou a construção, no Bairro Marechal Carmona de 443 apartamentos.

Na Nova SBE, a construção foi licenciada numa área de 90.000 m2, tendo já, só para alojamento, 122 quartos, conta dispor de mais 100 nos próximos 2 anos e de 300 estúdios em 2020 (https://www2.novasbe.unl.pt/pt/life-at-nova-sbe/alojamento).

Além disso, só o Alagoa Office Retail corresponde a um licenciamento de 15.000 m2 para escritórios e o “magnífico” mono da Chabad, na Costa da Guia, privatizou uma área de 5.000 m2, destruindo uma zona verde que há muito era reclamada pelos moradores para equipamento desportivo/lazer e jardim.

Assim, numa conta rápida, facilmente se atinge o número de 1694 unidades de alojamento, o que corresponderia, grosso modo, à totalidade dos licenciamentos dos últimos 6 anos no quadro apresentado por Carlos Carreiras, sem contabilizar as legalizações de AUGI’S (áreas urbanas de génese ilegal) e sem contar com os licenciamentos de áreas comerciais, de hotéis e de todos os outros licenciamentos realizados no concelho. Atente-se que, só na Aldeia de Juzo, e dentro do segmento de luxo, há mais 123 anúncios de casas/moradias novas à venda (https://casa.trovit.pt/moradia-aldeia-juzo), além de estarem previstos diversos hotéis para o concelho (Sana Estoril, Legacy, Hilton, etc.) e empreendimentos a quem a CMC isentou, em vários casos, o pagamento de milhões, e de a CMC estar a fazer tudo para licenciar mais de 939 apartamentos só na Quinta dos Ingleses, em Carcavelos.

Ou seja, é evidente que o quadro apresentado como sendo “A VERDADE” mais não é do que um logro, destinado a tentar enganar papalvos. O mesmo só seria, de resto, importante se revelasse quantas unidades de alojamento foram licenciadas, a que área correspondem a totalidade dos licenciamentos efetuados sob os mandatos que exerceu e em que zonas se situam os mesmos… É por isso que, quer Carreiras queira, quer não, este executivo (Carreiras, Pinto Luz e Piteira Lopes) já tem na consciência coletiva, de facto, o sinal mais: mais destruição de espaços verdes; mais descaracterização da Vila; mais atentados ao património; mais construção em cima da costa; mais trânsito; mais poluição; mais caos; mais gentrificação; mais golden visas e lava-jatos; mais empreiteiros; mais betão; mais Judas. E muito menos Cascais.

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