Confiou, amou e quase morreu!


16 FEVEREIRO 2020

Em 2013, Alexandra  Cabral regressa a Portugal com os 3 filhos,  após 6 anos a residir e a trabalhar em Moçambique. A mãe, vítima de um AVC não deixou Alexandra com dúvidas: precisava dela. O sonho tinha que ficar adiado.

Alexandra reiniciou a vida em Portugal e, ao fim de semana, tinha por hábito frequentar um bar. Foi aqui que conheceu o agressor- um DJ que ai trabalhava. Ela estaria debilitada emocionalmente.

Ele foi um “gentleman”, muito atencioso, carinhoso, prestável com ela, dando ideia que a queria ajudar a ultrapassar os problemas. Também ele estava com problemas, pois tinha um filho e  estava impedido de o ver. (aqui, eu vi logo os sinais... Um bom pai, não pode nunca estar proibido de ver, ou estar com o filho/a). 

Com esta conversa, foram-se  aproximando, envolvendo-se durante algum tempo, embora não tenham vivido juntos. Cerca de 3 a 4 meses depois de iniciarem o relacionamento, o verdadeiro carácter deste ser começou a revelar-se: Ciúmes constantes,  uma violência psicológica atroz; "não prestas", "não vales nada". O controlo através de múltiplas chamadas diárias era outra das formas de intimidação, no intuito de a deixar cada vez mais fragilizada. Alexandra tenta afastar-se, mas não consegue...

E é aqui que começa a tortura. Num dos episódios de ciúmes doentios, agrediu Alexandra pela primeira vez, dando-lhe com toda a força um pontapé no peito. Ela consegue fugir no carro, mas ele consegue persegui-la a pé.

Alexandra vivia, então, numa localidade a 60km de distância dele;  a única forma  de contacto era sms e telefone.

Foi assim que ele lhe pediu desculpa por tudo. Alexandra voltou.

Durante todo o tempo de convivência, a violência psicológica já era uma constante e dominante na relação. Dizia-lhe a cada momento: “Não vales nada, ninguém te quer...és uma bosta, só eu cuido de ti...”.

Como as coisas não melhoravam, um amigo de Alexandra, ofereceu-lhe um espaço num complexo de piscinas em São Pedro de Moel, para que esta e as filhas pudessem descansar uma vez que o filho tinha ido passar as férias com o pai.

Astuto, o agressor foi trabalhar nesse verão de 2013 para o mesmo empreendimento, tornando a vida de Alexandra num inferno: agressões diárias, tortura do sono, não permita que ela dormisse, violações...

Um dia, não fossem os seguranças da discoteca do aldeamento e teria acontecido o pior: ele resolveu atira-la de uma varanda.

Alexandra Cabral, 42 anos
"Até esta altura nunca pensou em fugir, pois a agressão física custava menos que a agressão psicológica", contou Alexandra. A situação estava insustentável e com o dinheiro que tinha poupado, às escondidas, no final do Verão, Alexandra alugou uma casa em Leiria para onde veio a mudar-se com os 3 filhos. 

Em meios pequenos foi fácil o agressor descobri-la e foi atrás dela. Com vergonha que o filho mais velho soubesse que a mãe  era agredida, Alexandra  deixou o seu agressor ir viver com eles (ele só lhe fazia mal, quando os filhos dela não estavam).

O tormento começava assim que os miúdos saiam para a escola.

De todas as agressões e maus tratos, nunca ficaram marcas visíveis.

O filho mais velho andava desconfiado e um dia regressou mais cedo a casa e deparou-se com o agressor com o ferro de passar para pôr no rosto da mãe. Sem hesitar, foi fazer queixa à PSP e, então, ficaram convencidos que esse era o último dia. Vieram a saber tempos depois que ele tinha feito uma chave do sótão da casa e passara a viver lá. Um espaço reduzido, sem água e por lá permaneceu 4 meses.

Na sequência da primeira denúncia, a vida de Alexandra que já era difícil, tornou-se insuportável. Ele passou a persegui-la na rua e a agredi-la em qualquer lado. Nunca ninguém a ajudou. Enviava semanalmente milhares de sms, ligava a qualquer hora, de dia ou de noite. E se Alexandra não lhe abrisse a porta, incomodava os vizinhos, tocando vezes sem conta às campainhas.

Após a denúncia, as técnicas da CPCJ alegaram que os filhos tinham que ir para uma instituição, porque Alexandra se recusou a assinar um documento com um segundo acordo, que segundo o advogado de Alexandra era completamente um absurdo.

As técnicas queriam que Alexandra se comprometesse a não se aproximar do agressor, sendo que ela era perseguida por ele diariamente.

O pai de uma das filhas comprometeu-se, na altura, a ficar como tutor de todos os filhos dela, mas as técnicas recusaram, alegando que primeiro iriam para uma instituição e depois o tribunal decidiria...

Alexandra seguiu com o processo e o tribunal deu - lhe razão.

Um dia, num ato de desespero, Alexandra sem saber mais o que fazer, dirigiu-se ao bar onde o agressor trabalhava. Implorou que se afaste deles, pois estava em risco de perder os filhos, e não aguentava tanto sofrimento.


Sequestrada e violada

Nessa noite, após o bar fechar, Alexandra pensou estar no bar com o agressor e os dois sócios dele (como era hábito). Mais uma vez o destino pregou-lhe uma partida: os sócios saíram e ela ficou sozinha com ele. Nunca, nem nos piores pesadelos, imaginou o que estava para acontecer... 

Estavam só os dois e ele  trancou-a no bar. Foi agredida, violada, durante doze horas...Alexandra gritou com todas as forças que tinha, mas sem sucesso.

Ele retirou-lhe o telemóvel e arrancou os fios do  telefone fixo. Quando a viu olhar para as câmaras de vigilância internas, riu-se e disse que as tinha desligado.

Exigiu que esta lhe dissesse que o amava. Ela recusava e ele batia cada vez mais, arrancando-lhe cabelos; fez o que quis... Ao meio dia do dia seguinte, serviu-lhe o almoço que tinha na copa do bar obrigando-a a comer. Alexandra despeja-lhe o sumo em cima, foi o que conseguiu fazer com as poucas forças que lhes restava. Violou - a  mais do que uma vez, e ela tentou fugir.

Conseguiu passar a anteporta do bar e pedir socorro a um arrumador de carros, explicando-lhe que estava sequestrada há 12 horas. Este foi pedir ajuda, mas voltou sozinho. Foi o agressor  que lhe entreabriu a porta do bar e ficou a saber que ela tinha pedido ajuda. Reunindo todos os bocadinhos de força que ainda tinha. Alexandra conseguiu fugir, foi a uma garrafeira ao lado pedir socorro.

Ele apareceu, alegou que esta estava sob efeito de drogas, coisas que ela nunca consumiu...A Sra da garrafeira, que já tinha o telemóvel na mão, desligou a chamada e continuou a atender clientes.

Alexandra correu para a rua, pediu novamente socorro a um advogado conceituado da cidade, que a aconselhou a conversar com o agressor...

Desesperada, começou a correr que nem uma louca pela cidade de Leiria para tentar chegar à PSP e quando ai chega finalmente Alexandra consegue foi bem recebida, mas o agressor foi atrás dela. Acabou por desaparecer...Alexandra foi levada para o instituto de Medicina Legal e de lá para as instalações da PJ para prestar declarações.

O agressor foi lá ter, já de roupa lavada e banho tomado.

Limpou todos os vestígios de agressões, foi-lhe colocada pulseira eletrónica mas, mesmo assim, violava as medidas de coação e nunca lhe  acontecia nada...

Alexandra passou a usar uma pulseira de pânico.

Os meses foram passando e Alexandra conheceu o pai da sua quarta filha, uma pessoa fantástica que a apoiou imenso, gostou dela na pior fase da vida.

Durante a gravidez, ela continuou a usar o aparelho de pânico e na maternidade ele não parava de apitar "agressor na área restrita". Era um pânico total.


Perseguida pelo passado

Foi julgado e condenado a 2 anos e meio de pena suspensa e 5 anos de pena acessória com pulseira eletrónica. Recorreu...Como o responsável por ele na inserção social nunca apresentou os relatórios reais dos incumprimentos das medidas de coação, ganhou o recurso e a pulseira foi-lhe retirada. 

Passaram anos e regressou há pouco tempo a Leiria...

Alexandra, 42 anos, designer de interiores e consultora imobiliária, treme sempre...

Conseguiu sozinha, recuperar a sua autoestima. Os fantasmas do passado ainda a acompanham. 

Alexandra era daquelas mulheres que dizia que homem algum  lhe levantaria a mão. Mas a violência doméstica está escondida, em qualquer um, em qualquer parte...

Alexandra vive sozinha para ela e para os seus 4 anjos, os seus filhos.

Esta é uma história real. Não pode ser contada de outra forma. Cada história destas é um passo atrás na evolução da humanidade.

Não pode ser uma história nua e crua, porque os sentimentos nunca serão assim. 



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