A Imprensa lava mais branco


                                                                 27 JANEIRO 2019

Em nome de uma putativa liberdade de expressão e de um, também putativo, direito à informação, diversos órgãos de comunicação social têm, deliberadamente, vindo a promover um discurso de extrema-direita, racista, xenófobo e nacionalista que me traz à memória as mais negras épocas da história humana: o nazismo. Associe-se isto ao saudosismo passadista da glorificação ao Estado Novo e ao homem que mandava prender, torturar e matar os que se lhe opunham e que dá pelo nome de Oliveira Salazar e estão lançadas as bases para o branqueamento dos horrores cometidos pelo antigo regime.

É certo que os jornais, e as televisões, têm de conseguir leitores; é lícito, mas não a qualquer preço e, especialmente, não podem, não devem, limitar-se a induzir notícias de movimentos “libertadores”, falsas, por via de regra, como se menos de três dezenas de extremistas proto-fascistas fossem a perfeita imagem de um mal-estar social coletivo face à democracia.

A imprensa tem responsabilidades democráticas na formação da opinião pública - não basta apregoar o direito à informação e ao direito à liberdade de expressão; é necessário que a notícia faça o contraditório e relate fielmente os factos.


E os factos são estes: existe uma tentativa deliberada de branquear o Estado Novo, como se de uma época dourada se tivesse tratado; existe uma tentativa deliberada de provocar o caos social através da promoção da violência policial (que também existe, ainda que não praticada por todos os polícias), justificando o que não tem justificação; existe uma tentativa deliberada de perverter os princípios básicos de uma democracia em nome de uma cultura “branca, católica e ocidental”, como se a história da humanidade fosse outra coisa que não a mera história das migrações.

A estes WASP à portuguesa só me apetece lembrar-lhes que o genoma peninsular é constituído em cerca de 80% por genes berberes (do Norte de África, para quem não saiba) e semitas (do Médio Oriente, judaicos incluídos) e os restantes 20% numa amálgama de celtas, latinos, germânicos e por aí fora.

Enquanto militante do Bloco de Esquerda, não posso deixar de lamentar estes factos; em nome dos princípios que defendo, não posso deixar de repudiar os ataques que à democracia e aos valores democráticos certos sectores têm vindo a promover; em nome da verdade histórica, não posso deixar de condenar as tentativas de branqueamento dos valores e das práticas sociais, económicas e políticas que prevaleceram em Portugal até Abril de 74.

Podemos não viver na sociedade perfeita - há ainda tanto por fazer! Mas, foi já o tanto que andámos para aqui chegar! - mas não podemos negar que, em média, se vive imensamente melhor agora que há 50 anos atrás - lembremo-nos das inúmeras extensões de barracas na periferia de Lisboa; das inúmeras crianças que iam para a escola descalças e aquelas que nem sequer podiam lá ir; da ausência de serviços de saúde para a maioria da população; de ausência de reformas e de pensões; da guerra colonial; das prisões políticas; da ausência de liberdade; em suma, de tantas coisas que hoje damos por garantidas.

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