A árvore e a sinagoga


                                                                      29 JANEIRO 2019

Começaram as obras de construção de uma sinagoga na zona da Guia. O facto de imediato gerou polémica e revolta dos moradores, até agora habituados a usufruir de um frondoso espaço verde junto às suas habitações. A SIC e o CASCAIS24 deram notícia, ilustrando com imagens recolhidas no local pela associação de moradores que mostram o derrube de uma árvore. 

A verdade é que esta obra no interior do concelho construída num terreno expectante seria um fator de qualificação. No litoral em substituição de um jardim, vem desqualificar o bairro.

Será um templo religioso, mas a questão não é religiosa.

A Câmara vai receber uma renda, mas a questão não é financeira.

O que está em causa é uma questão urbanística. Uma má decisão urbanística, neste caso. 

Acolher em Cascais um templo judaico só vem corroborar o sentimento inclusivo que esta terra se orgulha de possuir há muitos anos. Fomos terra de refúgio e porto de abrigo de cidadãos perseguidos nos mais variados países do mundo. Fomos porta da liberdade para muito judeus durante a Segunda Guerra. Acolher a comunidade judaica em Cascais, com o seu templo religioso, só vem enriquecer a diversidade cultural desta terra e dar jus à nossa História local do século XX. São bem-vindos. A questão não é religiosa.

O preço a pagar ao município – 700€/mês – é baixo, mas também não é essa a questão. Mesmo que o valor a pagar pela associação fosse de 7 mil euros mensais isso não tornaria correta a decisão de instalar ali o templo. 

A questão é mesmo urbanística. Este será para todos os efeitos um equipamento público de grande qualidade, que vem servir uma comunidade local e traduz a hospitalidade desta terra. Instalado no interior do concelho numa zona a recuperar, seria um fator de qualificação. Colocado no litoral em substituição de um jardim, vem desqualificar o bairro. 

Parece que a Câmara entende que tratando-se de um equipamento de qualidade, ainda por coma para ser utilizado maioritariamente por estrangeiros, tem de forçosamente ficar no litoral. E isto é o mais errado de tudo, pois traduz a velha visão do desenvolvimento do território a duas velocidades: Auditórios modernos, universidades, hotéis, teatros, centros culturais, ficam no litoral. Cemitérios, aterros sanitários, bairros sociais, são da autoestrada para cima. 

Por isso é que isto é errado no plano do urbanismo. O concelho tem de ser visto como um todo. Se nos investimentos privados a Câmara não pode controlar onde são feitos e tem de se sujeitar à vontade do investidor, é imperdoável que quando pode decidir não opte pela requalificação do interior do concelho. Com a agravante de destruir uma zona verde para instalar a sinagoga.

Permitam-me um aparte para dizer que foi para contrariar esta litoralização que que em 2006 construímos as piscinas municipais na Abóboda e não em Cascais. Só que infelizmente este foi o último equipamento público de grande qualidade a ser feito no interior do concelho.

É certo que a utilização religiosa do espaço na Guia estava prevista desde que a Câmara de José Luís Judas cedeu o terreno à paróquia de Cascais. Não contestamos. Mas eu pensava que já tínhamos avançado um bocado em matéria de urbanismo desde a betonização selvagem dos anos 80 e 90.

*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.

Imprimir


2 comentários:

Miguel Oliveira disse...

Genericamente estaria de acordo com este artigo se, e é um grande SE, se tratasse de facto de um investimento. Mas não é. É mais uma operação de entrega aos interesses de uns poucos uma fatia nobre do património público - porque parte da área vai ser vedada e de acesso muito restrito. É mais um erro e mais um ataque neo-liberal aos direitos adquiridos pela população cascalense.

Neves disse...

E para cúmulo do que uma Câmara não deve fazer é que esse espaço verde, junto ao parque infantil, tem sido usado por todos os moradores e visitantes e apesar de mais de 1500 moradores terem feito o abaixo-assinado a pedir que não destruíssem este espaço e fossem construir a sinagoga noutro local que não tivesse uso, desde o início o presidente Carlos Carreiras afirmou que, como tinha sido eleito, faria o que quisesse e não pretendia atender ao pedido dos moradores que chamou de xenófobos. Da parte da associação Chabad também não houve abertura nem diálogo, vieram para Portugal onde foram bem aceites e não tiveram a dignidade e humildade de não aceitarem usurpar um terreno usado por tantos moradores e seus vizinhos. Isto sim é autoritarismo vaidade e prepotência. Porque será?! Se a justiça funcionar, um dia saber-se-à!

MAIS PROCURADAS

MULTIMÉDIA.SAÚDE

MULTIMÉDIA. SEGURANÇA

A PSP e o Metro recomendam: "Durante a abertura de portas não utilize o telemóvel. Pode ser vítima de roubo."