A incongruência elevada ao poder


06 MAIO 2020

Em Cascais, o executivo camarário é exímio em fazer uma coisa e dizer outra e/ou em dizer uma coisa e fazer outra, ou em dizer uma coisa e o seu contrário. É verdade que há zonas ventosas em Cascais mas, nos últimos tempos, não é seguramente por efeito da nortada que as opiniões mudam para o lado dos Paços do Concelho!

Vejamos:

1 – O Paredão: O Presidente da CMC começou por mandar fechar o paredão e as praias. Depois do brado que a decisão causou, constatou (ou alguém lhe disse) que não tinha competências para tal, nem ao abrigo do decreto do estado de emergência, nem enquanto autoridade da Proteção Civil. Veio, pois, rapidamente dizer que a decisão era da capitania. No dia 1 afirmou que reabriria no dia 18; afinal reabriu hoje. É o que se pode chamar de planeamento... A esse propósito, não teria sido preferível defender, desde o início e em particular agora, a manutenção da distância de segurança e o uso de máscaras em locais como o paredão, as praias e os parques?

2 – As máscaras: O Presidente da CMC veio dizer que (através da doação feita às IPSS com dinheiro dos munícipes) iriam vender máscaras a 0,70 cêntimos e a anunciar isso como um feito extraordinário. Após a montanha de críticas pelas filas que potenciavam o contágio, a violação de dados pessoais e a divulgação da notícia que muitas Câmaras com recursos bem menores as estavam a dar, começaram subitamente a proliferar máscaras gratuitas, distribuídas em ações levadas a cabo pelas Juntas de Freguesia, com o beneplácito e apoio manifesto da CMC. Agora, são vendidas anonimamente 4 a 0,25 cêntimos. Em breve, depois de se terem gasto tantos milhões (ainda não totalmente contabilizados) e, mais recentemente, 850 mil euros de verbas camarárias na aquisição de material para o fabrico de máscaras (como se não houvesse empresas portuguesas capazes de as fabricarem mais baratas e rapidamente!...), as máscaras abundarão aos milhares, sem que se saiba que uso dar-lhes, acumulando stocks em locais recônditos onde não seja fácil observar o dinheiro mal gasto.

3 – As ações: O Presidente da CMC proibiu as comemorações do 25 de Abril em Cascais mas depois aparece e divulga ações levadas a cabo sem o respeito pelo distanciamento social e algumas mesmo sem máscaras (a este propósito, veja-se o último artigo da Teresa Gago publicado neste jornal).

4 – O ambiente: Em Cascais os parques foram encerrados (até os simples bancos da Baía!), ao contrário do que sucedeu em Lisboa ou Oeiras. Certamente porque em Cascais a qualidade do ar é ótima e todos moram na Quinta da Marinha, com grandes jardins, campo de golf e piscinas privadas!... Ou então porque a população não precisa do ambiente. Na verdade, deve ser também isso que justifica que o betão continue imparável no concelho, que não haja campanhas para a colocação de máscaras e luvas no lixo; que estas se amontoem nas sargetas e vão parar ao mar; que a CMC tenha recusado o apoio, nessa matéria, da Associação Ambiental Cascaisea enquanto promove ações de limpeza por associações menos preparadas; que tenha havido desinfeções com um produto que, na verdade, é uma lixívia; que tenham morrido dezenas ou centenas de peixes ou que os esgotos, nomeadamente na zona da Guia, revelem a evidente falta de capacidade da ETAR para tratar os esgotos de tanta gente em casa!

5 – A ação “musculada”: Após uma chuva de críticas, o Presidente da CMC veio também dizer que não sabia, nem fora consultado sobre a ação “musculada” levada a cabo pelas forças de segurança no último fim-de-semana de estado de emergência. Dois dias depois do termo dessa ação, afirma na televisão (SIC Notícias) que o Conselho de Segurança Municipal trata desse tipo de questões e que funciona muito bem. Ora, ou bem que o Conselho de Segurança municipal (que a CMC integra) funciona bem e o Presidente conhecia a ação levada a cabo pelas forças de segurança, não sendo verdade o que o mesmo afirmara anteriormente; ou o Conselho de Segurança funciona mal e, então, há motivos para admitir que o Presidente a desconhecia previamente. O que não é melhor.

6 – A descentralização: Aliás, outra das incongruências resultou evidente nessa intervenção televisiva: apesar de anteriormente o Presidente da CMC elogiar o Governo pela descentralização promovida por este último, nomeadamente, na área das escolas e da orla costeira (e vamos ver onde isto nos levará!..., mas isso será objeto de outro artigo), agora vem contestar a decisão do Governo de lhe retirar competências sobre a polícia municipal! É manifesto que tudo o que seja retirar poder aflige o Presidente da CMC! O que não é de estranhar, quando o mesmo não tece o menor comentário negativo à obscena campanha difusora do medo recentemente lançada por gente muito próxima da CMC!

7 – A empresa que a CMC escolheu para adquirir máscaras e outro material faturou, numa semana, 14 milhões de euros, o equivalente ao triplo da sua faturação anual. A grande adquirente foi a CMC. Como se justifica isto???

Talvez tudo isto explique em parte que o sucesso de Cascais no controlo da pandemia tenha sido muito modesto, apresentando taxas por habitante infelizmente superiores, por exemplo, às de Sintra ou Oeiras (dados de início de maio).

Contudo, e independentemente dos casos (uns entre muitos) acima referidos, há que saber avançar e é isso que não se está a ver. O que se vê é apenas sempre e mais propaganda.

8 – As medidas para o futuro: Com efeito, a CMC, perante a magnitude da crise que se avizinha, não tomou medidas significativas de apoio à generalidade da população: não suspendeu o IMI; não reduziu significativamente o preço ou as taxas sobre a água; não está a promover devidamente o comércio de rua (não é seguramente a app desenvolvida que o fará!...); etc.. Em vez disso, entretém-se a comprar contentores, empilhadoras e baias (baias!!!). Para quê?

Anunciou, é certo, agora o aumento de até 100% da área das esplanadas. Mas é evidente que isso só funciona para alguns: a maior parte dos restaurantes e lojas não tem, nem pode ter esplanada; se as mesmas forem aumentadas ou colocadas em determinados locais, a passagem de peões fica impedida. Aliás, o facto de o pedido ser realizado através da e decidido também pela DNA Cascais é sintomático…

Pena é que não se promova decisivamente todo o comércio tradicional e de rua! Irão estes empresários locais engrossar o número de insolvências, despedimentos e/ou lay off para aumentar a necessidade de ações de caridade no futuro?

De que está à espera a CMC para aprovar medidas que melhorem de facto a situação de toda a população?  



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*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.
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2 comentários:

João Casanova Ferreira disse...

Quando vão os municipes de Cascais deixar de suportar tanta bagunça e incompetência desta permanente "navegação à vista" de quem se julga rei e senhor e, por ter a tal maioria absoluta, entendem não ter de prestar contas a ninguém?! É notório o desnorte e, não menos grave, é a total ausência de escrúpulos de quem, com os olhos postos nas próximas eleições autárquicas, ter o descaramento de ver no problema da pandemia uma oportunidade. Eleitoral, pois então. Como não há inaugurações e fitas para cortar tudo serve para a mais despudorada manipulação eleitoralista.

Papoila disse...

Não se compreende como é que uma população escolarizada como a de Cascais se deixa levar por tanta propaganda... As acções e omissões desta Câmara Municipal são mais que evidentes - a congruência e a consistência entre o discurso e prática do executivo também são evidentes - NÃO EXISTEM. É governar a bel-prazer e para agradar às hostes.

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