Juiz “censura” testemunha que foi depor em megajulgamento em Cascais com t-shirt a fazer apologia ao consumo de droga

EXCLUSIVO/Justiça


Por EMANUEL CÂMARA
25 setembro 2020

Uma das sessões de um megajulgamento com 16 arguidos, acusados de crimes de “phishing”, a decorrer em Cascais, ficou marcado por um facto algo insólito: O juiz presidente do tribunal colectivo “censurou” a falta de respeito e mau gosto de uma testemunha que compareceu perante os três juízes e o procurador, para prestar declarações, envergando uma t-shirt com uma palavra de calão estampada, fazendo a apologia ao consumo de estupefacientes.

Na frente da t-shirt figurava “dope”, uma palavra inglesa equivalente em língua portuguesa a maconha -- da qual deriva o haxixe--, estupefaciente, narcótico, anabolizante ou droga. Nas costas da t-shirt constavam expressões, igualmente em inglês, próprias de quem vive à margem da sociedade.

“Talvez não seja a melhor ideia uma t-shirt que diz ‘dope’ para vir outro dia. Se puder arranjar roupa um pouco mais formal, nós agradecíamos. Está bem?!. Não precisa de ser fato e gravata, mas escusa de ter, assim, droga à nossa frente, no tribunal…”, observou o juiz presidente, em tom directo e firme, no final do depoimento da testemunha.

Este facto insólito foi protagonizado por um homem, 30 anos, ajudante de pedreiro, arrolado como testemunha de defesa de uma familiar, que figura entre os 16 arguidos de um megajulgamento por múltiplos crimes de “phishing”, uma técnica de fraude na Internet utilizada para roubar senhas de banco, entre outros dados pessoais e financeiros, a fim de retirar dinheiro das contas.

Em causa está uma transferência bancária fraudulenta para a conta de uma prima daquele homem, satisfazendo o pedido de um brasileiro que conheceu num café, que ambos frequentavam, no centro da vila de Cascais.


Grandes bancos atacados

“Ele disse-me que o pai morava no Brasil e precisava de uma conta da CGD para lhe poder enviar dinheiro para Portugal. Dizia que tinha várias contas para pagar em atraso, incluindo o quarto onde vivia, e estava em risco de ser mandado embora pela senhoria. A minha prima concordou em ajudá-lo e forneceu o NIB da conta dela”, contou a testemunha.

Uma parte do dinheiro transferido foi logo levantado numa caixa multibanco, mas a conta da prima acabou bloqueada, na sequência do alarme desencadeado pelos mecanismos de segurança da instituição bancária.

Depois disso, o brasileiro, também arguido neste processo, desapareceu e nunca mais voltou ao café de Cascais, adiantou a testemunha, acrescentando que conhecia aquele simplesmente por Eduardo, na casa dos 30 anos. 

Ele fez o mesmo a mais pessoas. Até um amigo meu, também, foi enganado da mesma maneira. Não tínhamos bem a noção de quem ele era. Parecia ser boa pessoa, conversava bem, e tudo o mais”, contou a testemunha.

O suspeito, tido como um dos elementos mais ativos da rede criminosa em julgamento, chegou a ser detido por investigadores criminais da PSP em 2013, no Estoril.

Na sequência da denúncia de um taxista, que estaria a ser alvo de ameaças do brasileiro por ainda não lhe ter sido entregue todo o dinheiro movimentado em outra transferência, fraudulenta, para a conta de uma amiga da cunhada do profissional do volante.


“Receber dinheiro da avó”

Desta feita, tratava-se de uma conta no Banco Montepio, que o taxista arranjou acedendo a um pedido do brasileiro para “receber dinheiro que a avó lhe queria enviar do Brasil, por estar a passar por dificuldades em Portugal”.

Também alegava estar na eminência de ser despejado da casa onde vivia, por não poder pagar a renda.

Mal caiu na conta, a maior parte do dinheiro foi levantado em caixas multibanco, na presença do suspeito. “No dia seguinte, quando a amiga da cunhada foi ao banco tentar levantar o restante verificou que a conta estava bloqueada”, recordou o taxista. 

Para avivar a memória da testemunha, que já não se lembrava de alguns factos, o Ministério Público pediu para serem lidas as declarações prestadas à polícia de Cascais, em 2013.

Ficou, assim, a saber-se que o dinheiro transferido ascendia a um total de 1.900 euros.

Quase todos os arguidos, portugueses e brasileiros, terão cedido ingenuamente os seus dados bancários, facilitando avultadas transferências de dinheiro roubado de grandes bancos, através das contas particulares de terceiros.


Sete empresas lesadas

Entre os principais lesados figuram a Caixa Geral de Depósitos, o Banco Montepio e o Millennium BCP, e pelo menos sete empresas sediadas no norte do País.

Uma das empresas lesadas estava sediada em Vieira do Minho, no distrito de Braga, tendo sido roubados mais de mil euros de uma conta da sociedade no Millennium BCP.

O dono da “Vieira e Cruz Ldª”, ouvido por vídeo chamada através do WhatsApp”, contou ao tribunal que os criminosos também atacaram outra conta da empresa.

A mulher do empresário adiantou ao tribunal que foram retirados mais de cinco mil euros da conta no Montepio. “Ficamos sem esse dinheiro até hoje”, lamentou. 

Uma empresa em Paredes, no distrito do Porto, “Alexandre Teixeira, Sociedade Unipessoal Ldª”, também foi alvo de “phishing”, tendo sido retiradas avultadas quantias da sua conta no Montepio, transferidas para a conta de um terceiro.

O julgamento prossegue em Outubro com as alegações finais, a cargo do procurador do Ministério Público e dos 17 advogados de defesa dos arguidos e dos sete demandantes, para além do único assistente, a CGD.

A grande maioria dos advogados participam no julgamento por vídeoconferência, ou videochamadas, através de postos exteriores que permitem o contacto visual e sonoro entre todos os intervenientes processuais em simultâneo.



3 comentários:

Da Serra disse...

Censura?
País de brandos costumes.
Devia era ser expulso imediatamente!

Rui Almeida disse...

Exmo. Sr. Jornalista:
Se houve algo insólito, foi a testemunha ir com a tal camisola!
Cumprimentos

Rui Almeida disse...

Sr. Jornalista:
Se houve algum caso insólito, foi o facto da testemunha ir para tribunal com a camisola.
Os Tribunais continuam a ser locais de respeito é deferência.
Cumprimentos
Rui Pinto de Almeida

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