HOMICÍDIO. Inspetor da Judiciária diz em Tribunal que houve intenção de matar jovem tatuador do Estoril Bernardo Belém

JUSTIÇA

Bernardo Belém assassinado aos 26 anos por motivos fúteis

Por EMANUEL CÂMARA
22 outubro 2020

O inspetor da Secção de Homicídios da PJ que investigou o homicídio de Bernardo Belém, 26 anos, o jovem tatuador do Estoril esfaqueado mortalmente em setembro do ano passado no parque do McDonalds, em Santo Amaro de Oeiras, disse aos juízes do coletivo do Tribunal de Cascais que a profundidade dos golpes, no peito, e a força com que a arma branca foi manuseada indicam que o alegado autor do crime, um cidadão brasileiro “tinha a intenção de matar”. E acrescentou que o arguido “poderia estar envolvido em mais crimes da mesma natureza, embora, pelo menos, em Portugal, não houvesse registo policial”.

Saulo Cardoso, 24 anos, cidadão brasileiro, responde perante um tribunal coletivo, em Cascais, por homicídio qualificado pela morte violenta do jovem tatuador do Estoril, na sequência de agressões gratuitas, em 6 de setembro de 2019, no parque de estacionamento junto ao McDonald’s  de Santo Amaro de Oeiras. O brasileiro está ainda acusado de ofensas à integridade física qualificada de que foi alvo um amigo da vítima mortal, André Domingues, 22 anos, que também foi esfaqueado com gravidade na cabeça, mas sobreviveu graças a uma intervenção cirúrgica de emergência que lhe salvou a vida.

“É um ato muito violento. O corpo estava todo ensanguentado e a localização dos ferimentos é muito intencional. Não consigo conceber que uma qualquer luta tenha ferimentos tão localizados na zona do peito”, declarou, em tribunal, Pedro Costa, da Secção de Homicídios da Diretoria de Lisboa e Vale do Tejo da PJ, apoiado na longa experiência na investigação de homicídios e nos resultados das perícias forenses realizadas no Laboratório de Polícia Científica.

A descrição da cena do crime faz pensar que Bernardo Belém exalou o último suspiro num ”banho de sangue”, face aos vestígios hemáticos da vítima espalhados pelo terreno, e mais tarde detetados na roupa e nos ténis dos dois suspeitos iniciais, e ainda na lâmina da arma do crime, descrita como “um canivete”, e da qual foi ainda extraído ADN.

Ferimento aberto na nuca

O jovem tatuador teve "uma morte rápida" devido aos ferimentos, disse o inspetor da PJ
O cadáver apresentava um ferimento contundente aberto na nuca, com afundamento da massa encefálica, disse o inspetor Pedro Costa, adiantando ter-se chegado a suspeitar que poderia ser resultado de um golpe desferido por pancada com um gancho metálico de reboque de viaturas, que estava junto ao cadáver e consta dos autos.

Esclareceu que aquela ferida também pode ser compatível com pancada desferida por pedra ou cabo da navalha, e disse que numa queda desamparada o corpo não fica com aquele tipo de ferimento.

“A vítima tinha ainda um ferimento no externo (tórax), que é causa de morte pela perda constante de sangue. Além de uma ferida na clavícula e na face esquerda, ferimentos de arma branca”, sublinhou, descrevendo o grau da violência e a força empregue pelo arguido.

“Os ferimentos na zona do tórax são graves e a partir daí é uma morte rápida”, explicou a testemunha, adiantando que “quando existe luta com arma branca há sempre ferimentos por defesa, mas nada foi observado”.

Pedro Costa afirmou que “eles tinham a perfeita consciência do ato praticado, e que criminalmente ia prejudicar a sua vida”. Falando no plural, o polícia referia-se ao arguido e um amigo deste, português, 23 anos, que o acompanhava no dia do crime.

Este este último sido o primeiro suspeito a ser detido, mas acabou arrolado como testemunha da acusação pelo Ministério Público, tendo assumido que a arma branca utilizada nos crimes, lhe pertencia e costumava transportar no porta-luvas da sua viatura.

Os dois suspeitos fugiram do local do crime, mas Saulo Cardoso acabaria por entregar-se à PJ, aconselhado pelo seu advogado, assumindo apenas que teriam ocorrido agressões, em que teria sido interveniente.

Conclusões da investigação

Bernardo Santos Belém encontrou a morte no final de uma noite de diversão sem problemas
A PJ apurou que o arguido e o seu amigo estiveram envolvidos, na noite anterior, numa discussão com várias pessoas à saída de uma discoteca, em Lisboa, também frequentada pelos jovens esfaqueados, embora estes últimos nada tivessem a ver com os factos ocorridos na capital.

“E se há alguma coisa é com outras pessoas, e não com os ofendidos”, disse o inspetor Pedro Costa, apontando as conclusões da investigação da Secção de Homicídios da PJ.

Acrescentou que na discoteca estava um amigo comum que é único elo de ligação às vítimas, o qual interveio na discoteca para serenar os ânimos entre o arguido e outras pessoas.

“Os dois iam de passagem e quando se apercebem da presença de Bernardo Belém e do seu amigo, em Oeiras, fazem uma associação ao que está para trás, ou seja onde passam parte daquela noite, e, depois, só o arguido conseguirá explicar…”, concluiu o investigador criminal, afastando que tivesse ocorrido um eventual ajuste de contas.

“Em momento algum, nenhuma pessoa referiu que tivesse havido conflitos directamente com os ofendidos no interior, ou exterior, da discoteca”, recordou o inspetor da PJ.

A arma do crime foi entregue às autoridades passados três meses, através de um irmão do arguido que foi à procura dela tendo como referência a cor verde do cabo, e na sequência da intervenção de um novo advogado que ainda hoje continua a ser o seu defensor.

Arma do crime: canivete


Todavia, o inspetor da PJ fez questão de afirmar que até àquela altura o arguido “nunca se mostrou colaborante para revelar onde estava a arma do crime”, alegando que saíra a correr do local e “teria deixado cair a navalha”, desconhecendo a sua localização.

Pedro Costa revelou que a investigação não apurou que houvesse algum conflito entre os ofendidos e os dois suspeitos iniciais, de acordo com a reconstituição dos momentos que antecederam os crimes, nomeadamente, com recurso às gravações das câmaras de videovigilância existentes no McDonald’s.

Naquelas imagens vê-se Bernardo Belém, que era cliente habitual do McDonald’s, a adquirir comida, a qual não chegou a era consumida e ainda estava dentro das embalagens, em cima do capot da sua viatura, quando ocorreram as agressões.

As vítimas estavam acompanhadas por dois outros amigos, que se faziam transportar noutra viatura e também adquiriram comida, mas foram-se logo embora, não tendo sido testemunhas presenciais dos acontecimentos.

Brasileiros e romenos têm estado envolvidos em múltiplos crimes em Portugal, individualmente ou em grupo, desde furtos, roubos, violência doméstica, agressões e assaltos. Alguns ainda se encontram detidos à espera de julgamento, ou estão a cumprir penas de prisão.

Recorda-se que o crime e a violência registam altos índices, tanto na Roménia como no Brasil. Só neste último país mais de 25 mil pessoas foram assassinadas no primeiro semestre do ano, período em que também foram registados 648 casos de feminicídio, segundo o último relatório do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

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