Grutas pré-históricas de Alapraia à espera de melhores dias

ATUAL


LUIS CURADO (Texto) e PAULO RODRIGUES (Fotos)
06 outubro 2020

O estado em que se encontram as Grutas Pré-Históricas de Alapraia, em São João do Estoril, está a inspirar cuidados junto dos munícipes cascalenses, que têm alertado em vários fóruns, nomeadamente nas redes sociais, para “o abandono e avançada degradação” em torno deste importante sítio arqueológico composto por quatro grutas artificiais postas a descoberto em meados do século passado.

Depois de terem sido alvo de um projecto de musealização que integrava também um Casal Saloio adquirido pela Câmara Municipal de Cascais para ali instalar um pólo de interpretação museológica de apoio ao complexo, mais recentemente as grutas foram tapadas com gravilha, para preservar o local, situação que tem causado alguma inquietação relativamente ao futuro deste sítio arqueológico. 

Os moradores mais próximos queixam-se ainda do estado de ruína do Casal Saloio, de onde já desapareceram portas e janelas, bem como telhas da cobertura do edifício. O facto de o complexo estar a ser utilizado como sanitário improvisado, veio aumentar o sentimento de insegurança que se vive na zona, sobretudo durante a noite, com implicações também ao nível da higiene e da saúde pública.

José d’Encarnação, professor catedrático, arqueólogo e historiador, analisa a situação verificada no complexo das Grutas de Alapraia com uma perspectiva diferente. De acordo com a sua opinião, “pode parecer evidente esse ‘abandono e avançado estado de ruína’”, mas “não existe ‘abandono’ do sítio por parte dos serviços camarários nem dos arqueólogos que com eles têm colaborado”.

OUTRAS PRIORIDADES OBRIGAM A ADIAR PROJECTO

Segundo explica o arqueólogo e historiador, “nas décadas de 1980 e 1990, por iniciativa do Dr. João Cabral, que dirigia na altura o serviço da Câmara ligado à Arqueologia, levaram-se a cabo trabalhos de limpeza e consolidação” no sítio arqueológico, sendo que o Município comprou a casa que estava sobre a Gruta 4 e vedou a entrada para a Gruta 1. 

José d`Encarnação

Na altura, recorda José d’Encarnação: “a Junta de Turismo financiou a publicação de uma pequena monografia em três línguas e a Junta de Freguesia a de um desdobrável. Comprou-se o casal saloio adjacente e aí se fizeram escavações, tendo em vista não apenas a reabilitação de parte desse casal, que era de interesse manter, como também com a intenção de ali vir a funcionar um centro interpretativo da necrópole.”

Entretanto, outras prioridades, designadamente a recuperação e valorização da Villa Romana de Freiria, entre as localidades de Outeiro e Polima, na freguesia de S. Domingos de Rana, e a requalificação das Grutas do Poço Velho, no centro da vila de Cascais, fizeram com que o projecto para as Grutas Pré-Históricas de Alapraia ficasse “a aguardar melhor oportunidade”.

“No entanto, não se parou e há mesmo, segundo julgo saber, um projecto urbanístico para a área envolvente das grutas, com o objectivo de se lhes dar maior visibilidade”, garante o arqueólogo, que defende a “importância de a população começar a compreender o interesse histórico-patrimonial do sítio”, por forma a evitar a utilização da Gruta 1 como lixeira. E destaca “várias acções de sensibilização que já se fizeram”.

Face ao exposto, José d’Encarnação comenta: “Não se me afigura claro que haja um ‘avançado estado de ruína’, até porque se trata (digamos assim) de ‘covas’ abertas no calcário. Que ruína poderão ter? Se me disserem que tarda a instalação do centro interpretativo, concordo, ainda que a abertura do Museu da Vila, onde Alapraia ocupa o lugar que lhe compete na primitiva história cascalense, possa suprir essa ausência”.

“É IMPORTANTE RETOMAR O PROJECTO DE REABILITAÇÃO DO CASAL SALOIO”

Classificadas como Imóvel de Interesse Público em 1945, as Grutas Pré-Históricas de Alapraia foram descobertas no início do Século XX por Francisco Paula e Oliveira e, mais tarde, estudadas de forma aprofundada por Afonso do Paço e Eugénio Jalhay, que ali resgataram importantes achados. Entre as peças desenterradas merece destaque um par de sandálias de calcário, que só encontram paralelo em Almeria (Espanha).

Na opinião do arqueólogo, para dar a dignidade merecida a este importante património arqueológico da História cascalense, “o ideal seria, quando as circunstâncias o permitirem, retomar o projecto de reabilitação do Casal Saloio, para aí poder vir a dar-se algum apoio ao eventual visitante”, prosseguindo o projecto de criar um pólo de interpretação museológica.

“Em muitas localidades de Portugal, a chave da igreja está nas mãos de um dos vizinhos, que se disponibiliza, por indicação de quem de direito, para acompanhar quem desejar entrar no templo. Eu ousaria propor que o Executivo da União de Freguesias Cascais Estoril reunisse com os moradores e procurasse uma solução do género, enquanto outras se não apresentarem”, avança José d’Encarnação. 

Em relação à actual situação, o arqueólogo recorda que as grutas de Alapraia constaram, durante anos, sobretudo antes do 25 de Abril de 1974, do relatório de actividades da Junta de Turismo da Costa do Sol. “Depois disso, a Junta acabou por ser dissolvida e não há hoje um organismo específico que zele pelo Turismo em Cascais, ou, dizendo por outras palavras, teve a Câmara que chamar a si esse encargo”, lembra.

Na opinião de José d’Encarnação, “Helena Roseta compreendeu a importância que o património arqueológico tinha para o Turismo; contudo, as cheias que ocorreram no seu mandato impediram que desse ao assunto a continuidade que desejara; José Luís Judas também compreendeu esse interesse. Agora, Freiria pode ter funcionado como ponto de partida para uma nova mentalidade”, vaticina.

VEREADOR INDEPENDENTE EXPLICA SITUAÇÃO

O jornal ‘O Correio da Linha’ contactou os serviços da Câmara Municipal de Cascais (CMC) de forma a recolher informação sobre o projecto que a autarquia tem previsto para as Grutas Pré-Históricas de Alapraia. De acordo com a explicação avançada pelo vereador independente João Aníbal Henriques, a autarquia “tem neste momento em fase final o projecto de recuperação e musealização das Grutas de Alapraia”, que “deverá arrancar ainda este ano, apesar de todas as contrariedades impostas pela pandemia”.

Segundo revela o autarca, “o projecto inicial para este espaço foi enriquecido com a aquisição de mais dois imóveis por parte do município que, desta maneira, tornarão mais abrangente a abordagem à realidade arqueológica existente no local e permitirão uma melhor fruição do núcleo de interpretação por parte dos futuros visitantes”. 

Vereador João Aníbal Henriques

João Aníbal Henriques realça que “esta é, muito provavelmente, uma das peças patrimoniais mais importantes de Cascais”, que “conjuga o interesse de todo o complexo fúnebre com o carácter único do espólio ali encontrado”. E destaca o autarca: “Desde as sandálias de calcário até às peças de joalharia ali encontradas, todo o espólio das Grutas de Alapraia reforça o interesse cultural e pedagógico do local e contribui de forma decisiva para a qualificação da oferta turística municipal, acrescentando-lhe um polo de atracção que agrega de forma concomitante os laivos avoengos da identidade das gerações que nos precederam neste recanto tão especial”. 

O vereador independente da CMC adianta que a autarquia “pretende associar os munícipes do concelho” ao projecto idealizado para o sítio arqueológico. “O projecto que está a ser ultimado terá um enfoque muito especial na capacidade de gerar significância do mesmo junto dos moradores, que ali encontrarão não só a pujança própria de um monumento com importância mundial, como também do mesmo resultarão benefícios directos e indirectos que afectarão positivamente a envolvência”, explica.

TRANSIÇÃO ENTRE O NEOLÍTICO E A IDADE DOS METAIS

“As grutas artificiais de Alapraia fazem parte de um conjunto de vestígios contemporâneos das grutas de Carenque (Amadora) e da Quinta do Anjo (Palmela) desta zona ocidental da Península, integráveis na chamada ‘cultura campaniforme’, datável do período eneolítico, que é a transição entre o Neolítico e a Idade dos Metais, cronologicamente situada há 5.000 anos”, explica José d’Encarnação.

Constituída por um conjunto de quatro cavernas artificiais, a Necrópole Eneolítica da Alapraia foi um dos primeiros achados em Portugal desse período e chamou a atenção da comunidade científica internacional. De tal forma que, em finais do século XIX, quando se reuniu em Lisboa um Congresso Internacional de Arqueologia, a visita a Alapraia constou do programa. 

Foi realçada a sua originalidade e a ligação com culturas do Mediterrâneo, afirmando-se que, à época, povos orientais teriam conseguido chegar à Península Ibérica, sendo essas necrópoles a prova de tal imigração. Da mesma época são as grutas de São Pedro do Estoril, de que hoje resta um pequeno vestígio à entrada do Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal junto à Avenida Marginal, e a gruta de Porto Covo, a Norte da Quinta do Pisão, na freguesia de Alcabideche.

As grutas naturais do Poço Velho, localizadas na margem direita da Ribeira das Vinhas, a cerca de 500 metros da sua foz, na Praia da Ribeira, bem no centro da vila de Cascais (Largo das Grutas), são, segundo explica José D’Encarnação, “um tudo-nada anteriores às restantes”. De referir que o primeiro núcleo de Arqueologia instalado no Museu Condes de Castro Guimarães é constituído essencialmente por materiais provenientes destas grutas.

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