Glifosato, mentiras e propaganda ou outro romance da raposa

OPINIÃO

13 MARÇO 2021 | 22h56
“Havia três dias e três noites que a raposa Salta-Pocinhas, raposa matreira, fagueira e lambisqueira corria os bosques sem conseguir deitar a unha a outra caça além de uns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir, um soninho descansado.”. Assim começa “O Romance da Raposa”, o célebre livro infantil de Aquilino Ribeiro sobre “As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas — raposeta pintalegreta, senhora de muita treta (…)”. Assim também se poderia descrever a Câmara Municipal de Cascais (CMC) e a Vereação responsável pelo ambiente quanto à “política verde” (?) seguida por este executivo camarário.

Com efeito, desdobra-se a CMC em largas parangonas, frases feitas, cartazes, vídeos e demais propaganda, com a mesma astúcia matreira da Salta-Pocinhas, anunciando realizações extraordinárias: “espaços verdes próximos”, “oferta verde”, “mobilidade leve”, ciclovias, corredores verdes, etc.; e logo depois constata-se que lá foi mais uma galinha, pato, mocho, falcão, morcego, coelho bravo, rolas, perdizes, chapins, piscos e muitas plantas que desapareceram sob o apetite voraz dos IMI’s camarários ou a simples negligência e contas feitas da lambisqueira Cascais Ambiente. 

Vem isto a propósito de mais um daqueles marcos que a CMC gosta de anunciar em datas especiais: o fim do glifosato.

Em 5 de junho de 2019, no Dia Mundial do Ambiente, a CMC fez anúncios públicos, dizendo ser uma das primeiras Câmaras Municipais a proibir o uso do glifosato em meio urbano, produto altamente tóxico e cancerígeno, usado muitas vezes na eliminação de ervas daninhas. Afirmava então a Câmara que daria prioridade aos meios mecânicos, “complementando com tratamento à base de ácido pelargónico” (substância de origem natural). Aliás, a Junta de Freguesia de Cascais e Estoril, seguindo os passos da CMC, rapidamente adotou o discurso, as frases e glorificou a ação camarária, com o excesso de pompa que lhe é conhecido. 


Porém, o tempo passa. As frases foram ditas e ouvidas. Esquecidas. Arrumadas num canto. Dispensadas. Tudo pronto para voltar às velhas práticas sem ninguém dar por isso. E é assim que em 2021 se constatou ter a CMC voltado a usar glifosato em meio urbano (e, pior, em zona que estará abrangida pelo Parque Natural Sintra-Cascais), destruindo fauna e floras naturais e pondo em risco a saúde de pessoas e animais. Sem remorsos, com a mesma atitude prática da “raposeta pintalegreta”.

Questionadas a vereadora e a Cascais Ambiente sobre o assunto, as mesmas nada disseram nos 10 dias que se seguiram, apesar do pedido de esclarecimento ter sido feito na qualidade de deputado da Assembleia de Freguesia. Aliás, logo a seguir foram eliminadas da página da CMC as notícias do fim do uso do glifosato (e desativados os links para as mesmas). 

Assim se vê, pois, como a CMC está tão realisticamente próxima da “raposa matreira, fagueira e lambisqueira”, como cada vez teremos menos flora e fauna (não restarão sequer “uns míseros gafanhotos”, nem lugares onde os animais possam fazer um “soninho descansado!”) e como não usaremos sequer o imperfeito para dizer “o vale era verde” porque, claramente, hoje já não o é.

*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.




 

 


1 comentário:

João Casanova Ferreira disse...

Não tenho dúvidas na constatação de que a mentira faz lei no canil. Alcandorada a secretária e depois administradora do galinheiro. Até as raposas passam dificuldades para comer o pavão.

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