O “Bairro dos Renegados”: o que anda a Câmara a fazer em Alcabideche?


12 MAIO 2020
É conhecida a tendência da Câmara Municipal de Cascais para criar aparato. Nada verdadeiramente importante ou relevante para o concelho, mas antes algo que dê simplesmente nas vistas. Foi assim que desenvolveu primeiramente a ideia do Bairro dos Museus, uma ideia que poderia ser boa se houvesse museus e exposições boas para visitar, mas que hoje se resume à manutenção em estado letárgico da Casa da Histórias de Paula Rêgo (que piorou a olhos vistos desde que, ainda com Passos Coelho, lhe foi retirada a qualificação de Fundação e se deu o afastamento da pintora) e aos eventos do Centro Cultural. De resto, é o que se sabe: o Museu do Vhils desapareceu e a Cidadela é um deserto.

Depois disso, a CMC tem vindo a desenvolver o gosto por outros símbolos: houve a pintura a vermelho de diversos pedaços da via pública (nomeadamente na Baía e no Centro da Vila), a Rua Amarela Restaurant District (os nomes em inglês são, de resto, um incompreensível hábito deste executivo!...), e, aparentemente, em breve a criação de uma espécie de gueto: o dos renegados, na Adroana.

Com efeito, no início deste mês, e certamente ainda a coberto do frenesim de atividade não controlada que o estado de emergência despoletou em especial no Presidente da CMC, começaram a cortar diversos pinheiros num terreno na Rua da Arroteira (na continuação da Rua Baden-Powell), em Alcabideche, zona residencial próximo do Bairro da Adroana e do Bairro da Cruz Vermelha. E para quê? Segundo consta, para aí construir uma casa para os sem-abrigo!

O dito terreno não tem qualquer indicação do fim a que se destina a obra, nem de qualquer licenciamento, nem houve qualquer informação à população, mas o corte inúmero pinheiros adultos já foi efetuado e a remoção de terras está em curso, em mais uma daquelas ações típicas da política do facto consumado.

Efetivamente, apesar da investigação realizada, não se encontrou nenhuma deliberação camarária sobre o assunto, nem qualquer documento que identificasse aquele terreno como destinado a equipamento: no site da CMC (em https://www.cascais.pt/reunioes/camara/2020) não se encontra qualquer menção a deliberação sobre este tema, nem 2019, nem 2020; nem se sabe quanto custará ou quem irá realizar a obra.

Como é evidente, não se contesta a ideia de providenciar melhores condições de acolhimento aos sem-abrigo (apesar do número dos mesmos ser mais uma daquelas questões nunca bem esclarecidas pela CMC…). O que se contesta é a construção, à pressa e sem nenhum fundamento, de um edifício para os mesmos, num local totalmente inapto para esse fim! Com efeio, que justificação há para a construção, longe do centro e numa zona residencial nas proximidades de Bairros sociais carenciados, de um edifício para os sem-abrigo? Pretende a CMC concentrar os desfavorecidos longe da vista dos golden visa? Criar uma espécie de “Bairro dos renegados”? E, sabendo-se que os sem-abrigo gostam de se deslocar, como irão os mesmos deslocar-se da periferia para o resto do concelho? Já se diz que a CMC disponibilizará um autocarro. Um autocarro!!! Como se fosse imaginável que os mesmos fossem levados e trazidos diariamente dos e para os pontos do concelho onde pretendam ir! Ou que isso fosse hipotizável!

Mais: sabendo-se que muitos deles têm animais de estimação que os acompanham, o que pretende a CMC fazer? Privá-los dos seus melhores amigos? Levar animais para as instalações que, pelos vistos, está a construir à pressa? E alguém com bom senso acha boa ideia ter muitos animais misturados naquela zona residencial? Ou agravar os problemas sociais numa zona já fragilizada?

De resto, como se compreende que a CMC, proprietária de diversos imóveis em todo o concelho, não disponibilize os imóveis que possui, adequando-os a esse fim, em vez de estar a construir – naquela zona – um edifício de raiz? E, conhecendo-se os apoios que a CMC dispensa a diversas IPSS, é aceitável que as mesmas não disponibilizem ou apoiem estes sem-abrigo? As verbas avultadas gastas anualmente pela CMC em apoios às IPSS não deviam estar condicionadas também à prestação de cuidados a estes cidadãos? E tendo a CMC centros de apoio em locais próximos de onde estes sem-abrigo costumam estar, não bastaria acolhê-los nesses centros? Quem é que vai ganhar mais dinheiro com esta construção? E porquê fragilizar ainda mais aquela zona do concelho? É esta a política social da CMC?

A ser verdade que aquele terreno está a ser urbanizado para este fim, o que se torna evidente é que, em vez de melhorar aquela zona, a CMC a degradará ainda mais.

Refira-se que as (poucas) intervenções recentes que foram levadas a cabo na zona em nada beneficiaram a população residente, sendo o exemplo mais flagrante a cedência de parte do terreno onde decorre quinzenalmente a feira da Adroana ao Clube Estoril Praia, para edificação de um campo de treinos, que é por este usado de forma bastante esporádica e sem qualquer usufruto ou valência para os munícipes residentes. 

Sem prejuízo do mérito que projetos de apoio social e melhoria de vida de populações carenciadas indiscutivelmente comportam, o desenvolvimento de iniciativas isoladas, sem enquadramento abrangente e levadas a cabo de forma pouco transparente e com contornos indefinidos, podem potencialmente contribuir para um agudizar de situações já existentes e para o aumento da marginalização de populações.

Não seria preferível acolher os sem-abrigo em diversos locais espalhados pelo concelho e próximo dos locais onde costumam estar? Não seria essa a melhor forma de os apoiar e integrar? Não seria preferível melhorar a zona do Bairro da Adroana e do Bairro da Cruz Vermelha com equipamentos que aumentem a qualidade de vida da população já aí residente, em vez de a degradar ainda mais socialmente?

Depois dos estranhos contornos da compra dos Bairros sociais (nomeadamente, do Bairro Irene), parece que entrámos numa nova era – a do aquário ou favelização: vá e veja a população renegada, mais desfavorecida, concentrada na periferia. Assim, deixam a Baía e a costa livre para quem interessa.

Cascais cada vez mais elevada: ao betão e à segregação social.

 
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