Matou mulher com 30 facadas e agora diz que chora porque a “amava muito”

JUSTIÇA

SERGIU começou a ser julgado em Cascais pelo assassínio da mulher
08 novembro 2020
“Eu amava muito a minha mulher… A cabeça estava sob o efeito do álcool, e tudo o que fiz foi por causa dos nervos!” Esta justificação, em jeito de tentar sacudir a culpa, foi dada à juíza do Tribunal de Cascais pelo moldavo Sergiu Septelici, após este ter confessado que matou Angela S., 38 anos, em dezembro do ano passado, no bairro da Encosta da Carreira. Todavia, assumiu ter desferido apenas “cinco, seis ou sete” golpes, enquanto o relatório da autópsia confirma 30 facadas no corpo da vítima.

"ARREPENDISSIMO" Sergiu diz que bebeu muito no dia do crime
Sergiu Septelici, 44 anos, começou a responder perante um coletivo do Tribunal de Cascais por homicídio qualificado e ofensa à integridade física grave qualificada, na forma tentada. Este segundo crime reporta à agressão ao filho, que se interpôs entre a mãe e o pai, na discussão que antecedeu o homicídio, ocorrido em 28 de dezembro de 2019, no átrio de um prédio na praceta de Moçambique, Cobre.

No início do julgamento, o homem prescindiu da leitura da acusação, alegando que já tinha conhecimento. E decidiu falar sobre os factos que lhe são imputados, aconselhado pelo seu advogado, oficioso.

“O que é que eu posso dizer?! Estou arrependidíssimo daquilo que aconteceu com a minha mulher. Choro. É muito difícil acostumar-me com essa situação… Nesse dia, bebi muito e estava sob o efeito do álcool”, começou por declarar o arguido, falando em russo, traduzido para a língua portuguesa por uma intérprete.

“Nunca na vida poderia ter imaginado cometer uma coisa dessas”, afirmou Sergiu Septelici, interrogado sobre o móbil do crime.

“Houve uma altura em que a minha cabeça estava a trabalhar. Depois, deixou de trabalhar… E quando recuperei a lucidez, perguntava, a mim próprio, o que é que eu tinha cometido, mas não conseguia obter resposta”, explicou à juíza.

Arma do crime nunca foi encontrada

Pessoa de poucas palavras, disse que a acusação “não corresponde à verdade”, confessando que só matou a mulher e negou ter praticado o segundo crime, alegando que nunca bateu no filho desde criança.

Sergiu Septelici trabalhava na construção civil. O casal veio para Portugal em 2016, mas o filho só o ano passado se juntou aos pais após completar os estudos na Moldávia, de onde a família é natural.

ANGELA morta pelo marido na Encosta da Carreira

Em 18 de outubro de 2019, Angela Seprelici decidiu separar-se do marido, tendo em vista o divórcio, e mudou-se para casa do filho, a cerca de 300 metros de distância.

O arguido confirmou à juíza que nunca concordou com a separação. “Fomos casados 23 anos. Eu queria fazer as pazes, amava muito a minha mulher e se alguma vez a tratei mal foi tudo por causa dos nervos…”, afirmou, com um misto de amargura e rancor na sua voz.

No dia do crime, o arguido, transportando uma faca de cozinha, dirigiu-se ao prédio onde a vítima residia e aguardou pelo seu regresso a casa, segundo o inquérito do Ministério Público.

Quando a mulher chegou, pelas 19 horas, em automóvel conduzido pelo filho, aperceberam-se da presença do arguido e, com receio dele, foram-se embora na expectativa de que ele abandonasse o local e pudessem regressar à sua residência tranquilamente.

“Esfaqueava gritando tens que morrer”

O arguido terá observado a chegada e partida dos dois e, depois, acedeu ao interior do átrio do prédio e aí ficou, às escuras, a aguardar pelas vítimas, tendo ocultado a sua presença.

Quando mãe e filho regressaram, pela meia-noite de 29 de dezembro, e no momento em que percorriam o átrio o arguido revelou a sua presença e começou a discutir com a vítima.

O filho, Constantin, interpôs-se entre os progenitores, procurando afastar o pai da mãe e pôr cobro à discussão.

Subitamente, o homem empunhou uma faca de cozinha, que trazia num dos bolsos do casaco, e espetou a lâmina no peito da vítima, golpeando-a, pelo menos, oito vezes, nessa zona, enquanto gritava repetidamente “tens que morrer”. 

CRIME registou-se no átrio do edifício

“A força com que o arguido desferiu os golpes era tal, que a certa altura chegou a elevar o corpo da vítima no ar, segurando-a com a lâmina da faca”, refere a investigação do MP.

O relatório da autópsia indica que a vítima sofreu múltiplas lesões corto-perfurantes no corpo, tendo a morte resultado das lesões traumáticas do pescoço e do tórax, “com secção traumática da veia e artéria carótida direita, e lacerações dos dois pulmões”.

A mulher sofreu três golpes na cabeça, um dos quais provocou uma hemorragia, outros tantos no pescoço, oito na zona do tórax, seis no braço direito, nove no braço esquerdo, sendo que um destes atingiu uma mão e outro num dedo.

Alguns dos ferimentos, sobretudo nas mãos e braços, são compatíveis com tentativas da vítima para se defender, segundo o médico-legista.

Constantin tentou impedir que o pai continuasse a esfaquear a mãe e, então, o arguido virou as suas atenções para o filho, procurando golpeá-lo na zona do abdómen, segundo a acusação.

Porém, o jovem conseguiu desviar-se dos golpes e fugiu, dirigindo-se aos andares superiores do prédio, onde pediu socorro aos vizinhos.

Deixado a sós com a vítima, o homem voltou a esfaqueá-la, visando diversas parte do seu corpo, sobretudo no peito e abdómen, continuando a golpeá-la mesmo quando ela se encontrava caída, numa altura em que seguramente já estaria morta, segundo a autópsia.

“Espancada que nem um cão”

O filho regressou, entretanto, ao átrio do prédio e o arguido fugiu para o exterior, e escondeu-se nas imediações, tendo feito desaparecer a faca de cozinha, que até hoje nunca foi encontrada.

A juíza perguntou-lhe que destino deu à faca, mas ele respondeu simplesmente “não sei”, repetindo a mesma resposta ao ser confrontado com outros factos que constam da acusação.

“Quando voltei ao estado normal já não tinha a faca na minha posse”, afirmou, como se tivesse tido uma perda de memória no dia do crime.

A polícia foi alertada, via 112, para um caso de alegada violência doméstica, com agressões a decorrer, mas só pelas 4h40 da madrugada o homem foi interceptado por agentes da PSP, ostentando ainda sangue da vítima na roupa e nas mãos.

No julgamento, o moldavo contou que não fugiu do local do crime, assegurando que estava sentado perto dali, numa área florestal a cinco metros da estrada, de onde “viu polícias a dirigirem-se ao carro dele, possivelmente à sua procura”. 

MOLDAVO foi preso pela PSP pouco tempo depois do crime

Acrescentou que quando recuperou a lucidez decidiu contatar as autoridades “para se entregar, e responder pelo que tinha feito”. Acabou por ser detido quando caminhava em direcção a um carro patrulha que estava parado naquela zona.

Nos dias que antecederam o crime, o arguido trocou uma série de mensagens com a mulher, nas quais ameaçava que a matava, se não voltassem a viver juntos.

“Se calhar, disse isso porque estava nervoso”, admitiu o homem à juíza. Esta recordou, então, que a vítima lhe respondeu que “não se tinha ido embora da casa por acaso, tendo sido espancada que nem um cão…”

O MP concluiu que havia indícios de eventual prática de crime de violência doméstica, durante a relação matrimonial e após o seu término, mas decidiu separar os processos porque era preciso mais tempo para investigar e estava a esgotar-se o prazo máximo da prisão preventiva do arguido. O filho também poderá ter sido vítima do mesmo crime.

Aliás, Angela Septelici foi considerada a 35ª vítima mortal em contexto de violência doméstica em 2019.


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