Cascais: A Grande Destruição

OPINIÃO

05 ABRIL 2021 | 16h21
Há um filme clássico dos anos 70, franco-italiano, chamado (em Português) “A Grande farra” (“La Grande Bouffe”/”La Grande Abuffata”), em que um grupo de quatro amigos se reúne numa casa para devorar comida até morrer. Essa é a imagem mais próxima do que se passa atualmente em Cascais, no que se refere à destruição dos espaços verdes e do meio ambiente pela construção desenfreada. Cascais vai rebentar. Cascais agoniza, de dia para dia, com construção. Cascais está a ser vilipendiada por um grupo de poucos e para desgraça de muitos. 


Vem isto a propósito de três recentes casos: as duas consultas públicas relativas à Quinta dos Ingleses e Bairro da Torre, em Carcavelos; e ao empreendimento industrial previsto para as antigas instalações da Standard Elétrica/Alcatel, na Aldeia de Juso. 

Em relação à Quinta dos Ingleses é ignóbil que, decorrido quase um quarto do século XXI, haja um Presidente de Câmara (e um executivo camarário) que se propõe autorizar a destruição de 52 hectares de área verde para neles deixar construir prédios com 29 metros de fachada e oito andares, praticamente em cima da praia! Chega a ser caricato, se não fosse criminoso; se não revelasse um atraso cultural digno do terceiro mundo; se não revelasse a que ponto pode chegar a falta de visão; se não demonstrasse o que é a ganância, da CMC, da Alves Ribeiro e do colégio St. Julian’s, três “amigos” que se reúnem, neste projeto, para aniquilar um espaço com características únicas, nomeadamente em termos de flora, que devia absolutamente ser preservado integralmente como espaço verde e público.

O mesmo se diga da área circundante ao Bairro da Torre, em Carcavelos: num espaço que está consolidado desde os anos 70, numa área que foi durante décadas objeto de proteção dada a proximidade de instalações militares, quer agora a CMC autorizar a construção de uns enormes mamarrachos e, designadamente, hotéis (criando ainda mais pressão sobre a praia de Carcavelos). Para a CMC, claramente “direitos adquiridos” são só os dos promotores imobiliários; não dos proprietários dos apartamentos que, desde o início, adquiriram os apartamentos, no pressuposto de que nada se podia construir à volta. Mas que podem uns poucos, em Cascais, perante o dinheiro e as ligações dos construtores aos políticos? Não bastou ver o escândalo da alteração do PDM, primeiro (em 2015), para beneficiar a construção na Areia sob o pretexto da Fundação Aga Khan, mesmo depois desta desistir do projeto? Ou, em 2019-2020, com a nova revisão do PDM para legalizar as ilegalidades da aprovação dos projetos do Jumbo, Praça de Touros e Marina? Ou com a absurda ideia de alargar o aeródromo de Tires?

E, finalmente, o que dizer do licenciamento industrial de 30.000 m2 (o equivalente a 3 campos de futebol!) à entrada da Aldeia de Juso? 3 campos de futebol!! 3 campos de futebol à entrada de uma área residencial e à saída da A5! Como irão os TIR’s entrar ali? E o caos que se criará nessas ocasiões? Serão os produtos entregues de para-quedas? Como se não houvesse outros terrenos onde construir instalações industriais para uma grande superfície que, nos países desenvolvidos, são construídas fora das zonas urbanas! Em Cascais, não. Cascais, a Vila que a CMC se esforça por dizer ser um exemplo a nível internacional! Um mau exemplo, nestes casos. Um péssimo exemplo. Um exemplo de catastrófica gestão e ordenamento do território. Um exemplo vergonhoso de como o ambiente e os espaços verdes são aniquilados em prol dos interesses de três ou quatro, numa grande farra que lembra o filme supra referido. 

Repare-se que não existe nenhuma justificação económica para, designadamente, a CMC não adquirir o terreno da Quinta dos Ingleses e os terrenos circundantes e deles fazer um enorme parque verde, à semelhança do que o Porto fez com o Parque da Cidade. E quando digo nenhuma, digo NENHUMA. Não há direitos adquiridos. Mesmo que houvesse, a CMC tem os meios legais para proceder à aquisição daqueles terrenos e nunca, jamais, em tempo algum, os mesmos (ou os valores a pagar aos proprietários) se aproximam das verbas ridiculamente elevadas que o Presidente da CMC refere.

Mais: mesmo que, por absurdo, essas verbas fossem na ordem dos 100 milhões (não são: não há indemnizações dessa ordem de valor em Portugal), que legitimidade tem a CMC para dizer que não tem dinheiro para pagar esses valores, quando a mesma CMC tem um orçamento anual que supera os 230 milhões, dos quais, só em 2020 e só para a CMC (sem contar com os valores inscritos nos orçamentos das empresas municipais), mais de 71 milhões foram para o Departamento Municipal de Apoio à Gestão (seja lá isso o que for!), mais de 15 milhões para o Departamento de Inovação e Comunicação, mais de 6 milhões para o Departamento de Promoção e Talento (!!!??!!), mais de 2,6 milhões para o Departamento de Assuntos Jurídicos e mais de 1 milhão para o Departamento de Planeamento Estratégico?

É legítimo um executivo camarário não gastar dinheiro na proteção de um espaço verde essencial para todos os Cascaenses quando, num ano, gasta dinheiro assim e quando gasta dezenas de milhões em propaganda e publicidade, muitos dos quais, além dos acima referidos, mascarados nas contas de empresas municipais? É legítimo um executivo camarário hipotecar o nosso futuro e o dos nossos filhos e netos em prol de uma Grande Farra? 

Não há Planeta B. Mas a CMC parece não saber disso.

Se estes projetos e todos os outros previstos avançarem (muitos dos quais aprovados – ou em vias de o serem – nas costas dos munícipes), Cascais acaba com o destino de elite que tanto propagandeia. Acaba como concelho responsável ambientalmente. Tornar-se-á um subúrbio à beira-mar em que, em breve, ninguém quererá ou gostará de viver e/ou visitar. Morrerá de tanto comer.

Se isto acontecer, Carlos Carreiras, dentro de uns anos, ficará conhecido como o Carrasco de Cascais. 


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*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24.



3 comentários:

teresa disse...

Infelizmente para nós que vivemos neste Concelho temos um dos piores presidentes que alguma vez Cascais viu. Um autêntico pato-bravo sem visão, sem cultura, sem nível como são todos aqueles que fundamentam o progresso apenas e só no betão
Cascais, num artigo do Expresso de 2019 é comparada a ... Estarreja. A cidade mais poluida de Portugal e de onde todos se pudessem fugiam. Pois bem em poluição atmosférica Cascais está igual.
Acho que o dia que este senhor deixe a Camara, Cascais estará irreconhecivel. Degradada, feia, descaracterizada enfim tudo aquilo que não era e que se tornou nestes ultimos 10 anos graças á desgraça que nos calhou em ter este senhor como Presidente da Cãmara de Cascais.

Unknown disse...

Quando a dona Zilda roeu a corda e a coisa vingou, como é/foi possível que se tenha conseguido chegar até hoje, tanta coisa que é possível cancelar/reverter e a atitude dessa sra para com os munícipes não o foi.
Republica das bananas, cada vez mais, a começar pelo anestesista-mor da Nação.

simpleman disse...

Investigue-se o património das pessoas envolvidas nestes processos não durante um ano ou dois, mas sim durante quinze ou vinte anos!!!! Se tiver havido qualquer coisa menos clara, pelo menos não poderão gozar o resultado de proveitos ilegais...

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