CARREIRAS: Bom, mau ou vilão?

OPINIÃO

11 novembro 2022 | 19h20
Os tempos de Carlos Carreiras na autarquia serão recordados no futuro como um período em que todos os principais problemas de Cascais se agravaram. Ficou pior o trânsito porque foi escasso o investimento na rede viária, pior o ambiente porque a construção expandiu-se de forma desordenada e sucedem-se as descargas de águas poluídas nas praias, pior a habitação porque a aposta exclusiva na construção de luxo impede a classe média de comprar ou arrendar casa, piores os bairros sociais porque não foram reabilitados, pior a preservação do património construído porque foi abandonado ou mesmo demolido, pior o espaço público fora do centro porque passou o tempo e não houve investimento, pior o desporto porque a população cresceu e os equipamentos são quase os mesmos e pior os espaços verdes porque hoje há menos área verde por habitante do que existia há vinte anos.

Mas, pior que tudo isto, a economia não cresce e Cascais apresenta hoje um salário médio dos trabalhadores por conta de outrem inferior ao da Amadora.

A História Me Condenará

É fatal que a História não será tão benevolente para o atual executivo como são hoje os seus contemporâneos. O atual edil foi largamente sufragado pelo eleitorado, chegando mesmo a atingir em 2021 quase os 53% alcançados por António Capucho em 2009.

Estes números são porém enganadores. O que não falta no país são exemplos de presidentes de câmara altamente populares durante os seus mandatos que depois são recordados como péssimos autarcas. A História julgará o resultado final e a obra feita. Longe da exposição à propaganda massiva da Câmara e fora do alcance da rede de fidelidades na sociedade civil que os presidentes de Câmara habitualmente originam e os suportam, o julgamento será frio e implacável. Em termos de resultado final, há muito pouco a mostrar.

Mas, comecemos pelo que há de bom na atual Câmara. Há que dizer que o serviço corrente da autarquia funciona bem. O lixo é recolhido a tempo e horas, os jardins existentes estão cuidados, a limpeza urbana é razoavelmente eficiente e as escolas funcionam. Haverá situações em que a rua não está limpa ou o lixo não foi recolhido, mas serão casos pontuais e muitas das vezes com origem em alguma falta de civismo de alguns dos nossos concidadãos. Podemos dizer, sem ficar longe da verdade, que os serviços camarários funcionam bem, como de resto já acontecia antes de Carlos Carreiras ser presidente de Câmara.

No entanto, a economia está débil, as diferenças sociais acentuam-se e, em termos de obra que fica para o futuro, há pouco a mostrar.

A lista daquilo que ficou por fazer é longa. A rede viária pouco avançou e o trânsito está hoje pior do que estava há dez anos. Desinvestimento este que nem sequer foi compensado por uma maior aposta nos meios de deslocação suaves, sejam estes as ciclovias ou simples passeios pedestres.   

Também os equipamentos de saúde pública ficaram por fazer, bem como o investimento em habitação ou em equipamento desportivo. Em termos de ambiente, há hoje menos área verde por habitante do que havia no início do seu mandato, uma vez que o único jardim relevante inaugurado, em São João do Estoril, não compensa o enorme aumento populacional. Acresce que a crescente afetação de zonas verdes para construção imobiliária e a incapacidade de resolver o sistema de drenagem que origina fenómenos recorrentes de chegada de águas poluídas às praias, impedem a atribuição de nota positiva ao executivo em matérias ambientais.

Um Município Mais Rico e os Munícipes Mais Pobres

No entanto, mais grave que a falta de capacidade do executivo camarário em lançar obra pública de equipamento público perene, será o acentuar do crescimento de um concelho a duas velocidades. Ao mesmo tempo que se afirma como destino internacional para expatriados com alto poder económico, o salário médio dos residentes em Cascais continua incrivelmente baixo, sendo até ultrapassado pelo concelho da Amadora (1.425€ Amadora contra 1.215€ Cascais, fonte Pordata). O preço da habitação em Cascais impede um trabalhador com um salário médio de arrendar ou adquirir casa.

Num tempo em que a cobrança fiscal em Cascais atinge os valores mais altos de sempre, não há justificação para a falta de investimento público e para o agravar das diferenças sociais.

Carlos Carreiras não poderá deixar de avaliar a sua presidência com algum desânimo. Todo o percurso político do atual presidente foi focado na autarquia de Cascais. Nunca assumiu uma carreira nacional dentro do PSD, como aconteceu com o seu antecessor e está a acontecer com o seu sucessor, ou se quis dedicar à política nacional. O cargo para o qual se preparou toda a vida, e que marcará o seu percurso político, é a presidência da autarquia de Cascais. Neste sentido, o próprio não poderá deixar de sentir uma grande frustração pela reduzida obra deixada ao fim de três mandatos e meio em funções. Mesmo que complete o atual mandato, contrariamente ao que anunciou ser sua intenção, já não irá a tempo de deixar uma marca forte e positiva no concelho.

Dentro de poucos anos ainda estaremos a dizer: «Como é que se chamava aquele presidente de Câmara que esteve a seguir ao Capucho?… está a escapar-me o nome dele… aquele que deixava construir em todo o lado?...»


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