Homicídio no raio X




Casado, embora separado e pai de filhos, o empresário Sílvio Araújo, na casa dos 60 anos, era um homem respeitado e que gozava de grande prestígio em Carcavelos. 
Era o principal accionista do Centro Radiológico, que explorava na Rua José de Melo Pereira de Vasconcelos, mesmo junto à estação ferroviária. Sozinho, habitava o primeiro andar do edifício, em cujo rés-do-chão ainda hoje funciona a recepção de doentes e os gabinetes de Raio X.
Praticamente afastado de quaisquer laços familiares, Sílvio levava uma vida regrada, embora com muitos amigos. Era pessoa de trato fácil, humilde, com origens parciais no antigo Ultramar português. Chegou a falar-se que «combatera pela resistência em Moçambique» e que chegara a ser amigo de Evo Camões Fernandes, o líder da Renamo em Portugal que, na década de 80, foi raptado à saída de um restaurante junto à lota de Cascais e posteriormente executado a tiro na Malveira da Serra.
Evo Fernandes, o dirigente da Renamo, amigo de Sílvio, executado anos antes na Malveira da Serra
Politicas ultramarinas à parte, Sílvio Araújo conheceu em 1993 o carpinteiro Joaquim (nome fictício), então com 24 anos. Um trabalho no centro radiológico foi o ponto de partida para uma amizade que, afinal, não foi vindoura.
Entre 1993 e finais de 1996, Sílvio Araújo, sabendo que o amigo carpinteiro, um artista na sua arte, era toxicodependente e com dificuldades, procurou ajudá-lo o melhor que pôde. Até porque "Joaquim" vivia com a filha da sua "namorada". 
Sempre que havia necessidade de qualquer trabalho no centro radiológico, Sílvio contactava "Joaquim". Era uma forma de ajudar. Pelo meio, houve dinheiros emprestados, pequenas quantias é certo, mas sem retorno.
Em contrapartida, "Joaquim", dado o vício das drogas, gastava com frequência elevadas quantias em dinheiro. «Tudo o que ganhava era para saciar o vício da droga», disseram, na altura, amigos de Joaquim.
Já anteriormente, "Joaquim" tivera problemas com a Justiça.
Todavia, a certa altura, "Joaquim" tentou redimir-se, reintegrar-se na vida em sociedade, levar uma vida normal, longe da droga. Convenceu o amigo Sílvio Araújo a ser fiador de uma carrinha que ele comprou para trabalhar como carpinteiro por conta própria. O empresário acedeu. O rapaz pareceu-lhe sincero e interessado em refazer a vida. Acreditou.


Crime na sala



A verdade é que "Joaquim" deixou, a partir de certa ocasião, de assumir os seus compromissos para com o vendedor da carrinha. As prestações mensais em falta começaram a acumular-se e o empresário Sílvio Araújo, o fiador, que sempre honrara os seus compromissos passou a ficar preocupado com as consequências.
O empresário Sílvio Araújo passou, então, a pressionar Joaquim para liquidar as dívidas em atraso.
Tão pressionado foi que no dia 17 de Janeiro de 1997, cerca das 23 horas, "Joaquim" dirigiu-se ao Centro Radiológico e bateu à porta do primeiro andar habitado pelo empresário. Não obteve, porém, resposta. Sílvio Araújo estava ausente.
Já no dia 18, pela 1 hora da manhã, o carpinteiro "Joaquim" dirigiu-se, de novo, ao domicílio do empresário, bateu à porta, que lhe foi franqueada e convidado a entrar.
Afável, o empresário ofereceu uma bebida ao visitante, que ele aceitou. Conversaram durante alguns minutos. O tema da conversa: as prestações em atraso da carrinha. Os dois homens exaltaram-se. Houve forte discussão.


"Joaquim" levantou-se e, inesperadamente, no calor da discussão agarrou uma garrafa e desferiu com ela uma pancada na cabeça do empresário Sílvio Araújo, que ficou atordoado.
Com medo que a vítima reagisse e em desespero total, o agressor acabou por desferir vários e repetidos golpes com a garrafa, entretanto partida, atingindo o empresário Sílvio mortalmente no pescoço. Estes golpes feriram a vítima numa veia jugular e a respectiva carótida. Em consequência, «jactos de sangue» foram projectados a considerável distância, tingindo de vermelho diversas áreas da sala, cozinha e electrodomésticos.



Apagar vestígios



Com a vítima prostrada, sem vida, "Joaquim" está sozinho e baralhado, mas raciocina sem perda de tempo. É preciso desfazer-se do cadáver. E, também, dos vestígios. Com dois cobertores e um robe começou por embrulhar o corpo do empresário.
Entretanto, com as toalhas que encontrou na casa de banho limpou de seguida parte do sangue, mais do que muito, que proliferava na sala e apanhou os restos de vidros partidos da garrafa com a qual momentos antes tinha agredido mortalmente a vítima.
Com o cadáver embrulhado, num mar de sangue na sala, "Joaquim" ainda teve o sangue-frio para retirar à vítima a carteira, contendo no seu interior cartões Multibanco e dos bolsos as chaves do automóvel do empresário, um Citroen Xantia, matrícula 02-00-EX.
O veículo, que estava na garagem e registado em nome do Centro Radiológico, mas que era utilizado pelo empresário Sílvio Araújo, só funcionava com digitação de código de ignição, que era conhecido do assassino, dado o grau de amizade com a vítima. 
Este pormenor não escapou, também, mais tarde, aos argutos e experientes agentes da Secção de Homicídios da PJ, dirigidos pelo inspector-chefe António Teixeira, atualmente aposentado e comentador residente na rubrica criminal do programa da manhã da TVI "Você na TV".
Brigada de António Teixeira investigou e deslindou o crime

Com a cumplicidade da noite e da solidão, o assassino transportou então o corpo embrulhado do empresário até ao estacionamento interno e privativo do Centro Radiológico, onde estava estacionado o automóvel e colocou-o no banco traseiro.


Lançado ao mar




A seguir, "Joaquim" tomou o volante do Citroen Xantia da vítima e arrancou com o cadáver embrulhado no banco da retaguarda. E tomou a direcção da A5, Auto Estrada de Cascais. Pensava estar a cometer o crime perfeito, esquecendo-se que a Via Verde instalada no carro também podia ser um precioso elemento probatório na investigação.
Pelas 6h29 transpôs a portagem de Carcavelos e, mais tarde, atravessou a Ponte Sobre o Tejo, saindo depois da A2 no nó de Almada, encaminhando-se em direcção ao Laranjeiro e Corroios, onde virou à esquerda, em direcção ao sítio conhecido pelo Moinho das Marés.
Neste lugar parou o automóvel no estacionamento ai existente, retirou o cadáver do banco traseiro e lançou-o à água, para o lado Nordeste do Moinho das Marés. Concluída a «proeza», regressou ao carro e dormiu um pouco.
Mais tarde, acordou e arrancou ao volante do Citroen Xantia, dirigindo-se à cidade de Almada, onde, pelas 11 horas da manhã, parou junto a uma dependência do Banco Bilbao & Viscaya. Aqui, voltou a cair num segundo erro. Sem querer estava a deixar pistas à Polícia. Com um dos cartões Multibanco retirada à vítima resolveu levantar dinheiro no caixa automático, digitando para tanto os números que tinha visto escritos num papel guardado na carteira do empresário. Teve, porém, azar. Não acertou no respectivo código e o cartão acabou por ficar retido.



Carro incendiado




"Joaquim", o homem que nas últimas horas tinha passado de simples toxicodependente a viver de expedientes a assassino nato, voltou, em desespero, ao automóvel da vítima e regressou à Costa da Estoril, tomando o percurso inverso: Ponte Sobre o Tejo e A5 até Carcavelos, onde saiu em direcção a Caparide. O tempo ainda corria a seu favor.
Mais tarde, dirigiu-se à Quinta dos Pesos, onde abandonou o veículo, não sem que antes, com o auxílio de papéis que recolheu, lhe tivesse pegado fogo. 
O Citroen Xantia, avaliado em quase 5 mil contos, moeda antiga, ficou completamente carbonizado. Com o carro, ainda em chamas e descoberto só quase oito dias depois, "Joaquim" seguiu, por um caminho de terra batida, para o seu domicílio, no Bairro Além das Vinhas, em Tires.
Veículo da vítima incendiado na Quinta dos Pesos

E, foi na sua residência que, cerca de 24 horas depois de toda a odisseia, recebeu a visita de dois amigos: o casal Mariana (nome fictício) e Carlos (nome fictício), a quem entregou um outro cartão Multibanco da vítima, este de uma conta do Banco Pinto e Sotto Mayor, assim como um papel onde tinha manuscrito o respectivo código, obtido mais uma vez através de um bilhete que a vítima guardava na carteira pessoal.
Joaquim pediu aos amigos que procedessem ao levantamento de 40 mil escudos, moeda antiga e que com o dinheiro fossem comprar uns gramas de heroína para consumo comum. Mais um erro do assassino.
Pelas 22h14 do dia 19 de Janeiro, o casal dirigiu-se à máquina ATM do BCI, no Largo de São de Domingos de Rana, introduziu o cartão e digitou o código fornecido por "Joaquim". Todavia, o cartão também ficou retido. Horas antes, uma das sócias do empresário Sílvio Araújo tinha comunicado à UNICRE o desaparecimento do cartão, e à Polícia a ausência misteriosa do sócio em cuja casa, pelos vestígios de luta e sangue, tudo fazia adivinhar o pior…O carro também desaparecera.



Júri condena




Menos de 15 dias depois do crime, as pistas deixadas pelo assassino culminaram na sua identificação e captura. Os homens da Secção de Homicídios da PJ não tinham descurado o mínimo pormenor na investigação. 
Lograram construir todo o «puzzle», confrontar o principal suspeito, que confessou, mas nunca chegaram a resgatar o corpo do empresário Sílvio Araújo.
O suspeito, "Joaquim", acabou por ser julgado por um Tribunal de Júri de Cascais, que o condenou a 12 anos e meio de prisão em cúmulo jurídico pelos crimes de homicídio qualificado, ocultação de cadáver, dano qualificado e furto simples na forma tentada.
"Joaquim" foi condenado ainda no antigo Tribunal de Cascais


Apesar do chamado corpo de delito nunca ter aparecido, o Tribunal de Júri não teve dúvidas em aceitar como fundamentadas as amostras dos vestígios de sangue recolhidas por uma perita do Laboratório de Polícia Científica (LPC) na sala do Centro Radiológico que serviu de cenário ao crime, as quais vieram a provar-se pertencer à vítima, o empresário Sílvio Araújo. 
Se mesmo assim dúvidas houvessem, ficariam desfeitas com a descoberta de um crucifixo em metal prateado que a vítima usava ao pescoço e que os peritos resgataram no local do crime, com vestígios de sangue. 
Para saber que o sangue encontrado pertencia a Sílvio Araújo, as autoridades recorreram à analise de polimorfismos de DNA a partir de um dos filhos da vítima, um técnico de Raio X então a trabalhar no Hospital de Cascais.


NOTA DO AUTOR. A identidade do arguido é, deliberadamente, omitida por Cascais24, e substituída por um nome fictício, por tratar-se de pessoa que foi julgada, condenada e cumpriu pena perante a sociedade. 

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