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| O neurocirurgião condenado esta sexta-feira por violência doméstica pelo Tribunal de Cascais |
26 junho 2020
Um neurocirurgião italiano foi condenado, esta sexta-feira,
pelo Tribunal Judicial de Cascais, a 2 anos e 8 meses de prisão por violência
doméstica e roubo, dois crimes ocorridos em Alcabideche. Martin Lorenzetti, 44
anos, trabalha no setor privado da saúde após ter acumulado o exercício da profissão
no Hospital de Santa Maria.
Martin Lorenzetti foi
ainda condenado a penas acessórias, nomeadamente frequência de programas para a
prevenção da violência doméstica. Além da proibição de contactar, por qualquer
meio, a ex-mulher, nem se aproximar da residência ou local de trabalho dela,
exceptuando os contactos, cordiais e justificados, para tratar assuntos
relativos aos filhos menores.
A execução da prisão
ficou suspensa, por igual período de tempo, mas está sujeita a regime de prova,
a elaborar pela Direcção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.
O tribunal decidiu
ainda que o cirurgião deve pagar 5 mil euros de indemnização, mais juros de
mora, por danos não patrimoniais. Além das despesas com o tratamento e cuidados
hospitalares da mulher, no Hospital de Cascais, e ainda as custas do processo.
Terá ainda de pagar o valor do telemóvel roubado, mas esse montante carece de
ser apurado na execução da sentença.
“O arguido actuou
sempre com dolo directo. Estamos perante dois crimes, no entanto é punido por
um único crime, pois estamos perante a mesma resolução criminosa”, disse a juiz,
ao resumir a sentença, salientando que a moldura penal por roubo, que decidiu
aplicar, é mais gravosa. Este último crime reporta ao telemóvel da mulher que o
arguido ofereceu e, depois, lhe “tirou à força”, devassando as mensagens
trocadas por ela com terceiros. Alguns SMS foram reencaminhados, com
acrescentos da lavra do arguido, para outras pessoas.
O MP já tinha dito que o
roubo deveria ficar diluído no crime de violência doméstica, que engloba vários
tipos de crimes como injúrias, difamação ou ofensas à integridade física.
A leitura da sentença já
devia ter sido proferida, mas foi adiada por o arguido ter alegado que tinha na
sua agenda de trabalho “seis cirurgias do serviço público de saúde”.
Linguagem corporal do arguido
O tribunal deu como
provado que a vítima foi alvo de violência física e verbal “reiterada”, tendo
sido agredida, nomeadamente com pontapés e estaladas, ao longo de vários
períodos de 2016 e 2018. E ele chegou a esconder o carro dela numa zona isolada,
tendo ainda enterrado um casaco dela no jardim da casa.
“Muitos factos foram
praticados na presença dos filhos e ainda hoje a vítima sente medo do arguido”,
salientou a juiz, considerando que o homem “ainda não interiorizou a gravidade
da sua conduta, nem desenvolveu o sentido de autocritica”, tendo “as
declarações inconsistentes dele sido contrariadas por vários meios de prova”.
O tribunal advertiu o
cirurgião de que não deve praticar mais crimes, caso contrário a pena que agora
lhe foi aplicada poderá ser revogada e vai parar à cadeia.
Os dois crimes de que o
cirurgião estava acusado correspondiam a uma pena global máxima superior a
cinco anos de prisão, pelo que o processo deveria ser julgado em tribunal
colectivo. Todavia, o Ministério Público recorreu ao tribunal singular por o
arguido não ter qualquer antecedente criminal.
Nas alegações finais, o
MP considerou provada toda a matéria da acusação. E não deu crédito às
declarações do cirurgião, de que este é que teria sido “vítima de violência
doméstica”, e “só não fez queixa por ter vergonha”, além de que “nunca tinha
batido em ninguém” e “tudo não passava de mentiras”.
“Apertou mamilos até sangrar”
A procuradora apontou
“características de manipulação no discurso” do médico, em tribunal, lembrando
que a profissão dele exige “conhecimentos e inteligência acima da média”.
“A linguagem corporal
do arguido, relaxado, recostado e com as pernas esticadas, como se estivesse
num café, também diz um pouco da sua postura de indiferença e frieza, em
relação àquilo que se está a passar”, disse o MP, sublinhando que o tribunal
nunca teve um arguido que se comportasse como ele.
“Chegou a cuspir na cara da vítima, e
apertou-lhe os mamilos até sangrar. A violência doméstica é um crime que deixa
sequelas… E as sequelas emocionais são mais graves e ficam para a vida”, concluiu
a procuradora.
“A vítima disse aquilo
que lhe ia na alma: ele não aceitou o divórcio e tentou atirar para ela a culpa
pela ruptura”, recordou o MP, destacando o teor das mensagens de telemóvel, em
italiano, trocadas entre o casal, as quais constam dos autos e “esclarecem a
personalidade do arguido”.
A procuradora sublinhou
que o arguido acedeu e manipulou mensagens, acrescentando palavras, que a
companheira recebeu no telemóvel dela, tendo enviado algumas a diversas pessoas,
em jeito de “picardias, ou vinganças”.
Moda e casamentos
O cirurgião e a vítima,
43 anos, têm dois filhos, 9 e 5 anos. A guarda das crianças está regulada
provisoriamente: vivem com a mãe e passam algum tempo com o pai.
Conheceram-se em 2008, no
Dubai, onde ela morava e trabalhava numa empresa de venda de barcos de luxo. Mudaram
para Portugal no Verão de 2011, quando o filho mais novo tinha apenas 4 meses. Antes
viviam em Milão.
Casaram em Dezembro de 2013,
vivendo juntos desde 2009, e divorciaram-se em Maio de 2019, após separação em
2018.
A vítima, assistente no
processo, trabalhou no sector da moda em Itália. Depois, passou a ser
organizadora de eventos em Portugal, tendo criado uma empresa vocacionada para
a realização de casamentos, cujos clientes eram estrangeiros residentes no
exterior do nosso país.
A mulher contou à juiz que
a sua vida se tornou “um pesadelo”, desde que em Junho de 2018 comunicou ao
ex-marido a intenção de se divorciar, por ter descoberto que ele “era infiel e
frequentava prostitutas”.
“Foi a gota de água que
transbordou o copo… Sofri violência psicológica durante todo o casamento… mas é
difícil de explicar. O meu ex-marido é uma pessoa instável, que tem episódios
de raiva incontroláveis. E foi uma guerra contínua desde que pedi o divórcio”,
recordou a assistente.
“Abusos psicológicos contínuos”
“Fui vítima de abusos
psicológicos contínuos, mas tentei salvaguardar o casamento por causa dos
filhos. Sempre lhe perdoei até chegar uma altura em que não perdoei mais”, disse
respondendo à procuradora do Ministério Público.
Acrescentou que um dos
“episódios” de violência física e verbal ocorreu quando nasceu o segundo filho:
“Houve uma discussão do nada, depois empurrou-me, agarrou-me e deu-me uma
chapada na cara”.
Uma antiga empregada
doméstica confirmou que havia “mau ambiente” em casa da vítima, e que a relação
entre o casal “não era minimamente cordial”. “Ela tinha receio da impulsividade
do marido”, recordou Maria Rosa, 50 anos.
Outra testemunha, Teresa
Faria, contou que o arguido “fazia questão de humilhar a mulher publicamente”,
na presença desta última. “Ela era constantemente ameaçada e denegrida, tendo chegado
a passar fome por depender economicamente dele. E ainda hoje continua a sofrer
pressão psicológica”, recordou.
Um amigo da vítima, que
chegou a acompanhá-la ao hospital para receber tratamento após uma agressão, disse
ao tribunal ter recebido mensagens com ameaças de morte. “O marido
telefonava-me, dizia que me ia matar e, depois, que me mandava matar.
Suspeitava que eu manteria uma relação com a sua mulher”, adiantou esta
testemunha.
“Um filho assistiu a tudo”
Outra testemunha,
empresária, revelou que “uma vez, viu marcas no rosto da vítima, ainda sem
saber o que se estava a passar”. E, “um dia, ela disse que o marido lhe tinha
batido, e um filho assistiu a tudo”, adiantou esta mulher que conheceu a vítima
através de uma amiga italiana comum.
Apenas duas das três
testemunhas arroladas pela defesa prestaram declarações em tribunal, tendo
afirmado que tudo o que sabiam tinha-lhes sido contado pelo cirurgião. A
terceira testemunha era um médico e faltou por estar numa emergência
profissional, tendo o seu depoimento sido prescindido pela advogada do arguido.
Na primeira audiência,
o cirurgião chegou o ponto de invocar o nome de Deus para contestar as
acusações. “Nada disso é verdade… por amor de Deus!”, disse Martin. E a única
explicação que encontrou para justificar a queixa da ex-mulher é que esta “só
queria dinheiro”, para refazer a vida.
O arguido passou todo o
tempo do julgamento a tirar repetidamente a máscara de protecção, obrigatória
para todos os intervenientes processuais, incluindo o juiz. Por vezes, só
tapava a boca, deixando o nariz a descoberto.
Na leitura da sentença,
repetiu a mesma conduta e também balanceou o corpo como se estivesse a dançar. Interrompeu
mesmo a juiz para lhe dizer: “não estou a perceber… Queria saber quando é a
sentença!?”.
“Médico reputado”
O advogado da vítima,
Francisco Lourenço, perfilhou as alegações do MP. “Vivemos numa situação de
pandemia, mas esta pandemia de que estou a falar não é a do coronavírus, mas
sim da violência doméstica. Neste caso, são os magistrados e os juízes que têm
o poder de acabar com esta pandemia”, alegou, pedindo a mão pesada da justiça para
quem pratica este crime.
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| Francisco Lourenço, o advogado da vítima: “Uma das poucas coisas que o arguido conseguiu provar é que é médico” |
Nas suas alegações, o
jurista disse que o arguido “quase não respondeu ao que lhe era perguntado,
limitando-se a divagar ou fazer perguntas, enquanto a vítima foi directa ao
assunto”.
“Uma das poucas coisas
que o arguido conseguiu provar é que é médico”, observou o advogado, revelando
que aquele é praticante de karaté. “O relatório social elaborada pela DGRSP, diz
que é uma pessoa sedutora e elegante, mas isso é o que ele transmite no
trabalho, e aos amigos… Estamos perante uma pessoa egocêntrica, que mais parece
um sociopata”, concluiu.
A advogada do cirurgião
disse que este é “um médico reputado na sua área”, mas discordou da posição do
MP. Defendeu que “devia ser considerado inocente de todas as acusações”, considerando
ainda não haver fundamento para a aplicação de qualquer medida acessória, se viesse
a ser condenado.
Contestou também todos
os depoimentos das testemunhas da acusação, considerando existirem dúvidas
sobre o que teria acontecido num dos episódios de agressão física e verbal,
documentado nos autos com fotografias onde se vêem nódoas negras no corpo da
vítima.
O arguido juntou aos
autos um vídeo, gravado como meio de prova e sem o consentimento da assistente,
vendo-se ela pedindo-lhe para devolver um casaco, oferecido pelo pai dela e que
intuía que havia sido escondido pelo marido.
Ele filmava impávido e
sereno, enquanto ela procurava fazer cessar as filmagens, até que o aparelho
caiu ao chão quando ela atingiu a mão que segurava o telefone.
Antes de proceder à
leitura da sentença, o tribunal decidiu que não havia nada que justificasse
aquela gravação, pelo que as filmagens são consideradas ilícitas e, portanto,
não são válidas, nem admissíveis, de acordo com o Código de Processo Penal.
“O vídeo trata um
episódio da vida familiar do arguido, nada tem a ver com os autos, nem
documenta factos ilícitos praticados pela assistente. Limita-se, apenas, a
confirmar que o arguido e a vítima, à data, já não se davam bem”, concluiu a
juiz, seguindo a jurisprudência dos tribunais superiores.





3 comentários:
E será que é mesmo médico? Já não era o primeiro/a que trabalhava num hospital como tal e tudo falso. Seja ou não é uma pessoa e como tal, factos provados claro que merece uma pena pesada. Tenho muita pena é das crianças.
Não percebo porque não foi aplicada prisão efectiva!!!
Uma besta como esta nem deveria poder praticar medicina.
Tem conta no facebook onde é louvado "como um ser humano exemplar"..inacreditável!
Já lá fui deixar a minha opinião
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