Antónia (nome fictício) nasceu e cresceu num meio familiar de grande conflitualidade
e com privações q.b. Filha de alentejanos de Nisa, frequentou a escola até à 4ª
classe. Aos 12 anos começou a trabalhar. Mais tarde, casou e continuou a viver
em casa dos pais, de onde saiu passados cerca de 18 anos. Por conflitos.
Como aconteceu com muitas famílias alentejanas após os
primeiros anos da Revolução de Abril, decidiu vir para a Grande Lisboa em busca
de melhores condições de vida. Também como muitas famílias alentejanas,
instalou-se com o marido e os dois filhos, um rapaz e uma rapariga, no então
clandestino Bairro Além das Vinhas, em Tires.
No terreno comprado numa das ruas do bairro, o
primeiro tecto é uma espécie de anexo, construído à pressa, não aparecessem os
fiscais camarários. Aos poucos, ao longo de 15 anos, o anexo foi dando lugar a
uma moradia de dois pisos que, em 1995, ainda estava por acabar.
Em casa viviam Antónia, o marido, homem de 51 anos,
bate-chapas e o filho, então com 17 anos. A filha, de 22 anos, casara
entretanto e deixara o lar paterno.
Antónia é uma mulher de poucas falas. Nem bom dia nem boa
tarde. Não deixa, porém, de ser uma pessoa respeitada na vizinhança, que a
considera uma “grande trabalhadora e o ganha pão da família”. Sai todas as
manhãs cedo de casa para apanhar o autocarro que a leva a Cascais, onde trabalha
como doméstica em casa de “uns senhores, de boas famílias”.
O marido, por seu turno, é visto pela vizinhança como homem
com “doença grave”, que passa os dias nas tascas do bairro, talvez para afogar
no álcool desgostos e sofrimentos de uma vida que teve momentos mais baixos do
que altos... É pessoa que permanece largos períodos sem trabalhar. Antónia, o
marido, sem trabalho há três anos, e o filho vivem em situação económica quase
no limiar da pobreza. A juntar a tudo isto, Antónia carrega consigo um terrível
segredo…
Na arca frigorífica
O segredo tem quase um ano e meio. Certo dia de Setembro de
1994, sozinha em casa, Antónia dá à luz na casa de banho, sem qualquer
assistência. O recém-nascido é do sexo masculino. Terá nascido prematuramente,
com sete meses. Logo após o nascimento, ainda sob a influência do parto, a
mulher aperta o pescoço da criança até que ela deixa de respirar.
Passados alguns instantes, embrulha o corpito do filho num
lençol, mete-o dentro de um saco de plástico e esconde-o na arca frigorífica.
Mas, como é possível que uma mulher esteja grávida sem que o
marido suspeite?. A explicação é dada mais tarde pelo marido: “Nunca desconfiei
que a minha mulher estivesse grávida, porque ela tinha problemas de barriga”.
Mais: durante o período de gestação, nunca Antónia terá feito qualquer
confidência ao marido.
Outra interrogação mais tarde colocada é como é que ninguém
naquela modesta e humilde casa inacabada nunca suspeitou, durante ano e meio,
da existência daquele saco dentro da arca frigorífica.
O marido de Antónia volta a argumentar: “Era sempre a minha
mulher que mexia na arca”. Também o filho do casal assegura que, “nem
eu, nem o meu pai, mexia-mos na arca”.
Vizinha descobre
É na sequência da difícil situação financeira que, em
Setembro de 1995, a
família vê a EDP proceder, por falta de pagamento, ao corte de energia
eléctrica em casa. Aflita, Antónia pede à vizinha da casa em frente para lhe guardar na
arca congeladora um saco que, segundo ela, continha “carne”. A vizinha, senhora
de meia idade, acede ao pedido e mete o saco na arca. Os meses foram passando
até que, certo dia da segunda quinzena de Janeiro de 1996, a vizinha, ao
retirar carne sua para o jantar, lembrou-se de ir ver o que tinha, afinal, o
saco da vizinha Antónia, que nunca mais o fora buscar.
“Tirei sacos e mais sacos, até que encontrei dois panos
brancos. O volume estava muito rijo. A muito custo lá consegui retirar os panos
e foi então que dei com o bebezinho”, conta a vizinha. “Quase fiquei sem forças,
mas corri logo para a rua a gritar por socorro. Fiquei mesmo em estado de
choque”, conclui.
Lançado o alarme, comparece o INEM e a GNR de Porto Salvo,
que procede à remoção do bebé congelado, ainda com o cordão umbilical. Antónia
é detida. Abatida, cabeça baixa, pernoita no Destacamento de Oeiras. No dia
seguinte é interrogada por um juiz de Cascais, que lhe confirma a detenção
preventiva e recolhe ao Estabelecimento Prisional de Tires. À saída do tribunal,
o genro de Antónia está lívido: “Ficámos estupefactos com tudo isto e nem
palavras temos”, diz ao jornalista.
Condenação simbólica
O caso do bebé congelado chega ao Tribunal Judicial de
Cascais para julgamento menos de um ano depois da macabra descoberta. Antónia
senta-se no banco dos réus acusada de dois crimes: infanticídio privilegiado e
ocultação de cadáver.
O colectivo do 4º Juízo Criminal demora pouco tempo a julgar a arguida, uma mulher que nunca soube o que era a verdadeira felicidade e que desde sempre enfrentou grandes adversidades, com muitas privações, muita conflitualidade e, também muito trabalho.
Com base em relatórios e exames, os juízes consideram Antónia
uma pessoa com “distúrbios de personalidade caracterizados por deficiente
estruturação, imaturidade, depressividade e traços passivo-agressivos, no qual
ter-se-á enxertado um sindroma depressivo de características, sobretudo
reactivas à sua situação”.
Então com 47 anos, Antónia é classificada durante a sua
permanência na cadeia de Tires como uma “detida exemplar e trabalhadora” é
condenada a dois anos e seis meses de prisão pelo crime de infanticídio e a 5
meses de prisão e 40 dias de multa à taxa diária de 300 escudos pelo crime de
ocultação de cadáver.
Antónia acaba, no entanto, por ser condenada, em cúmulo
jurídico, na pena única de dois anos e nove meses de prisão e em 40 dias de
multa, com a alternativa desta última transformar-se em mais 26 dias de prisão.
Na sua decisão, o colectivo de juízes teve em consideração “o
conjunto dos factos, a personalidade da arguida e as necessidades de prevenção
geral e de socialização”.
NOTA DO AUTOR. A identidade da arguida é, deliberadamente, omitida por Cascais24, e substituída por um nome fictício, por tratar-se de pessoa que foi julgada, condenada e cumpriu a sua pena perante a sociedade.
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