Por Valdemar Pinheiro
25.02.2017
Nem meio ano depois de os vistos dourados arrancarem, Xiaodong abria a empresa Westeuro, com dinheiro de um neozelandês e de uma chinesa que terão conseguido vistos portugueses com a ajuda de Figueiredo e do ex-diretor do SEF.
Antes, em outubro de 2013, Xiaodong já tinha constituído uma outra sociedade, a Goldenvista Europe, também dedicada à “compra e venda de bens imobiliários”. A filha de António Figueiredo – para o MP testa-de-ferro do pai – era uma das sócias, juntamente com dois funcionários de uma imobiliária do Estoril, que também se fizeram representar pelos filhos, e um chinês milionário que vivia em Madrid. Porém, e mais uma vez, o negócio não prosperou. Um mês a seguir à constituição da empresa, os sócios participaram numa feira de imobiliário na China para angariar clientela, mas voltaram para Portugal de mãos a abanar. Pouco tempo depois, com as suspeitas de corrupção estampadas nos jornais, a empresa foi dissolvida e o que sobrou do capital social redistribuído pelos sócios.
25.02.2017
Entre restaurantes e lojas tradicionais até hipers, os empresários
chineses têm investido milhões no concelho de Cascais, isto para não falar em
tantos e muitos mais milhões recentes em mansões em condomínios de luxo graças
aos vistos Gold.
Não será, pois, por acaso que Cascais tornou-se nos últimos anos no
palco preferencial da tríade – organização criminosa chinesa que, para além da
atuação em diferentes regiões do nosso País, sobretudo no Norte, tem levado a
cabo algumas “proezas” naquela que até há alguns anos era classificada como a
região muito nobre da cosmopolita Lisboa.
E, aparentemente, a atuação da tríade tem vindo a desenvolver-se na
região, com ajustes de contas e perseguições para extorsão.
Estas atividades criminosas têm sido seguidas pelo Serviço de
Informação de Segurança (SIS) e pela Unidade Nacional Contra Terrorismo da PJ,
mas a verdade é que, até ao momento, os resultados, a existirem, não são conhecidos
e os criminosos continuam impunes.
A atuação da tríade no concelho de Cascais inicia-se da forma mais
sangrenta e brutal na noite de 17 de outubro de 2010. Ainda os vistos Golden
estavam longe, mas a comunidade chinesa investia em Cascais com restaurantes e
lojas tradicionais.
Anciã torturada e morta
Foi necessário apenas um segundo para o mousha (assassino em chinês)
desferir o golpe mortal na virilha da anciã que, amarrada e indefesa, foi antes
torturada com onze golpes superficiais em várias partes do corpo.
Dongjuan Xu, 68 anos, tinha chegado a Portugal há três meses e estava a
viver na casa contígua a um restaurante chinês, em Alcabideche, Cascais,
pertença de um familiar.
Na noite do dia 17 de Outubro de 2010, três homens asiáticos, armados
com pistola e facas tomaram de assalto a casa e numa dependência amarraram a
idosa e dois outros homens.
A anciã foi, no entanto, o alvo principal da ousada e sanguinária ação,
que culminou na sua morte - uma das mais violentas registadas na comunidade
chinesa em Portugal.
Se bem que nunca tenha descartado a hipótese, mais do que certa, de que
o assassínio teve por móbil um ajuste de contas protagonizado por membros de
uma das tríades chinesas, a operar em Portugal, a verdade é que a PJ não
conseguiu chegar aos suspeitos. O inquérito ainda aguarda a produção de melhor
prova nos serviços do Ministério Público.
Dois anos depois, as autoridades espanholas três chineses que tomaram
de assalto a casa de uma família de comerciantes asiáticos. Estes terão fugido
da região de Cascais para tentar escapar à perseguição dos mafiosos.
Armados com pistola e facas, os homens sequestraram os quatro membros
da família, pais e dois filhos, numa vivenda, em Valência, exigindo dinheiro.
Durante algumas horas, a família sequestrada foi reiteradamente
agredida pelos atacantes. O chefe da família chinesa foi mesmo esfaqueado
gravemente no abdómen e numa perna. Teve mesmo que receber tratamento no
hospital de Manises.
A polícia espanhola não divulgou à época as identidades dos suspeitos,
apenas que constituíam um grupo organizado originário do norte da China.
O modus operandi foi muito semelhante, entre o da anciã morta em
Alcabideche e o de Valência, mas a verdade é que nem espanhóis, nem portugueses
conseguiram relacionar os dois crimes.
Baleado com filho bebé ao colo
Já no dia da véspera de Natal de 2014, um comerciante chinês, de 36
anos, foi baleado com dois tiros por dois desconhecidos armados e encapuzados,
que entraram no seu minimercado, em Matarraque.
Ao aperceber-se da entrada dos alegados assaltantes, o comerciante
asiático entregou o seu filho, um bebé com 3 meses, à empregada e tentou
enfrentar os dois homens.
Um deles sacou da arma e, sem contemplações, atirou contra o
comerciante, que foi atingido na cabeça e no tórax.
Os agressores colocaram-se em fuga sem roubar fosse o que fosse e o
comerciante esteve cerca de dois meses hospitalizado, a recuperar dos
ferimentos de balas.
Até hoje, os atacantes, não foram descobertos, pese embora a tentativa
inicial de os relacionar com um gang lusoafricano, autor de vários assaltos
armados no concelho e parcialmente desmantelado pela PJ.
Suicídio “encenado?”
Já cerca de um ano depois, um outro cidadão chinês, de 28 anos, casado
com uma empresária asiática de sucesso, foi encontrado quase às portas da morte
na garagem da mansão, em Alcoitão.
Alertadas, autoridades e bombeiros ainda chegaram a tempo de salvar o
homem, num quadro aparente que indiciava uma tentativa de suicídio na garagem,
por libertação de gases de um veículo.
O homem e a mulher estariam a atravessar alguns desaires
económico-financeiros na área empresarial que exploravam.
Mais um caso que ainda está por esclarecer.
GNR aborta extorsão
A última atuação da alegada tríade,
a operar no concelho de Cascais, registou-se há menos de 15 dias, embora desta
feita, finalmente, um dos suspeitos tenha sido identificado e detido, acabando,
no entanto, por ordem de expulsão do País.
O alvo foi uma família chinesa, a
viver em Pau Gordo, na freguesia de Alcabideche, graças ao Visto Golden, mas que,
até ao momento, segundo apurou Cascais24, sem qualquer negócio empresarial no
nosso País.
Com o marido ausente desde novembro
último na China, uma cidadã asiática, com os dois filhos menores, foi abordada à
entrada do condomínio, em Pau Gordo, por três desconhecidos chineses, fazendo-se
transportar num veículo Honda, que lhe bloquearam a entrada e exigiram um
pagamento de 10 mil euros. Um dos suspeitos terá mesmo argumentado de que conhecia
a família e saber que tinham “muito dinheiro”.
A mulher terá concordado
inicialmente no pagamento, mas, receando pela sua integridade e dos filhos, alertou
a GNR de Alcabideche. Posteriormente, e na sequência de novo contato entre
vítima e extorsionistas foi marcado encontro para o dia seguinte para a entrega
do montante.
No dia e hora do encontro, a GNR de
Alcabideche montou um dispositivo discreto, mas apertado, em redor do
condomínio, logrando intercetar e deter um dos três suspeitos – um homem
chinês, 39 anos. Os dois cúmplices lograram escapar no carro. O suspeito disse
que estava em Portugal de férias, mas contou que tinha perdido todos os
documentos. As autoridades apuraram, contudo, que estava em situação ilegal no
País, pelo que foi entregue aos cuidados do Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras (SEF), com ordem de expulsão, decretada pelo tribunal de Cascais.
A lei do silêncio
No caso da idosa assassinada os autores não deixaram vestígios
comprometedores e muito dificilmente poderão ser identificados pelas duas
testemunhas, que também foram ameaçadas e amarradas, por terem actuado
encapuzados.
Mas, mais grave ainda é a chamada lei do silêncio que impera na
comunidade chinesa, o que torna difícil qualquer investigação.
“Há uns anos, em Vila Nova de Famalicão, a PJ libertou uma chinesa, de
48 anos, que esteve em cativeiro uma semana, porque não pagou 55 mil euros de
uma dívida de jogo ilegal. Mais tarde, em julgamento, a mulher afirmou que, até
que o marido pagasse a dívida, tinha estado 7 dias de sua livre vontade em casa
do usurário - um abastado empresário chinês, de 45 anos, com negócios nos ramos
da restauração e do têxtil em Portugal e Espanha e conhecido por emprestar
dinheiro para o jogo a membros da comunidade chinesa, aos quais cobra juros de
10 por cento por mês”, recordou outra fonte policial.
“Esta e outras situações ilustram bem o medo que as vítimas e até
testemunhas têm, relativamente a grupos associados às tríades”, concluiu.
Suspeitos impunes
Tradicionalmente cautelosas, as autoridades portuguesas continuam a
defender que, “em Portugal não existem tríades a operar”.
Não negam, porém, que “há cidadãos chineses associados a alguns grupos,
sobretudo sedeados em Hong Kong e em Macau”.
São entre 60 e 70 os chineses referenciados como estando envolvidos em
negócios ilegais de jogo, usura, extorsão, tráfico humano, exploração da
prostituição e falsificação de documentos, que até agora têm agido apenas entre
a comunidade chinesa.
As atividades de grupos criminosos chineses em Portugal tem sido
seguida pelo Serviço de Informações de Segurança (SIS) e pelo Serviço de
Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
“A presença e a atuação de grupos suspeitos em território nacional tem
sido acompanhada com particular atenção, até porque é sabido que as tríades
surgem nos países onde as comunidades chinesas têm expressão e Portugal não é
uma exceção, pelo contrário”, explicou fonte da polícia de imigração.
No nosso País vivem cerca de 30 mil cidadãos chineses e uma grande maioria
graças aos Vistos Gold.
Casos e factos
A arderem com 1,96 milhões de euros
Os vistos Gold constituíram um chamariz para atrair
capital para Portugal e os chineses foram os que mais contribuíram, o que terá
dado azo a situações de alta corrupção.
António Figueiredo, arguido no caso dos vistos Gold,
terá começado a relacionar-se com chineses endinheirados em 2009. Segundo o
Jornal I, o namorado da filha era sócio de Xiaodong numa empresa chamada Hora
do Descanso, que se dedicava a tratamentos estéticos, mesoterapia “e
similares”. Em 2012, quando os vistos gold foram criados, Xiaodong – que era
dono de lojas e restaurantes chineses – decidiu dedicar-se à angariação de
casas de luxo para revender a chineses que quisessem comprar o visto português.
Começou por trabalhar com a mulher, informalmente e cobrando comissões às
imobiliárias que variavam entre os 3% e os 6% sobre o valor da compra.
Segundo o MP, António Figueiredo apoiou a atividade desde o começo, ajudando Xiaodong com os formalismos legais. E quando o chinês abriu as primeiras empresas destinadas ao negócio dos vistos gold o presidente do IRN terá ajudado no registo. Até que, em 2012, terão firmado um acordo. O presidente do IRN comprometia-se a ser “facilitador do processo burocrático” da compra e venda de imóveis e a pôr à disposição dos chineses e respetivos clientes os carros, os funcionários e as bases de dados do instituto – onde os assuntos de Xiaodong passariam a ser tratados como “prioritários”.
Segundo o MP, António Figueiredo apoiou a atividade desde o começo, ajudando Xiaodong com os formalismos legais. E quando o chinês abriu as primeiras empresas destinadas ao negócio dos vistos gold o presidente do IRN terá ajudado no registo. Até que, em 2012, terão firmado um acordo. O presidente do IRN comprometia-se a ser “facilitador do processo burocrático” da compra e venda de imóveis e a pôr à disposição dos chineses e respetivos clientes os carros, os funcionários e as bases de dados do instituto – onde os assuntos de Xiaodong passariam a ser tratados como “prioritários”.
António Figueiredo, que receberia comissões em troca,
terá igualmente concordado “exercer influência junto de decisores públicos ou
políticos” para agilizar as decisões de que o amigo necessitasse.
Nem meio ano depois de os vistos dourados arrancarem, Xiaodong abria a empresa Westeuro, com dinheiro de um neozelandês e de uma chinesa que terão conseguido vistos portugueses com a ajuda de Figueiredo e do ex-diretor do SEF.
Essa empresa comprou, em Maio de 2013, uma outra, a
Basetropical. Mais ou menos na mesma altura, Zhu constituía uma outra
sociedade, a Quinta do Barão, com sede na Quinta da Marinha e que serviria para
comprar um condomínio na Penha Longa por 17 milhões de euros. O negócio acabou
por não se concretizar porque entretanto Zhu se incompatibilizou com os sócios
– o neozelandês e a chinesa – e a empresa encerrou a 28 de maio de 2014.
Antes, em outubro de 2013, Xiaodong já tinha constituído uma outra sociedade, a Goldenvista Europe, também dedicada à “compra e venda de bens imobiliários”. A filha de António Figueiredo – para o MP testa-de-ferro do pai – era uma das sócias, juntamente com dois funcionários de uma imobiliária do Estoril, que também se fizeram representar pelos filhos, e um chinês milionário que vivia em Madrid. Porém, e mais uma vez, o negócio não prosperou. Um mês a seguir à constituição da empresa, os sócios participaram numa feira de imobiliário na China para angariar clientela, mas voltaram para Portugal de mãos a abanar. Pouco tempo depois, com as suspeitas de corrupção estampadas nos jornais, a empresa foi dissolvida e o que sobrou do capital social redistribuído pelos sócios.
A partir de fins de Fevereiro de 2014, com os jornais
atentos à investigação encomendada pelo MP, Zhu Xiaodong e António Figueiredo
terão mudado o comportamento por desconfiarem que estavam sob escuta. Mas,
garante o Ministério Público, nem assim terão deixado de continuar a angariar
casas. De tal forma que, em Março de 2014, a empresa Hora do Descanso – que o
chinês tinha a meias com o genro de Figueiredo – comprou uma imobiliária, a
Formabsoluta, e deixou de ser uma casa de tratamentos de estética e mesoterapia
para passar a empresa de “compra e venda de imóveis, agência de documentação e
atividades turísticas”. Por precaução, acredita o MP, o genro de Figueiredo
desvinculou-se e a alteração à sociedade terá sido redigida por Albertina
Gonçalves, advogada e sócia de Miguel Macedo e, na altura, secretária-geral do
Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território (MAOT).
Os três empresários chineses acabaram detidos na Operação Labirinto. Segundo as contas do MP, as empresas que abriram e fecharam só deram prejuízo. Senão veja-se: enquanto existiu, a Basetropical comprou quatro casas no Estoril e uma em Cascais por 2,1 milhões de euros. As aquisições aconteceram em Julho e Agosto de 2013 e os imóveis foram imediatamente vendidos a cinco chineses candidatos a vistos gold por 2,6 milhões de euros – gerando um lucro de mais de meio milhão. Porém, a empresa fechou antes de conseguir desfazer-se de uma outra casa, em Carcavelos, que tinha sido adquirida por 290 mil euros. Contas feitas, a Basetropical rendeu 210 mil euros. Já a Hora do Descanso só deu prejuízo: comprou um único imóvel, na Parede, por 360 mil euros, que nunca chegou a ser revendido.
Quanto à Formabsoluta, foi um verdadeiro desastre. Até serviu para comprar uma vivenda em Cascais por 850 mil euros – posteriormente vendida por mais de 1,2 milhões –, que gerou uma receita de 350 mil euros. Mas a empresa tinha feito outras aquisições: uma vivenda na Parede por 525 mil euros, um prédio em Cascais por 620 mil, um prédio em Birre por 630 mil e um apartamento em Oeiras por 390 mil. Estas casas não chegaram a ser revendidas e custaram 2,16 milhões. No total, os chineses terão perdido 1,96 milhões de euros. (In Jornal I)
Os três empresários chineses acabaram detidos na Operação Labirinto. Segundo as contas do MP, as empresas que abriram e fecharam só deram prejuízo. Senão veja-se: enquanto existiu, a Basetropical comprou quatro casas no Estoril e uma em Cascais por 2,1 milhões de euros. As aquisições aconteceram em Julho e Agosto de 2013 e os imóveis foram imediatamente vendidos a cinco chineses candidatos a vistos gold por 2,6 milhões de euros – gerando um lucro de mais de meio milhão. Porém, a empresa fechou antes de conseguir desfazer-se de uma outra casa, em Carcavelos, que tinha sido adquirida por 290 mil euros. Contas feitas, a Basetropical rendeu 210 mil euros. Já a Hora do Descanso só deu prejuízo: comprou um único imóvel, na Parede, por 360 mil euros, que nunca chegou a ser revendido.
Quanto à Formabsoluta, foi um verdadeiro desastre. Até serviu para comprar uma vivenda em Cascais por 850 mil euros – posteriormente vendida por mais de 1,2 milhões –, que gerou uma receita de 350 mil euros. Mas a empresa tinha feito outras aquisições: uma vivenda na Parede por 525 mil euros, um prédio em Cascais por 620 mil, um prédio em Birre por 630 mil e um apartamento em Oeiras por 390 mil. Estas casas não chegaram a ser revendidas e custaram 2,16 milhões. No total, os chineses terão perdido 1,96 milhões de euros. (In Jornal I)
Carreiras “contente”com investimentos
Em 2015, Cascais acolheu a Horasis China Meeting,
que atraiu mais de 300 líderes empresariais chineses e homólogos globais para
discutir oportunidades de investimento e o papel de liderança da China. A
iniciativa foi organizada pela Horasis: The Global Visions Community, entidade
internacional independente, juntamente com o Governo português e a Câmara
Municipal de Cascais, em estreita colaboração com a República Popular da China
e com o apoio da Federação Chinesa de Economia e Indústria.
Na altura, o presidente da Câmara de Cascais,
Carlos Carreiras, sublinhou a importância da presença da elite empresarial
chinesa, afirmando que significa que “Portugal vai ter a oportunidade de
assistir a um debate único sobre a China e que Cascais vai ser uma porta para a
entrada de investimentos em Portugal e na Europa”.
Em cima da mesa estiveram temas como
oportunidades de investimento, o papel que Portugal poderá ter como “plataforma
para investimento” especialmente para países de língua portuguesa, como Angola,
Moçambique e Brasil, a situação económica global, da China, de Portugal e do
mundo.





Sem comentários:
Enviar um comentário