O "PADRINHO" FOI MORTO AO TELEFONE






Na manhã de 7 de março de 1991 acabara de tomar o pequeno almoço e preparava-me para sair para o jornal, quando o telefone tocou em casa e a voz de um amigo polícia anunciou: “Mataram ontem à noite um italiano no centro de Cascais”. Estava longe de prever que, afinal, o italiano era um padrinho da Camorra, vítima de execução pura e simples e que a minha investigação jornalística em torno do crime iria roubar-me algumas noites de sono e, mais grave, alguns riscos para a família…
Naquele dia apurei que a vítima, de acordo com o passaporte que lhe foi encontrado, chamava-se Pasquale Martino, tinha 45 anos e era comerciante. Vivia na Quinta da Bicuda e tinha sido morto na véspera, dia 6, à noite, na cabina telefónica pública junto à farmácia Cordeiro, em Cascais. Roubo? Crime passional?, congeminei. A investigação estava entregue à PJ, à época pouco dada a informações para o exterior, quase como que blindada. Só mais ou menos 48 horas depois, com a recolha de informação junto de polícias bem informados e de algumas diligências noturnas na Costa do Estoril, vim a saber que, afinal, Pasquale Martino chamava-se verdadeiramente Mário Iovine, tinha 53 anos, era chefe da «família» de Caserta e estava a ser procurado pela Interpol desde 1981.

O último ato de “bondade”
Embora fugido, principalmente à Interpol, Mário Iovine continuaria a controlar à distância a «família» napolitana. Durante a sua estada na Costa do Estoril, ele utilizava telefones públicos para contactar aqueles que alegava à companheira, a cidadã brasileira Rosangela Mendonça, serem os seus «sobrinhos», em Itália.
Durante o dia utilizava a estação de Correios do Estoril e, à noite, uma «roullote» dos TLP defronte da estação de comboios de Cascais. Mas, com a saída de esta última, Mário Iovine passou a utilizar uma cabina telefónica do Largo Cidade de Vitória, junto à farmácia Cordeiro.
Foi aqui que, na noite do dia 6 de março de 1991, Iovine veio a ser abatido. Naquele dia, e como era habitual, o «padrinho» deixou a Quinta da Bicuda ao volante de um «Volkswagen Golf», registado em nome da companheira, Rosangela Mendonça, e dirigiu-se ao Largo Cidade da Vitória.
Quando saiu do carro e, como era seu costume – diz-se que era «amigo para os mais desgraçados» – deu uma gorjeta de 500 escudos a um rapazinho que aí ajudava a arrumar carros. Ironia do destino. Foi o seu último ato de «bondade»...

A longa espera dos “matadores”
Iovine tombou aqui (Foto Rogério A. Fernandes/DR)
O «padrinho» da família de Caserta entrou na cabina, mas nem tempo teve para introduzir o primeiro de cinco cartões de Credifone que ia utilizar. Através de um dos vidros laterais da cabina, que ficaram completamente estilhaçados, surgiram dois homens. Rápido, um deles sacou de um revólver P.38 e disparou, atingindo Iovine à queima-roupa, com um tiro no olho esquerdo e outro no abdómen.
Ferido de morte, o «padrinho» tombou prostrado. O auscultador suspenso, uma mancha de sangue, misturada com estilhaços e os Credifones depositados sobre o pequeno balcão da cabina, foi o cenário que a Polícia encontrou depois do italiano ser conduzido ao hospital de Cascais.
No dia do «ajuste de contas», os dois matadores estiveram vigilantes. Eram homens, na casa dos 30 anos. Um deles usava cabelo curto e bigode e vestia casaco de fazenda preto e calças de fato de treino em tom claro e calçava ténis. Falava espanhol. O outro tinha cabelo ondulado, preto, usava óculos, vestia fato de treino azul escuro e também calçava ténis. Durante a tarde estiveram, pelo menos, em dois bares, ambos situados mesmo defronte da cabina telefónica, onde vieram a executar à boa maneira mafiosa o chefe de Caserta, um dos sectores da Camorra que controla o narcotráfico. Foi uma longa espera de três horas, durante as quais ingeriram uísques e, por diversas vezes, saíram à rua, olhando para a cabina e voltando ao interior. Embora não soubessem a hora exacta em que Iovine ia aparecer, sabiam com todo o rigor que ele usava aquela cabina telefónica. Contrariamente à polícia portuguesa, que ignorava a presença, em solo nacional, de Mário Iovine, os seus matadores há alguns dias que lhe seguiam e procuravam controlar os movimentos, aguardando a altura certa para o eliminar!

Uma capa para o tráfico
Mário Iovine era o homem por detrás da Badfisch, uma empresa de pescado com sede em Cabo Frio – uma estância turística com características muito semelhantes a Cascais, situada a 50 quilómetros do Rio de Janeiro. A Badfisch dispunha, então, de várias embarcações e, à época, tinha interesses no Norte de Portugal, em Espanha e em vários países da América Latina. A sua actividade assentava oficialmente na importação e exportação de farinhas de pescado, mas as autoridades suspeitavam que não fosse mais do que uma capa para o narcotráfico.

Federais infiltrados
Casado com uma napolitana e pai de uma rapariga de 15 anos, ambas a viverem em Nápoles, Mário Iovine fugiu do seu país em finais de 1980 e refugiou-se no Brasil. Com o auxílio de um outro italiano, seu amigo e dono do «Satírico», um dos mais famosos restaurantes do Rio, fundou a Badfisch. Porque era procurado internacionalmente, Iovine decidiu que fosse a sua companheira, que entretanto conheceu, Rosangela Marques Mendonça, cidadã brasileira, a assumir a sua posição na empresa, onde detinha 60 por cento. No entanto, a partir de certa altura, as coisas complicaram-se para Iovine. A Polícia Federal suspeitava que ele estava ligado ao narcotráfico de cocaína e chegou mesmo a «infiltrar» agentes no seio da Badfisch, mas os resultados foram um fracasso.
As autoridades brasileiras não conseguiram provar nada. À cautela, os federais decidiram expulsar Mário Iovine, que voltou a Itália. Por pouco tempo.

Refúgio e confissão na Bicuda
Na morgue  (Foto Rogério A. Fernandes/ DR)
Em fevereiro de 1990, o «padrinho» Iovine refugiou-se em Portugal juntamente com a companheira Rosangela e as suas duas filhas, de dois e cinco anos, nascidas da relação com a cidadã brasileira. A família passou, então, a habitar uma moradia da Quinta da Bicuda, em Cascais. Aqui viveu até morrer sob o nome falso de Pasquale Martino, um respeitável comerciante de 45 anos. Levava uma vida aparentemente normal e tranquila. Entretanto, ganhou coragem e, finalmente, confessou à sua companheira a sua verdadeira identidade, pois ela sempre o conhecera como Pasquale. O «padrinho», que levanta ainda um pouco do véu sobre o seu passado, acalentava a esperança de regressar ao Brasil. Para tanto, dirigiu vários requerimentos às autoridades daquele país, as quais nunca terão conseguido tornar em certezas as suspeitas de que ele estaria ligado ao narcotráfico. Mas, a «luz verde» para o regresso nunca chegou.

De Espanha... ao Paris
Os «matadores» de Mário Iovine, os espanhóis Javier Molina Vazquez e Juan Carlos Ferrer, contratados por um outro membro da Camorra com ligações a clãs galegos – falou-se no antigo líder da «família» de Caserta, António Bardellino, oficialmente vítima de um atentado em 1987 no Brasil, mas cuja morte pode não ter passado de um grande «bluff» e que exercia grande influência junto da mafia espanhola – chegaram a Portugal uma semana antes da execução. Na agência «Sovial», instalada na Calçada da Glória, em Lisboa, Javier Molina alugou um «Volkswagen Golf», curiosamente da mesma marca e modelo ao que o «padrinho» conduzia. Depois, Javier e Juan hospedaram-se no Hotel Paris, no Estoril e, mais uma vez, curiosamente não muito longe da estação de correios que Iovine utilizava para telefonar durante o dia para os “sobrinhos” em Itália.

Fuga e captura
No dia da execução, Javier e Juan fugiram no «Volkswagen» alugado, que abandonaram no Guincho. Enquanto Juan Ferrer regressou a Espanha, Javier Molina voltou ao Hotel Paris. E foi no bar do hotel que, menos de 48 horas depois do crime, foi detido por agentes da Secção de Homicídios da PJ. Javier negou e volta qualquer envolvimento directo na execução e nem sequer conseguiu justificar como é que o carro por si alugado foi usado no crime. Nos interrogatórios não conseguiu disfarçar um grande nervosismo, mas não abriu a boca. Quando foi transportado para o Tribunal de Cascais, Molina viajou deitado no banco traseiro do carro da PJ, que montou um forte dispositivo de segurança. À juíza, Molina não prestou depoimento. A magistrada decidiu mantê-lo em prisão preventiva. Molina, que não chegou a ser julgado em Portugal, foi extraditado para Espanha, onde, entretanto, fora também detido Juan Carlos Ferrer, o seu cúmplice. Os dois foram julgados há cinco anos pela justiça espanhola que os condenou a 20 anos de prisão.


Camorra em Portugal
A presença das máfias italianas, sobretudo da Camorra em Portugal é uma realidade, com mais de 30 anos. Já em meados da década de 80 as autoridades portuguesas, com especial incidência o SIS (Serviço de Informações de Segurança) possuíam informação sobre as actividades de grupos italianos ligados à máfia napolitana. Davam, então, os primeiros passos, procurando infiltrar-se em alguns setores da vida económica nacional, o que acabaram por conseguir com sucesso, expandindo os seus negócios. À época, à secreta portuguesa não foram alheias movimentações na Península de Setúbal, no Norte do País e na Costa do Estoril. Como, paralelamente, também não era desconhecido o interesse da mafia galega, conectada com a organização napolitana, no mesmo negócio que, objectivamente, passava pelo controlo de sociedades de «import» e «export». Mávio Iovine estaria contra uma aliança entre italianos e espanhóis. Pagou caro. Com a vida. Por isso, também à época fui “pressionado” a deixar de escrever sobre a execução de Mário Iovine e a Camorra. E os telefonemas, ameaçadores foram, forçosamente, convincentes. “Tenha juízo. Pare. Sabemos que tem filhos para criar…”. Mais palavras para quê. A Camorra conta com mais de 110 clãs operacionais, que controlam em todo o Mundo actividades, que vão desde os tráficos de droga e de tabaco, passando pela extorsão, fraudes em exportações na União Europeia, o jogo clandestino e a produção cimenteira. Em outubro de 2007, ficou a saber-se que os líderes da Camorra, da Cosa Nostra e da Ndrangheta – as três principais organizações mafiosas italianas -  estariam a negociar a criação de um único cartel. A ideia seria a Camorra deixar para a Ndrangheta, da Calábria, o monopólio do tráfico de cocaína,  a partir da América do Sul, passando a controlar apenas o tráfico de haxixe, até então detido pela mafia calabresa, e a Cosa Nostra, da Sicília, que até há pouco tempo teve o controlo global do tráfico de heroína, passar a garantir relações com o mundo dos negócios.

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