AUTOCARRO a hidrogénio para transportar ar

OPINIÃO

16 junho 2022 | 15h51
Todos sabemos que a Câmara Municipal de Cascais tem uma visão muito peculiar das soluções de mobilidade para o concelho. Depois do veículo autónomo e das bicicletas partilhadas, em que centenas de milhares de euros dos munícipes se vão rapidamente transformando em ferrugem, eis que a autarquia lança mais um meio de transporte “inovador”, o autocarro a hidrogénio.

Não importa que o concelho não tenha infraestruturas para fornecimento de hidrogénio  para estes veículos, e que por isso a Cascais Próxima já tenha gasto perto de 1 milhão de euros em contratos relacionados com o fornecimento de hidrogénio e manutenção destes veículos, nem que a Câmara Municipal de Cascais nunca tenha apresentado qualquer estudo ou análise da viabilidade económica destas despesas (que o executivo autárquico designa eufemisticamente como “investimentos”), nem que o M43 e o M44 (as linhas municipais onde são utilizados os autocarros a hidrogénio, a primeira que liga o largo da estação de Cascais ao Guincho, e a segunda que liga o largo da estação de Cascais à barragem do Rio da Mula) circulem praticamente vazios durante as viagens que efetuam diariamente.

O que verdadeiramente importa é a propaganda política e mediática que advém de mais um brinquedo de luxo pago por todos os nós e da ilusão de que em Cascais a mobilidade é sustentável (o M43 e o M44 causam muito provavelmente mais poluição por via do congestionamento que causam do que o benefício de transportarem poucos ou nenhum passageiro em cada viagem). Na realidade estes veículos a hidrogénio servem para transportar o motorista, ar no seu interior, e fazer publicidade ao executivo autárquico (interior, que quase ninguém vê, e exterior). Transportar passageiros é que não parece ser o objetivo destas linhas.

Ao mesmo tempo, e já não contando com o custo (atual e futuro) para os munícipes do litígio em tribunal contra a Scotturb, multiplicam-se as situações de mau serviço na rede municipal: autocarros que não param nas respetivas paragens, que circulam com enormes atrasos, ou que simplesmente são suprimidos, facto confirmado pelo número de reclamações efetuadas pelos utentes.

O serviço atual de transporte rodoviário de passageiros em Cascais tem cerca de 20 reclamações / semana, num universo de cerca de 210.000 passageiros / semana (fonte: intervenção do vereador Miguel Pinto Luz na reunião da Assembleia Municipal de Cascais a 30 de maio de 2022, ao minuto 81, defendendo a qualidade do serviço em Cascais...), ou seja, aproximadamente 95 reclamações / milhão de passageiros. Por comparação, a Carris em 2019 teve uma média de 34 reclamações / milhão de passageiros (dados obtidos do relatório de contas da Carris de 2019) e a Scotturb (em toda a rede de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra) em 2019 teve 39 reclamações / milhão de passageiros (dados obtidos do Relatório nº11/TML/2021, Transportes Metropolitanos de Lisboa). O “novo” serviço de autocarros em Cascais tem quase 3x mais reclamações por passageiro que o centenário serviço da Carris, e mais do dobro que o tão vilipendiado serviço da Scotturb.

Pessoalmente tenho muitas dúvidas que seja possível obter, no curto prazo, melhorias significativas na qualidade do serviço de autocarros por que a causa do mau serviço está, em grande parte, fora do controlo do operador, seja ele qual for. O mau serviço é fruto de fatores que se têm agravado consideravelmente nos últimos anos, mais especificamente a imprevisibilidade da circulação viária em Cascais que torna os horários difíceis de cumprir. Há maior congestionamento, e simultaneamente não há vias dedicadas ao transporte público, nem é possível separar o transporte público, através de faixas próprias, do restante tráfego na maior parte das estradas do concelho por insuficiência da largura das mesmas. Mas temos também mais obras um pouco por todo lado, temos a via em mau estado em muitos locais e temos semaforização ineficiente, entre outros motivos. Nada disto se vai conseguir alterar no curto prazo.

Num executivo autárquico sem visão estratégica, sem planeamento de longo prazo, mas com o único objetivo de fazer propaganda política, este estado de coisas na mobilidade não se vai alterar. Assim como não se vai alterar o facto de que a fatura de todos estes “investimentos” na mobilidade vai, infelizmente e inevitavelmente, continuar a ser paga por todos nós.

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*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24H



 


5 comentários:

Anónimo disse...

Vai andar tu, ao menos assim não vai vazio

Deolinda . disse...

Uma cidadã com setenta e cinco anos , sstece uma hora e trinta,a espera do autocarro que M31 e que não chegou, no horário previsto. Os que estavam na paragem afirmaram ser normal os atrasos.O motorista avisou todos que seria ainda pior, porque muitos estavam a deixar a empresa ....

Anónimo disse...

Pode ser que neste autocarro a hidrogênio passem fatura. Já que nos outros todos não passam!

Anónimo disse...

O que se faz para ganhar votos…
Como sempre, os munícipes (alguns, leia-se) vão pagar a factura…
Ou seja , custas de tribunal depois da Scotturb ter ganho o processo, despesas com os actuais autocarros, motoristas, etc. etc.
Deviam investir em lavandarias, pois a fazer lavagem de dinheiro são competentes (à atenção da PJ)

Fico-me por aqui, a lista é muito longa e há sítios próprios para se provarem os argumentos

Anónimo disse...

A PJ anda a dormir

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