Autocarro atrasado, outra vez...

OPINIÃO

09 outubro 2022 | 16h10
Desde pequeno tenho sido um utilizador de transportes públicos, aqui em Cascais e noutras cidades, seja o autocarro, o metro ou o comboio. Os transportes públicos têm a grande vantagem de serem mais baratos que a viatura própria, de permitirem aproveitar o tempo para estudar, trabalhar ou apreciar a paisagem natural ou a natureza humana, para crianças e jovens são uma forma de independência e mobilidade e, refletindo as preocupações dos nossos tempos, são ambientalmente mais sustentáveis.

Entre 1978 e 1991, enquanto residente em Cascais e estudante, usei o autocarro praticamente todos os dias para me deslocar para a escola preparatória, depois para a escola secundária e depois para a estação do comboio para ir para Lisboa, nas linhas que são hoje, aproximadamente, o M09 e o M04. Nesses 17 anos não me lembro de alguma vez ter chegado atrasado a algum lado por que o autocarro não passou ou se tinha atrasado (coisa diferente eram as greves que ocorriam com alguma frequência).

Mas neste ano de 2022 abandonei definitivamente o uso do autocarro como meio de transporte em Cascais. A viatura própria tornou-se o meio de transporte principal e o autocarro apenas utilizado em para situações muito esporádicas.

Os novos autocarros que circulam em Cascais são confortáveis e modernos, mas os atrasos constantes e horários limitados a certas horas do dia não se coadunam com as exigências de pontualidade e de uso eficiente do tempo.

Pela madrugada e início da manhã os autocarros que servem a zona onde hoje moro (M05/M15) circulam com alguma pontualidade, mas mesmo assim é impossível chegar a certas zonas de Lisboa (Parque das Nações, Santa Apolónia, Saldanha) antes das 08h00.

Esta pontualidade vai desaparecendo durante o dia. Não é incomum circularem com 15-20 minutos de atraso, ou não circularem de todo. Agendar compromissos ou planear o transbordo de/para o comboio torna-se impossível a menos que se considere uma grande folga de tempo, incompatível com o tempo limitado que todos temos. O regresso a casa a partir de uma certa hora é impossível pois a última circulação parte do terminal rodoviário de Cascais às 20h35 em dias úteis. No fim de semana os horários são ainda mais limitados.

A Autoridade de Transportes de Cascais publicou recentemente o Relatório de Desempenho de 2021 referente ao transporte público rodoviário no concelho. Em relação a atrasos, não há dados disponíveis pois não foi fornecida atempadamente a informação necessária por parte dos 3 operadores (ScottUrb, Martín, Cascais Próxima) para a determinação dos índices de pontualidade. A Cascais Próxima, que pertence à Câmara Municipal de Cascais, não fornece os dados à própria Autoridade de Transportes de Cascais...

Já o número de circulações canceladas dá uma boa indicação do problema. Nas linhas operadas pelo novo operador, Martín, da M01 à M36, do total das circulações totais previstas em 2021 cerca de 6,5% não se realizaram. A situação foi particularmente má nas linhas M04 e M35 onde mais de 10% das circulações previstas não se realizaram. Os números para as linhas operadas pela Cascais Próxima, da M37 à M44, são ainda mais desanimadores, onde mais de 33% das circulações previstas não se realizaram.

Se é verdade que estes números podem refletir as dificuldades habituais no lançamento de um novo serviço, também é verdade que em 2021 as restrições da pandemia ainda se traduziam por menor tráfego de passageiros e menor congestionamento nas vias do concelho, situação que, entretanto, deixou de existir e que só irá dificultar ainda mais a fiabilidade do serviço.

Como eu, muitos munícipes que tenham a hipótese de escolha, vão gradualmente abandonando o transporte público, optando pela viatura própria, apesar de pagarem pelo serviço “gratuito” mais de 12 milhões de euros por ano.

A falta de mobilidade é hoje um grave problema estrutural no concelho, fruto de décadas sem visão estratégica e planeamento a longo prazo. Infelizmente só se vai agravar no futuro próximo.

*MIGUEL BARROS é o Coordenador do Núcleo Territorial de Cascais da INICIATIVA LIBERAL (IL)

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*Os artigos de opinião publicados são da inteira responsabilidade dos seus autores e não exprimem, necessariamente, o ponto de vista de Cascais24Horas



4 comentários:

Da Serra disse...

Raelmente os horários não são cumpridos, e em alguns caosos, até reduzidos, como o M27, antigo BusCas.

Rui Miguel disse...

Eu como utilizador da M31 que sai da estação de carcavelos/hospital de cascais muitas vezes os mesmos não se realizam ou vêm atrasados por vezes chego atrasado ao meu local de trabalho!

Paul disse...

Concordo com a critica.
E obvio que o servicio esta deteriorar rapido.
Apesar dos atrasos, muitos funcionalidades, como GPS posicao ou WiFi, deixam de funcionar.
Em conjunto com desastroso Mobicascais app o transporte público fica irritante.

Anónimo disse...

Já se passou o tempo de "lançamento" do serviço. A oferta para quem queira circular longitudinalmente pelo interior do concelho (por ex. São Domingos de Rana-Cascais) continua a ser miserável. Linhas que fazem parte deste percurso são, como a M24, são pouco fiáveis, mesmo fora de horas de ponta ou, como a muito frequentada M22, têm cadências pouco razoáveis!

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