Oito Anos Já Dá Para Ver

                                                                         06 MARÇO 2019
Passaram na semana passada oito anos que Carlos Carreiras assumiu a presidência da Câmara de Cascais, em virtude de António Capucho se ter afastado a meio do seu terceiro mandato por motivos de saúde.

A coligação aproveitou a ocasião para manifestar contentamento com os sucessos alcançados neste tempo, realçando a instalação dos mestrados da Universidade Nova em Carcavelos e o enorme incremento do turismo. Nada fala, naturalmente, do descontrolo na especulação imobiliária que voltou a atingir Cascais nos últimos anos.

Mas serão estes feitos apresentados efetivamente sucessos ou, pelo contrário, é pouca obra para oito anos de gestão?

Comecemos pela Universidade. Sim, é um sucesso sem dúvida. No entanto, este é um investimento totalmente autónomo da Câmara. O município limitou-se a apoiar a ideia e, mesmo assim, arranjou uma trapalhada pelo meio.

Na verdade, a iniciativa não foi da Câmara, o investimento não foi da Câmara, o equipamento não é da Câmara e nem tampouco existe nenhum fator preferencial de admissão para os estudantes de Cascais, como seria plausível se estivéssemos perante um investimento municipal. Apenas aconteceu que, perante a vontade manifestada pela Universidade de se instalar perto de Carcavelos, vontade a que não terá sido alheio um estudo existente que revela que mais de metade dos alunos das escolas superiores na Europa gostaria de praticar surf, o município disponibilizou um terreno para o efeito. Como qualquer executivo municipal teria a obrigação de fazer. 

Ou melhor, talvez outro executivo tivesse optado pela compra do terreno por valor de mercado, como a lei indica, e não por uma expropriação administrativa por um preço irrisório. Este procedimento adotado pela autarquia deu origem a um processo em tribunal que não sabemos quanto tempo vai demorar nem quanto dinheiro vai custar aos contribuintes.

Bom, mas temos o Turismo, este sim um sucesso da autarquia. Afinal, a Câmara investe 8 milhões de euros em eventos por ano com a justificação de promover a atração turística do concelho.

Comparemos então com o resto do país.
De 2011 a 2017, último ano dos dados disponíveis no INE, o turismo em Cascais subiu 400 mil dormidas anuais. Passamos de 1.190.000 dormidas em 2011 para 1.590.000 em 2017, um incremento de 33.6%.
Em Portugal, no mesmo período, passamos de 39.440.000 para 65.380.000 dormidas, mais 25 milhões de turistas a dormir, em números aproximados, representando um incremento total de 65.7%.

Ou seja, enquanto Portugal alcançava a marca de 65% de crescimento do turismo em seis anos, Cascais não ia além dos 33% de aumento no mesmo período. O país via o turismo a crescer a uma marca extraordinária superior a 10% ao ano, ajudando na recuperação económica e na saída da crise, enquanto Cascais se limitava a metade desse crescimento, perdendo o comboio do grande incremento turístico verificado nos últimos anos.
Neste campo, ficámo-nos pelo acolhimento das excursões diárias dos turistas que se instalam em Lisboa e em oito horas visitam Cascais, Sintra e o Cabo da Roca. Enchem as ruas, mas não dormem e gastam pouco dinheiro. De resto, os oito milhões de euros investidos anualmente pela autarquia nos eventos são totalmente inúteis para este turismo que aqui passa de forma fugaz.

Resta-nos a comparação com os mandatos anteriores: Os primeiros oito anos de Carreiras versus os primeiros oito anos de António Capucho e de José Luís Judas.

Com Carreiras tivemos a Nova, que é investimento privado, e o turismo, que afinal não foi assim tão bom apesar de nunca se ter investido tanto dinheiro.



Com António Capucho, nos primeiros oito anos, tivemos o novo hospital, os centros de saúde de Alcabideche, Estoril e São Domingos de Rana, a Casa Paula Rego e a conclusão do programa de realojamento que eliminou as barracas. No desporto, permitam-me que chame um pouco a brasa à minha sardinha, foram feitos os pavilhões desportivos do Dramático, da Quinta dos Lombos e do Sassoeiros, bem como as piscinas municipais da Abóboda. A par disto, foi colocado um travão na especulação imobiliária que assolava o concelho desde os anos oitenta, contrariando-se a ideia que as licenças de construção eram fundamentais para assegurar a capacidade de investimento da Câmara.

Recuando ao tempo de José Luís Judas (1993/2001) verificamos que a atual vereação também fica a perder: Nos oito anos do socialista independente à frente da autarquia, foram feitos o centro de congressos do Estoril, a Marina, a ciclovia do Guincho, a circular de Alcabideche, iniciou-se a recuperação dos bairros clandestinos e dado um impulso decisivo na eliminação das barracas no concelho. No entanto, tal como agora, os patos bravos do concelho tinham rédea solta para fazerem praticamente o que quisessem, desde que compensassem a Câmara com obra pública.

Comparando os três últimos mandatos autárquicos, o de Carlos Careiras foi o que realizou menos investimento em necessidades públicas e, a par com o de José Luís Judas, o mais permissivo à especulação imobiliária.

É admirável como a atual vereação se vangloria do trabalho feito, quando tão pouco foi executado e tantas necessidades ficaram por resolver  a nível da mobilidade, do arranjo dos espaços públicos, do desenvolvimento económico ou do ambiente, apenas para falar das questões mais prementes.

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