Pró que lhe havia de dar: camionetes em vez do comboio

Opinião

                                                                                      11 AGOSTO 2018


Há quinze dias atrás, o presidente da Câmara Municipal de Cascais (CMC) fez um violento ataque contra o Governo e a maioria parlamentar que o apoia a pretexto da linha de comboio  de Cascais. 

Num artigo onde começa por decretar que «a Linha de Cascais morreu. Caiu aos pés de um governo socialista apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda (…) Essa vergonha tem caras e tem cores. Tem a cara de Pedro Marques (…)», Carlos Carreiras proclama que «não há mais tempo a perder: temos de lançar o BRT (bus rapid transit) em dois eixos: na A5, em faixa dedicada; e no atual espaço canal da linha da CP, que deve ser passado para a gestão das autarquias».

Posteriormente, o CDS retomou este tema e o grupo parlamentar do PSD também.

Tratando-se  de uma questão que tem grande interesse social e manifesta projeção política esperei, até agora, que os responsáveis locais do PS esclarecessem esta matéria  o que, certamente por razões muito compreensíveis, não puderam fazer. Creio que apenas o vereador Clemente Alves, da CDU, comentou, através do facebook, este assunto chamando a atenção para os eventuais intentos de especulação imobiliária existentes por detrás do proposto BRT.

A Linha de Cascais é demasiado importante para que o tema fique à mercê da falsificação de factos e da habitual manipulação mediática tão do agrado da maioria da CMC. O referido artigo, que teve repercussão em quase todos os órgãos de comunicação nacionais, pretendeu  levar os cidadãos a acreditar que (i) o atual Governo fez um ataque fatal à ferrovia cascalense e esta deixou de ter futuro, (ii) face à atual situação a única solução é permitir que a Câmara de Cascais  substitua o comboio por camionetes e (iii) o presidente da Câmara, Carlos Carreiras, está preocupado com esta questão e disposto a prestar um serviço aos cascalenses.

Não sendo nenhum destes três pressupostos verdadeiro justifica-se analisar objetivamente alguma da informação disponível sobre o assunto.

A deterioração da Linha

O motivo próximo do alarido foi o facto de a CP ter alterado, entre 5 de agosto e 9 de setembro,  o horário dos comboios nas horas de ponta  passando estes a circular de 15 em 15 minutos em vez da anterior frequência de 12 em 12 minutos.  O ministro Pedro Marques, que tutela os transportes, considerou tratar-se de uma modificação «ligeira» e habitual no Verão a qual não visa alterar o funcionamento normal da Linha e que vigorará apenas durante este mês.

Tudo leva a crer que esta medida tenha pouco significado no contexto do ocorrido na Linha nos últimos anos.

Na verdade circulam atualmente na ferrovia do Estoril, nos dias úteis, menos 94 comboios do que em 2002. Acresce a este número o corte, em 2011, de 70 comboios que reforçavam o horário de Verão da CP entre Lisboa e Cascais.

Recorde-se que em janeiro de 2015 a CP propôs-se suprimir 51 comboios e, na ocasião, Carlos Carreiras considerou ter obtido uma importante vitória junto do Secretário de Estado do PSD porque "apenas" foram, então, suprimidos 47 comboios. 

A CP repetidas vezes invocou a diminuição no número de utentes da Linha para justificar a supressão de comboios. Todavia esse argumento não se comprova e, pelo contrário, tem havido um aumento na procura que, no ano passado, significou 24 milhões de passageiros com um crescimento de 2% face ao ano anterior.

A diminuição do número de comboios deve-se à efetiva deterioração que há várias décadas afeta a Linha sobretudo após a privatização e ulterior desmantelamento da SOREFAME (Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas).

Esse processo de degradação tem causas conhecidas. A mais próxima é a carência de trabalhadores na EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário) para garantir a reparação dos comboios a par da falta de verba para a compra de peças. A causa fundamental é a ausência de uma estratégia e dos respetivos investimentos indispensáveis para cuidar e valorizar esta ferrovia.

Face ao que as estruturas representativas dos trabalhadores têm considerado ser «a redução da EMEF à sua ínfima capacidade» e a «privatização parcial da empresa» o ministro da tutela anunciou, no passado dia 27 de Julho, «a contratação de mais 102 pessoas para a manutenção do material ferroviário». Talvez este seja um passo para inverter um dos dados do problema.

Quanto à estratégia e investimentos adequados à preservação e desenvolvimento da Linha os factos são mais ou menos conhecidos.

Salvar a ferrovia ou substitui-la por camionetes

Desde há pelo menos 30 anos que o assunto é debatido. Em termos gerais parece haver duas perspetivas: uma que defende a integração da Linha do Estoril na Rede Geral com a construção de um nó em Alcântara bem como a adaptação da estação de Campolide e uma outra que privilegia a articulação com o sistema de mobilidade urbana da Área Metropolitana de Lisboa (AML) valorizando a ligação comboio-metro no Cais do Sodré.

A primeira opção implicaria um investimento de cerca de 640 milhões de euros enquanto a segunda bastar-se-ia com cerca de 35 Milhões segundo a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento do Transporte Ferroviário e Sistemas Integrados de Transportes  (ADFERSIT).

Concomitantemente, o atual presidente da Câmara Municipal de Oeiras chamou a tenção que«tem de haver uma visão de conjunto para toda a região de Lisboa sendo relevante, para que isso ocorra, o desempenho da AML» quando, ao contrário, o que «tem sucedido é cada município por si».

Carlos Carreiras teve, neste domínio, um papel grave.  Em Fevereiro de 2016 os municípios de Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Lisboa, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Sintra e Vila Franca de Xira assumiram conjuntamente delegar na AML o planeamento e gestão dos transportes. 

Cascais foi o único município que ficou fora deste acordo tendo Carlos Carreiras, em Abril de 2016, preferido transferir para a Empresa Cascais Próxima as funções de autoridade municipal de transportes. Todos os vereadores que, nesse mandato, representavam o PS e a CDU bateram-se insistentemente contra esta opção mas, como de costume, o PSD/CDS impôs a sua vontade. Nascia assim, a tempo das eleições autárquicas, o mediático "Mobi Cascais" mas o município passou a ficar isolado e enfraquecido no debate sobre os transportes na região.

Quanto aos investimentos para a Linha o presidente da Câmara de Cascais refere, no artigo em causa, que em 2015 negociou com «o governo do PSD e do CDS (…) 135 milhões  vindos do Orçamento de Estado e de fundos europeus para a remodelação da linha» a qual seria simultaneamente concessionada a empresas privadas que se comprometessem com  «124 milhões para investimento em novo material circulante». Estaria assim desenhado, em nome da salvação da Linha, mais um excelente negócio para o monopólio da Barraqueiro.

Todavia, esqueceu-se o autor de referir que esse mesmo Governo PSD/CDS não incluiu no Programa de financiamento europeu as tais verbas 'negociadas' e que o investimento que fez na Linha foi de apenas 78.725 euros. Neste quadro o atual Governo viu-se perante a necessidade de renegociar os fundos comunitários, para investimento na Linha do Estoril, logrando com isso obter um montante de 50 milhões de euros  enquanto, simultaneamente, investiu em infraestrutura e material circulante da Linha, em 2016 e 2017, mais de 7 milhões de euros (cerca de 100 vezes mais do que fizera o Governo de Passos Coelho).


Curiosamente, no próprio website que a maioria de direita camarária utiliza para propagandear as suas posições e as iniciativas da Câmara está escrito, desde 7 de março passado, que «a recente reprogramação de Fundos Comunitários disponibilizou cerca de 50 milhões de euros para a Linha de Cascais (…)» o que , «permite modernizar a Linha de Cascais (…) melhorar o serviço, ter maior número de comboios, menos supressões, melhores acessibilidades, melhor cumprimento de horários. Em suma, acrescenta modernizar a Linha de Cascais e resolver um problema que dura há quase 30 anos e que vê constantemente adiada uma tomada de decisão.» (https://www.cascais.pt/noticia/solucao-da-linha-de-cascais-tem-verbas-disponiveis-diz-associacao-de-ferrovia).

Assim sendo que sentido tem hoje defender a extinção da Linha de comboio do Estoril e a sua substituição por camionetas a que é dado o nome pomposo de "bus rapid transit"? A ferrovia é uma solução melhor, mais cómoda, mais rápida, mais segura, mais económica e mais amiga do ambiente. Substituir o canal da linha por uma estrada é uma hipótese que , pelo seu absurdo, nem parece dever ser tida como minimamente séria.

Mas o presidente da Câmara mesmo sabendo, tal como está caracterizado no "seu" próprio website, que houve mais progressos nos últimos dois anos para a superação dos problemas da Linha do que nas três décadas anteriores veio alarmisticamente declarar a morte da ferrovia cascalense e reivindicar para a Câmara o poder de substitui-la por camionetes.

Que razões estão por detrás de tão incompreensível atuação ?

Um 'estilo' a qualquer custo

Aqui chegados impõe-se uma nota de caracter mais particular.  A minha oposição ao atual presidente da Câmara de Cascais tem sido assumida de forma pública numa perspetiva sistémica e persistente. Mas é um antagonismo de opiniões e de opções no campo político e nada tem de pessoal nem nunca se propôs resvalar para o terreno da chicana ou da exploração  de 'casos' mais ou menos fulanizáveis. Reconheço até, em Carlos Carreiras, uma considerável determinação e uma valorizável capacidade operacional.

Acontece, todavia, que o presidente da Câmara comete, na ação política, o mesmo  erro que afeta muitos outros quadros partidários. Valoriza mais a "imagem" e as consequências que esta tem para o seu usufruto do poder do que a realidade tal como ela existe e se reflete nas condições humanas e sociais. 

Creio que é por isso que, provavelmente até com convicção, é useiro em reinterpretar a verdade dos factos conforme as suas necessidades conjunturais de projeção mediática. 

Compreendo o  vereador Clemente Alves quando receia que por detrás da pretendida reconversão da Linha estejam possíveis interesses de especulação imobiliária mas, por ora, prefiro interpretar a mais recente diatribe de Carlos Carreiras à luz daquele que é o seu 'estilo' de fazer política.

Recorde-se que, nos meses mais recentes, Rui Rio tem procurado afirmar-se com um perfil de maleabilidade e de fácil entendimento com António Costa. Tem com isso projetado do PSD uma imagem de constante 'namoro' ao PS o que, de todo, não interessa a Carlos Carreiras que integra a corrente dos que acreditam que uma via populista para o PSD  permitirá constituírem-se como alternância viável ao PS.

O ex-vice presidente do PSD precisava portanto, nesta ocasião, de evidenciar a sua imagem de 'feroz' opositor ao Governo e, sobretudo, à maioria de esquerda que o apoia. A diminuição de três minutos na frequência dos comboios na, há muito, debilitada Linha do Estoril constitui-se, assim, como um pretexto suficiente para mandar o Governo ter vergonha por ser «carrasco da ferrovia nacional» e para acusar comunistas e bloquistas de sabotadores quais «raposas a guardar o galinheiro». 

Não se trata, como referimos antes, que o presidente da Câmara ignore que a situação da Linha está hoje um pouco melhor e com possibilidades reais de evoluir positivamente nos próximos anos. Trata-se, isso sim, de afirmar e projetar, como lhe interessa, uma sua imagem contrastante com a de Rui Rio e ganhar espaço no PSD para futuros rearranjos de poder.


Mas houve, certamente, outras razões que contribuíram para este ataque violento a pretexto da ferrovia cascalense. 

Desde logo o óbvio falhanço do "Mobi Cascais" que, apesar de custar alguns Milhões aos contribuintes cascalenses e ser propagandeado com delírios de imaginação, em nada tem contribuído para melhorar a mobilidade concelhia e regional. Os cascalenses sentem no seu dia a dia que  o transito nas estradas de Cascais e nos acessos à Capital está cada vez pior. Justifica-se então, para salvaguarda da ambicionada imagem de Carlos Carreiras como um notável empreendedor, dramatizar os problemas da linha ferroviária procurando com isso ocultar o Mobi flop.

Entretanto Cascais, como referido antes , remeteu-se ao isolamento regional no plano dos transportes. Enquanto outros concelhos, nomeadamente Oeiras e Sintra, debatem soluções e propõem a construção de novas vias alternativas à A5 e a requalificação da Marginal, Carlos Carreiras não pode apresentar qualquer outro plano que não seja este disparate de querer para si a gestão da Linha com vista a substituí-la por camionetes. É absurdo mas serve para alimentar a imagem de um 'líder' determinado e com visão prospetiva.

Finalmente, mesmo que a proposta em si não tenha pés para andar, sempre fica a imagem de um presidente camarário que se preocupa com o quotidiano do munícipes e que se bate vigorosamente pelos interesses comunitários. Não é verdade mas parece e para Carlos Carreiras, em política, vale mais parecer do que ser.

É esse o 'estilo' que se lhe conhece e que desta vez o levou a bradar pelo óbito da Linha. 

Deu-lhe para ali. Podia ter sido pior.


Imprimir

3 comentários:

Da Serra disse...

Carreiras = Camionetes... está-se mesmo a ver!
A A5 já é o que é nas horas de ponta e não só. Agora dedicar uma faixa ao Carreiras, perdão, às camionetes de carreira... realmente é uma verdadeira ideia de jerico!
É evidente que a oposição PSD/CDS, que NUNCA teve no Governo e não sabe o que isso é, manda estes bitaites cá para fora...
Ora se fossem dar banho ao cão, por causa do calor...

Anónimo disse...

Não percebo a conclusão.
Como será possível "dar para pior"? - Não, não é possível "dar para pior". Este é o pior autarca de sempre em Cascais e possivelmente de todo o país.
Não, não "podia dar para pior".
Chega de ser politicamente correcto e lavar uma mão com a outra.
Não, "não podia dar para pior". Um texto com esta seriedade, com estas declarações que apontam para uma grave gestão e prepotência, não pode nem deve acabar com humor.
Não, "não podia dar para pior".
Lembro que este é o município mais caro do país para as suas famílias e empresários, é o segundo concelho com maior poluição do país e é o concelho que apenas pensa construir cimento em contra-circulo ... Mundial.
Não, não lhe "podia dar para pior".

Anónimo disse...

Este senhor Presidente faz-me lembrar, o Presidente
Donald Trump