Shoppings, lojas de souvenirs e hamburgers - e o comércio tradicional de Cascais?

Opinião




As aldeias, vilas, cidades e países são o reflexo das gentes que as habitam, tal como estas gentes são, simultaneamente, o fruto e o reflexo dos próprios lugares.

Este reflexo é o resultado do passar do tempo sobre os lugares, da preservação de espaços, de memórias, da natureza que nesses lugares existem, surgem ou se preservam.

É verdade que, num mundo globalizado, a identidade ou a especificidade dos lugares e das pessoas se tende a desvanecer, passando a imperar uma espécie de “fast food” em que pessoas (com os seus modos de ser, de vestir e de se comportar), edifícios e atividades são totalmente indiferenciadas: nesses casos, estar em Cascais, Boston, Pequim ou Berlin passa a ser quase idêntico. E, contudo, simultaneamente, o que as pessoas mais desejam é a procura daquilo que é único, autêntico ou diferente. Daí que, com a crescente uniformização, se assista também ao aumento das viagens para destinos exóticos, históricos ou à descoberta de lugares que mantêm uma personalidade específica, que os distingue daquele “fast food” cultural e arquitetónico. É esse exotismo ou especificidade que, depois, se traduzem em fatores de desenvolvimento cultural, económico e turístico.

As localidades, contudo, podem descaracterizar-se; podem perder vida e tornar-se apenas locais despidos de alma, desinteressantes e indiferenciados. Se num local passam apenas a existir lojas idênticas às de uma infinidade de outros locais, que sentido faz deslocar-se ao primeiro? Se as marcas são as mesmas, se o ambiente é o mesmo, se os prédios são iguais, se os produtos não se distinguem… Este tipo de localidades (tal como os “shopping centres”) rapidamente entra em decadência (por passar de moda e por ser igual a tantos outras), o que traz consigo problemas adicionais, relacionados com a insegurança e o crime, que tendem a ocupar os espaços progressivamente abandonados. Basta ver o exemplo de tantos “shoppings” e “galerias comerciais” que fizeram furor nos anos 80 e 90 e estão ao abandono. É, por isso, essencial não deixar que isso aconteça, promovendo políticas e incentivando ao máximo aquilo que, sendo único, pode fazer a diferença e constituir um fator de identificação com a história local e um fator permanente de atração. Esta é também uma forma de homenagear e reconhecer a importância que esses estabelecimentos tiveram e têm na criação de empregos estáveis, na imagem e história dos costumes e na sua vida quotidiana, conferindo caráter e autenticidade às localidades e que as tornam únicas e atraentes. 

Em junho de 2017 foi publicada legislação que apoia e promove as lojas históricas, o comércio tradicional e os estabelecimentos ou entidades de interesse histórico e cultural ou social local. Essa legislação prevê, nomeadamente, a proteção no arrendamento e também em caso de realização de obras nos edifícios e no acesso a programas municipais e nacionais de apoio. Cabe, no entanto, às Câmaras Municipais (e às Juntas de Freguesia) diligenciar no sentido de identificar e proteger aquele tipo de estabelecimentos, criando programas de apoio e regulamentos específicos de proteção e promoção para os mesmos e inscrevendo condicionantes às operações urbanísticas nas normas que regulam a gestão territorial. 

Em Lisboa e no Porto isto tem sido feito e já há mais de uma centena de negócios históricos identificados e classificados. A nível nacional está prevista a possibilidade de isenção de IMI para as lojas históricas e benefícios na tributação dos lucros.

Ao longo do tempo, a Costa do Estoril e Cascais adquiriram uma identidade própria, uma identidade que permite a Cascais apresentar-se como “Vila de Reis e de pescadores” e à Costa do Estoril ser vista como um destino de especial charme. Ora, se o concelho quer manter uma atratividade distinta da de um “shopping centre”, se quer preservar os traços da história e da cultura local e se quer garantir um desenvolvimento sustentável, tem que começar de imediato a proteger esses estabelecimentos importantes para a história local, com identidade própria, únicos em si mesmos, culturalmente distintos das lojas e das marcas das grandes superfícies, vivos na cultura local e nos hábitos e rituais do público.

É urgente, por isso, proteger de imediato estabelecimentos como a livraria Galileu, a sapataria Miss Della, a drogaria Cajoar, a Pérgola House, a Marelina, a pastelaria Ribeiro na Parede, o Superfrutas Almeida, os Bispos, o Cimas, o Eduardo das Conquilhas e tantos outros estabelecimentos que já têm mais de 25 anos e que continuam a ser os marcos que restam de um Cascais em risco de desaparecer para sempre debaixo da construção uniformizada que, mais e mais, se arrisca a tornar esta Vila uma “localidade “shopping centre””. 

A par da classificação desses estabelecimentos é essencial também impedir a descaracterização dos centros históricos onde muitas delas se situam, impondo limitações urbanísticas exigentes que preservem ao máximo a traça dos estabelecimentos, dos edifícios e das ruas desses centros, embelezando essas zonas, criando mecanismos que facilitem o estacionamento (por exemplo, permitindo o estacionamento gratuito durante duas horas) e desenvolvendo iniciativas e programas de incentivo em prol do comércio local e tradicional. Por outras palavras, é essencial agir para que Cascais não se torne uma loja de souvenirs de gosto duvidoso. 


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