Os recados do regedor da aldeia sem rio

Opinião




Um traço lastimável da política atual é o excesso de fulanização. Em vez de ideias, projetos e práticas discutem-se pessoas, promovem-se e dirimem-se os mediatismos pessoais.

Em Cascais, Carlos Carreiras erigiu-se ao centro do Mundo. Aqui, infelizmente, quase não nos é possível falar da vida pública sem referir a omnipresença do presidente camarário.

Em vésperas do Congresso do PSD Carlos Carreiras quis fazer-se ouvir. Foi à TVI24 marcar terreno e dar alguns recados.

É uma entrevista que vale a pena ver e refletir (aqui).

Como de costume, Carreiras constrói uma teia de ficções cuja ancoragem na realidade é muito ténue mas em que, convictamente, aparenta acreditar.

Na narrativa propagandística do autarca a 'sua' Câmara é um exemplo que todos admiram ("temos projetos que Municípios de outros países querem comprar"). Dir-se-ia, até, que pensa ser verdadeiro o seu discurso de que o PDM tem uma "estratégia de não expansão da malha urbana", que Cascais é um sucesso de mobilidade, que o concelho "foi pioneiro na Educação com excelentes resultados", que aqui se criam empregos com enorme competitividade ou que "as Conferências do Estoril são um exemplo a nível internacional".

Há que reconhecer que numa coisa Carlos Carreiras é notável: na construção de um imaginário que se impõe, não por ser verídico, antes por ser hábil e repetidamente propagandeado.

Mas o que é interessante neste seu recente desempenho televisivo é a incursão que faz na política nacional.

Não que tenha algo de novo ou de importante para propor, mas pelas mensagens sibilinas que quis comunicar ao PSD.

Como se sabe, a sua visão para o país é pobre e não vai além dos velhos lugares comuns. Se Portugal está a progredir (ainda que muito pouco, diz) isso deve-se, sobretudo, à política e à "honestidade intelectual" de Pedro Passos Coelho e, quanto ao futuro, basta seguir o receituário neoliberal ("é necessário menos Estado porque há um sufoco das empresas").

Todavia houve dois aspetos em que foi um pouco além das banalidades.

Um foi a acérrima defesa de que devem ser atribuídos mais poderes às Câmaras Municipais (coisa a que, erradamente, chama descentralização) indo ao ponto de explicitar que quer gerir os professores e o património. Nesta matéria fez um apelo matreiro a uma espécie de lobby de autarcas (sobretudo das grandes Câmaras porque as outras não podem querer o mesmo), com António Costa à cabeça e Marcelo como aliado, para dar combate ao que considera ser o bloqueio das esquerdas nesta matéria.

O outro foi a embaraçada defesa de que o PSD, preferencialmente ganhando as eleições, deve fazer pactos com o PS que garantam uma governação centrista por muitos anos. Nisso a única 'nuance' que o diferencia dos novos dirigentes do PSD é considerar que não vale a pena abordar o tema antes das eleições legislativas.

Mas o essencial da sua entrevista foi vir a público esclarecer que, nos próximos tempos, vai "ficar pela aldeia porque passar as portagens de S. Domingos de Rana só dá chatices" e, por cá, tem projetos que o "estão a realizar imenso e a divertir imenso".

Do varandim do seu palácio vai estar atento. Diz que, no PSD, "é uma exigência de todos ganharmos as eleições" mas que ele, Carlos Carreiras, não irá fazer ao novo líder o mesmo que Rui Rio e os seus apoiantes fizeram a Passos Coelho nos momentos difíceis.

O novo dirigente do PSD fica a saber que "se quiser dançar o tango" tem aqui em Cascais um parceiro disponível. Carreiras foi à televisão assegurar que tudo fará "para que não se prolongue este ambiente negativo de se estar a contestar o líder e a liderança com fundamentos que são inexistentes".

E, se a cenoura não funcionar fica insinuado o cacete: "por mim estou bem em Cascais. Cascais não tem rio, só mar"

Para bom entendedor…


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2 comentários:

Anónimo disse...

Excelente artigo sobre a liderança paroquial do concelho .
A demagogia atinge niveis inenarráveis , em que uma suposta e imaginária capacidade de diferenciação compete no âmbito ibérico e europeu.
A edilidade surge como um portador de serviços, cujo grau de falta de transparência é por demais conhecido, assim como a falta de excelência dos mesmos , que deveria ser proporcional aos impostos mais altos da area metropolitana de Lisboa ... basta verificar na loja de atendimento municipal a falta de impulso processual das reclamações , celeridade dos processos e a opacidade dos mesmos ,as 520 taxas existentes no municipio, e sobretudo ninguém conhece os quadros de pessoal, orçamentos , salários das Cascais Proxima , Envolvente , Ambiente e outras tantas, e qual a fronteira onde actuam umas e finalizam outras ... nada disto é gerador de confiança, para já não falar das subsidio dependências em artigos publicados pelo Vasco Graça em três edições .
Não podia esquecer os jovens qualificados , que no concelho ao lado, um autarca com vasta experiencia e liderança, sem grandes alaridos, trouxe para o concelho de Oeiras cerca de 500 empregos qualificados , e outros mais em Oeiras "Valley" ; por aqui a antiga Fábrica da Legrand em Carcavelos está em fase final de demolição , e quanto a investimentos nada se conhece , ao contrário daquilo que se apregoou na última semana antes das eleições autarquicas de 2017 .
Para finalizar e quanto ao bom ordenamento do território, todos ficámos a saber pelo jornal C dos tais mil milhões de investimento até 2025 ... qual o preço a pagar pelos municipes face à perca de qualidade de vida e insegurança ??? curiosamente nem uma silaba sobre este assunto pelo responsavel nº1 da segurança no concelho ...quanto à mobilidade existente nem vale a pena falar, porque toda a gente conhece não só nas horas de ponta , as dificuldades de entrar /sair do concelho ...talvez o Mobicascais com as bicletas resolvam o problema ...

Um última apreciação quanto se refere que Cascais tem um parque natural único ...de facto é partilhado com Sintra , e chama-se Parque Natural Sintra -Cascais .

A BEM DE CASCAIS

esteves,ayres disse...

Um tema que ninguém quer abordar!?

Nunca ninguém abordou o tema do voluntariado, que a CMC, tem vindo a defender ao longo dos anos.
Carlos Lavrador Carreiras e seus vereadores (PSD/CDS), são os principais responsáveis. Sabe-se, que cada vez mais as "instituições de solidariedade", se aproveitam do voluntariado para se desresponsabilizarem de um contrato de trabalho.
Qual tem sido o papel das sucessivas vereações da CMC, promovendo o voluntario o maior da chamada união europeia...