Para mudar o Mundo há que mudar a forma de nascer

Opinião

                                                                                        09 ABRIL 2018


“PAN mais Humano - A maternidade no século XXI”. Foi este o nome escolhido para a Moção Sectorial apresentada e aprovada por unanimidade no V Congresso do PAN, a 7 de Janeiro de 2017. Desde então, o PAN já apresentou várias medidas e recomendações ao Governo, tais como a disponibilização do parto na água no Serviço Nacional de Saúde, mais proteção na parentalidade e a implementação de medidas que assegurem o cumprimento dos direitos das mulheres na gravidez e no parto. Na mesma linha, foram levantadas questões ao Governo sobre as elevadas taxas de episiotomia em Portugal e sobre o incumprimento na assistência das e dos progenitores nas cesarianas. 

Nada pode ser mais transversal que o nascimento. Todos nascemos e a maternidade assume-se como um dos momentos mais marcantes na vida de uma mulher. Numa altura em que a sociedade e a medicina atingiram o grau elevado de modernidade, observamos uma maquinização dos partos - com uma consequente desumanização dos mesmos - e o estigma da maternidade para quem a escolhe. Este é mais um reflexo perverso de uma sociedade produtivista e desumanizada.

Devemos por isso caminhar para um parto cada vez mais humanizado. Mas afinal o que significa isto de Parto Humanizado? Significa dar toda atenção às necessidades da mulher e oferecer-lhe o controlo da situação na hora do nascimento, mostrando-lhe quais as suas opções de escolha baseadas na ciência e nos direitos que ela tem. Significa envolver o pai ou a outra mãe em todo o processo, permitindo que a parturiente se sinta sempre segura com os seus entes queridos. 

Mas o Parto Humanizado não está apenas ligado ao momento do nascimento do bebé, mas também a todo o processo de gestação, do nascimento e do pós-parto, recolocando a mulher e as suas necessidades no centro das atenções. No Parto Humanizado não existe um procedimento específico ou normas rígidas a serem adotadas, mas sim um respeito à individualidade da gestante, com todas as seguranças da medicina moderna. 

Não estou com isto a querer dizer que as mulheres não devem ter cuidados médicos, porque bem sei que os progressos da medicina moderna diminuíram fortemente a mortalidade nos recém-nascidos e isso é maravilhoso. Mas, não obstante este facto, são vários os relatos de gestantes que não puderam ver-se acompanhadas pelos entes queridos num momento tão especial como o parto. São também vários os casos em que não se sentiram seguras com as escolhas para o nascimento dos seus filhos e filhas ou com a ausência de informação que lhes deveria ter sido dada. 

Atualmente os partos acontecem em ambiente hospitalar e rodeados por especialistas: o médico obstetra, a enfermeira, o pediatra e cada qual com sua especialidade e preocupação técnica pertinente. No entanto, o cuidado com o bem-estar emocional da mãe acabou por ser descurado no ambiente impessoal dos hospitais, tendendo a aumentar o medo, a dor e a ansiedade. Consequentemente, aumentam as complicações obstétricas e necessidade de maiores intervenções médicas.

Portugal apresenta a maior taxa de cesariana da Europa, sendo a sua prática mais recorrente nos serviços de saúde privados. A orientação da grávida deve ser plena de possibilidades e informação. O mote "um consumidor informado é um consumidor consciente" também deve ser aplicado aqui. Saberão as mulheres que ao escolherem uma cesariana estão a aumentar os riscos para si (como a hemorragia interna e embolia) e que recentes estudos sugerem que o Microbioma tem o seu papel na prevenção de doenças e alergias? Privamos o sistema imunitário do bebé de perceber desde o primeiro instante a conviver com bactéria e isso tem implicações no seu sistema imunitário. 

Mais flagrante é o caso da “episiotomia", que é usada em 70% dos partos em Portugal, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) indica uma taxa média que não deverá exceder os 10%. 

Diminuem as parteiras no mundo e aumentam as intervenções médicas. O tecnológico em detrimento do biológico.

Podemos melhorar esta realidade: há medidas que podem ajudar a tornar os partos cada vez mais humanizados, reduzindo as intervenções médicas. Existem vários países que possuem Casas de Parto onde conseguem aproximar suficientemente o conforto do lar com a proximidade hospitalar de modo a que, se necessário, possa haver o devido tratamento. Nas casas de parto o ato de dar à luz é tratado como um processo natural que faz parte da vida da mulher e para o qual o corpo está preparado. O tratamento oferecido é centrado nas necessidades e na segurança da parturiente e do bebé, com acolhimento e mais respeito. Nestes locais são incentivadas a integração familiar em torno do nascimento, a amamentação e o vínculo de afeto entre mãe, pai ou outra mãe e o recém-nascido.

Não sendo possível numa primeira fase criar uma rede destas casas de parto, outros mecanismos como os planos de parto, o acesso a diferentes opções, a informação das vantagens e desvantagens de cada procedimento, a presença dos entes queridos ou mesmo da permanência de uma doula poderão preencher esta lacuna, garantindo a demanda de emoção e afeto neste momento de intensa importância e vulnerabilidade.

É o resgate de uma prática existente antes da institucionalização e medicalização da assistência ao parto, e que passa a ser incentivada agora pela Organização Mundial de Saúde que tem vindo a alertar para a importância da doula no parto. 

Mais uma vez: o que é isto de Doula? Esta é uma profissional que oferece apoio continuado a nível físico, emocional e informativo à mulher e ao casal durante a gravidez, o parto e o pós-parto. A doula não substitui os profissionais de saúde nem os pais ou mães, mas tem o seu papel no apoio à família. Os resultados deste apoio têm trazido revelações surpreendentes na redução das intervenções e complicações obstétricas, e fortalece o vínculo entre mãe e bebê no pós-parto. 

Não posso deixar de referir um assunto muito pouco abordado, mas muito polémico - a violência obstétrica ainda é uma realidade no nosso país. As queixas formais são quase inexistentes, em parte devido a vulnerabilidade das mulheres durante o parto e à drástica mudança das suas vidas com a chegada de um recém-nascido que requer toda a sua atenção num primeiro momento. Esta ausência de queixas também passa, possivelmente, pela desinformação e pela vulnerabilidade da gestante durante o parto. Mas há relatos de mulheres maltratadas durante o parto: desde violência verbal, passando pela prática de ato sem consentimento da mulher. 

Em 2014, a OMS publicou a declaração sobre “Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde”. Neste documento, a OMS admite a existência de “violência física, humilhação profunda e abusos verbais, procedimentos médicos coercivos ou não consentidos, falta de confidencialidade, não obtenção de consentimento esclarecido antes da realização de procedimentos, recusa em administrar analgésicos, graves violações da privacidade, cuidado negligente durante o parto levando a complicações evitáveis e situações ameaçadoras da vida”, entre outras.

A Organização Mundial de Saúde defende ainda que esta violência “ameaça o direito à vida, à saúde, à integridade física e à não-discriminação”. Para evitar e eliminar os maus-tratos durante o parto, a organização aconselha a melhorar a qualidade dos cuidados de saúde materna, dando “apoio social através de um acompanhante, mobilidade, acesso a alimentos e líquidos, confidencialidade, privacidade, escolha esclarecida, informações para as mulheres sobre os seus direitos, mecanismos de acesso à justiça em caso de violação dos direitos, e garantia dos melhores padrões da assistência clínica”.

A mais recente diretriz atualizada, abrangente e consolidada da OMS já de 2018 sobre os cuidados intraparto para uma experiência positiva de parto reúne recomendações novas e existentes da OMS que, quando tidas em consideração como um todo, garantirão cuidados de boa qualidade e baseados em evidências, independentemente da configuração ou nível de cuidados de saúde. “Destaca a importância dos cuidados centrados na mulher para otimizar a experiência do trabalho de parto e expulsão para as mulheres e seus bebês através de uma abordagem holística baseada em direitos humanos. Introduz um modelo global de cuidados intraparto, que toma em consideração a complexidade e natureza diversa dos modelos predominantes de cuidados e prática contemporânea. As recomendações desta orientação destinam-se a informar o desenvolvimento de políticas e protocolos clínicos relevantes a nível nacional e local”.

Poderemos especular quantas depressões pós-parto poderiam ser evitadas se a experiência de dar à luz não fosse traumática, ou se determinado acontecimento poderá ter deixado marcas no recém-nascido e que impactos poderá deixar no futuro, mas uma coisa é certa se queremos um mundo mais pacífico temos de começar por ter nascimentos pacíficos.

Termino com uma citação das e dos proponentes do inquérito Experiências de Parto em Portugal" levada a cabo pela Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP) e apresentada no evento “Nascer em Amor”, que decorreu em 2017 em Cascais e a quem muito agradeço todo o trabalho desenvolvido nesta área em prol de todas e todos nós:



Imprimir

Sem comentários: