Interesses – o caso da Costa da Guia (Parte2)

Opinião




Na semana passada escrevi um artigo antecipando aquilo que previa ser a sessão pública de apresentação do projeto da Associação Chabad para a Costa da Guia que o Presidente da CMC iria realizar na quinta-feira, dia 22 de fevereiro, na Casa das Histórias Paula Rêgo.

Conhecido o teor da apresentação, direi apenas que pequei por defeito! Mas aquilo que mais chocou quem não se revê nas posições e nos métodos da CMC (e são cada vez mais!) foram três aspetos referidos pelo Presidente da Câmara: a sua já longa proximidade à Chabad; o ser a Associação Chabad “a maior e mais dinâmica organização judaica a nível mundial” e o de este projeto atrair “investimentos”. 

Ora, se o primeiro aspeto até pode ser considerado de índole íntima, pessoal ou confessional, os outros dois dão que pensar e reforçam a suspeita de que na cedência do direito de superfície sobre c. 5.000 m2 por 744€/mês por 50 anos renováveis terá estado em causa, afinal, de um tratamento de favor motivado por razões que nada têm a ver com o acolhimento de outras religiões, a tolerância, etc.. Com efeito, por que precisaria “a maior e mais dinâmica organização judaica a nível mundial” de lhe ver “oferecido” um terreno numa das áreas nobres de Cascais – cedida ao Município a título de compensação e destinada a um equipamento público – para a construção de um local de ensino e de culto? Não terá essa “maior e mais poderosa organização judaica a nível mundial” posses para adquirir um terreno? Porquê, então, ceder um terreno público em prejuízo de toda a população e num espaço reclamado há décadas pelos moradores para espaço verde? E que investimentos são esses que ninguém conhece? Constituirá isto mais uma cedência à política do betão e do imobiliário que inunda o concelho?

E o que dizer do valor matricial do terreno? É que, estranhamente, o terreno em questão tinha, em julho de 2016, à data da deliberação da CMC, um valor tributário de € 2.232.410,00 (avaliação de 2013), tendo a área do terreno sido revista (para 4.969 m2) mas praticamente mantido inalterado o valor tributário do metro quadrado (€ 392,00/m2) em dezembro de 2016! Como se explica a manutenção deste valor quando é público e notório que em 2016 o imobiliário já estava em alta acentuada, que o valor comercial de um terreno com esta localização é muito superior e que o uso que iria ser dado ao terreno já era conhecido e era privado e não público? O que justifica um benefício com este valor económico dado pela CMC a esta Associação?

Na ocasião, o Presidente da CMC disse também que seriam plantadas inúmeras árvores. Mas, por um lado, essas árvores serão plantadas pelo Município (ou seja, pelos nossos impostos) noutros locais da Costa da Guia (em que até é discutível a vantagem da sua plantação…) e, por outro lado, a plantação de novas árvores não substitui as árvores cortadas, designadamente porque os efeitos benéficos para o ambiente de árvores adultas são consideravelmente superiores aos de árvores muito jovens.

O Presidente da CMC referiu também que a edificação só ocupará c. 1.000 m2, esquecendo-se da área ocupada para estacionamento e de sublinhar que, no entanto, os c. 5.000 m2 ficarão murados e, logo, sem acesso livre e público.  

Atente-se também que, ao contrário do que refere o Presidente da CMC, a Chabad é uma organização que parece estar envolvida em diversas polémicas a nível mundial (uma pesquisa na net facilmente o revela), não representa o judaísmo ou a comunidade judaica no seu todo, com quem a qual, aliás, parece estar muitas vezes em conflito. 

Acresce que, no caso presente, a Associação Chabad Portugal teve também, em diversos aspetos, atitudes altamente reprováveis: uma instituição religiosa que recorre à difamação em tribunal para contestar quem se opõe à cedência daquele terreno toma uma atitude que não pode deixar de ser considerada como altamente condenável, tanto do ponto de vista legal, como do ponto de vista moral – e que contrasta fortemente com a postura assumida pela Igreja Católica quando a contestação levada a cabo pelos moradores impediu a construção de instalações desta naquele mesmo terreno!

Mais: apesar de diversos moradores terem contactado a Associação Chabad, pedindo-lhe para ser obtida uma solução que permitisse a satisfação do interesse dos moradores e, simultaneamente, dos interesses da Chabad, mudando a construção para outro terreno onde as questões da preservação do espaço verde não se colocassem, a Associação Chabad não se dignou sequer até agora a responder-lhes, mantendo um mutismo gritante e optando por levar avante as suas intenções em reuniões afastadas dos moradores que se opõem à construção.

Mais ainda: frequentadores da Associação Chabad não apenas andaram a destruir os cartazes colocados pelo movimento SOS Costa da Guia, como criaram e fizeram circular notícias falsas e vídeos e, apesar de ter conhecimento disso e de lhe ter sido solicitado que agisse, que se saiba, a Associação Chabad em momento algum condenou essas atitudes e comportamentos.

Tudo isto é tanto mais estranho quanto, sendo a Chabad uma associação recentemente chegada a Cascais, seria de esperar que, atenta a polémica instalada – e que não dá mostras de esmorecer –, fosse a primeira a procurar consensos e a querer aparecer como a pacificadora, disponibilizando-se a mudar o projeto para outro local e solicitando à CMC um espaço alternativo. 

A Associação Chabad ainda está a tempo de modificar a percepção que se tem criado. Ao invés, a continuar assim, em vez de ser uma fonte de consenso e de aproximação entre culturas, a Associação Chabad começará a sua presença em Cascais da pior forma. Pior só mesmo quando vedar o terreno e tornar um espaço público num espaço privado para fruição apenas daqueles a quem, após identificação, seja permitido aceder à construção que ali pretende levar a cabo e que de “equipamento público” nada terá! 
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3 comentários:

Anónimo disse...

Sr. Pedro Jordao
Excelente artigo.
Se tem provas de algo avance assim como toda a oposição ao lado dos moradores.
Aguardamos que concretizem algo...
A Bem de Cascais

Anónimo disse...

Excelente comentário caro Pedro Jordão... infelizmente o autismo da Associação Chabad é idêntico ao do executivo camarário em relação a esta matéria como em relação a tantas outras. Sobrepõem-se os interesses obscuros que não respeitam a vontade dos munícipes nem o equilíbrio da nossa região, desrespeitando a nossa identidade e património cultural. Cascais está a ser gerido apenas de acordo com os interesses do betão e da especulação imobiliária tendo a Câmara Municipal um papel determinante e interessado neste percurso. Enquanto esta gentalha estiver no poder nada vai mudar e a corrupção continuará a sobrepor-se aos interesses dos cidadãos e ao seu bem estar. Como refere, basta irmos ao Google para percebermos de imediato todas as polémicas que existem a nível internacional em torno da Associação Chabad, desde ser acusada de mafiosa a não ser reconhecida sequer como uma organização Judaica. Não é de estranhar por isso que a mesma se tenha associado ao autêntico "crime organizado" que existe no nosso concelho. Quem tiver ainda dúvidas consulte http://www.chabad-mafia.com/

Anónimo disse...

Pedro Jordão, o que fazes para contrariar tudo isto? Ficas no sofá a escrever no facebook aquilo que te apetece. "Apareces-te" para as eleições depois nunca mais ninguém te viu.....de certeza que nas próximas eleições irás criar outros "movimento" para dizer mal de tudo e de todos.
No dia 22 de fevereiro não estiveste onde devias estar a interrogar o Carreiras sobre todas estas questões, em vez disso tiveste o descaramento de andar a pôr "papeis" nos carros.....que vergonha.
As pessoas não sabem, mas ninguém te recebe na câmara, na junta.....
Já sabem o que és.
FAZES PARTE DO PROBLEMA E NÃO DA SOLUÇÃO!
LAVANTA O RABO DO SOFÁ E FAZ O QUE DEVIAS FAZER, LUTAR!

MULTIMÉDIA. SEGURANÇA

A PSP e o Metro recomendam: "Durante a abertura de portas não utilize o telemóvel. Pode ser vítima de roubo."

Abrigos precisam-se!

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