Aprendizagens 3

Opinião




"O que define a aprendizagem não é saber muito,
é compreender bem aquilo que se sabe".
António Nóvoa




Nas recentes eleições a coligação 'Viva Cascais',  que funde o PSD e o CDS locais sob a chefia de Carlos Carreiras, manteve a mesma maioria absoluta que já tinha na Câmara Municipal e continuou com idêntica maioria relativa na Assembleia Municipal. Quanto às Assembleias de Freguesia, ganhou a maioria absoluta em Alcabideche (que não tinha antes), reforçou a sua maioria absoluta em Cascais-Estoril, manteve a mesma maioria relativa que tinha em Carcavelos-Parede e não ganhou a maioria em S. Domingos de Rana apesar de, aí, ter aumentado o número de eleitos.


É um iniludível sucesso da política populista de Carlos Carreiras tanto mais que acontece em contra corrente dos resultados gerais destas eleições autárquicas. A nível nacional ocorreu uma grande subida do Partido Socialista e uma significativa perda da direita mas não foi isso que aconteceu em Cascais.



Dados das eleições locais *

A abstenção concelhia diminuiu de 62% para 56,5% mas continua a ser das mais elevadas no país e a análise dos dados não evidencia que esta diminuição tenha sido especialmente favorável a algum Partido.


Para além da Coligação vencedora (que teve um crescimento eleitoral de 27% com mais 7516 votos) também o Partido Pessoas-Natureza-Animais (PAN), o Bloco de Esquerda (BE) e o movimento independente 'Ser Cascais' poderão ter alguma justificação para estarem satisfeitos. O primeiro porque, pela primeira vez, passou a ter dois eleitos na Assembleia Municipal, o segundo porque teve uma subida de votos de 35,3% e os independentes do 'Ser Cascais'(SE) porque duplicaram a sua representação camarária.


O Partido Socialista (PS), que integrou nas suas listas o movimento independente 'Ser Cascais', obteve mais 3367 votos (17,6%). Todavia a sua representação partidária diminuiu porquanto, na vereação, passou a ter dois vereadores (antes tinha 3) a par dos dois vereadores que se afirmam como independentes do movimento 'Ser Cascais'. Na Assembleia Municipal os eleitos independentes do movimento 'Ser Cascais' são três e os deputados do PS são sete. Não é público se estes vereadores independentes irão integrar o Grupo Municipal do PS ou se constituirão um Grupo Municipal próprio. Só o tempo dirá quais as consequências que existirão, ou não, desta situação 'bipartida' da lista "Trabalhar por Cascais".


A Coligação Democrática Unitária (CDU) manteve, no essencial, os seus eleitos ainda que tenha tido alguma diminuição de votos, aparentemente para apoiar o PS, sobretudo em S. Domingos de Rana.


Os resultados eleitorais e  a situação dele resultante obrigam a uma análise ponderada e a uma reflexão plural publicamente partilhada.


Quaisquer proclamações auto-satisfatórias podem servir para 'embelezar' os resultados próprios, salvaguardar lideranças  ou justificar opções havidas mas não contribuem para uma avaliação rigorosa da situação nem ajudam a perspetivar a ação futura.



Reflexões para a ação

Por ora retenho apenas três tópicos de reflexão.

O primeiro sobre a natureza da coligação 'Viva Cascais' na sua segunda versão, agora chefiada por Carlos Carreiras.  Não se trata apenas de uma aliança local do PSD com o CDS. É um modelo de ação política específico, construído em torno de um autocrata, o qual, alicerçado na sua natureza populista, ambiciona constituir-se como exemplo com influência geral. Ainda que esta imitação do 'jardinismo' (de terceira categoria, dizem alguns) possa ter a sua ascensão a nível nacional prejudicada pela queda de Passos Coelho ela não deixará de procurar ampliar a sua influência. 


Infelizmente demasiados responsáveis político-partidários persistem em ignorar o perigo que representa a consolidação e ampliação do populismo tendencialmente autocrático que, a partir de Cascais, vai estendendo os seus tentáculos. Oxalá não acordem tarde demais.


O segundo sobre os entendimentos adequados para se fazer face à asfixia democrática e à delapidação dos bens públicos em que se apoia o caudilhismo cascaense. Esta política, protagonizada por Carlos Carreiras, conta com o apoio dos que beneficia, sobretudo especuladores imobiliários, alguns industriais do turismo e meia dúzia de 'empreendedores´ com 'chorudos' negócios de ocasião. Infelizmente conta também com a conivência, mais ou menos ativa, de uma vasta rede de pessoas e instituições cuja liberdade se encontra condicionada pelo arbítrio discricionário da política de subsidiação da Câmara. 


É obvio que muitos eleitores, até de camadas sociais mais desfavorecidas, são iludidos pela abundância de marketing e festarolas difícil de esclarecer dada a anemia do debate público reinante. Mas o descontentamento com esta política caudilhista é maioritário no concelho e politicamente muito amplo porquanto abrange desde conservadores até ativistas anti-sistema. 


Em Cascais não tem aplicabilidade qualquer pretensa réplica da 'geringonça'. Muito menos tem sentido valorizar a conflitualidade entre Partidos ou de 'independentes' contra estes. Nenhuma força política está, ou estará durante anos, em condições de, sozinha, ser alternativa ao populismo instalado no município. Consequentemente só o caminho do diálogo e da ação conjunta de uma muito ampla convergência de sensibilidades políticas pode abrir espaço para o  desenvolvimento concelhio  justo, sustentável e harmonioso bem como para a requalificação ambiental e a defesa do património local.


O terceiro sobre a intervenção necessária para resistir e construir a mudança. Provavelmente, por interesse pessoal ou cegueira política, haverá quem defenda que "sabedoria não é vencer o forte e sim juntar-se a ele" embrulhando as suas pequenas ansias de poder com justificações de 'oposição responsável', 'respeito pela maioria', 'viabilização da governação'  ou 'não ser bota abaixo'. Haverá também quem continue a pensar que nada mais resta do que continuar tranquilamente à sombra de um qualquer 'emblema' fazendo 'mais do mesmo' até que um dia a Coligação absolutista caia de podre.  Estão enganados ou querem enganar-nos.

Mas quem verdadeiramente importa são todas e todos aqueles/as que querem promover a mudança em  nome do bem comum. É com esses que os cascaenses contam para, desde hoje, fazer uma oposição determinada e em todos os planos ao populismo absolutista.


Por difícil que seja, aqueles que acreditam num futuro melhor para Casais e mais feliz para os cascaenses precisam de dialogar com abertura e bom senso. Precisam de encontrar as formas concretas de responder ao poder tendencialmente totalitarista que se quer enraizar em Cascais. Precisam de viabilizar o exercício da liberdade de informação no concelho  e de promover a efetiva participação dos cidadãos na esfera pública. Precisam de obrigar à transparência e à decência na vida do município. 


Mais do que necessidades são exigências da cidadania e da democracia. A mudança não se contruirá nos meses que antecedam as eleições mas sim em cada um dos dias dos quatro anos que se avizinham.  Não se conquistará à custa de protagonistas  eleitorais, mais  ou menos mediáticos, mas sim com a intervenção política constante em estreita articulação com os cidadãos.


Seguramente é um caminho trabalhoso mas é aquele que pode compensar.

E quem pense diferente que se chegue à frente e diga de sua justiça.





* Utilizaram-se os dados relativos à votação para a Câmara Municipal conhecidos no dia 3 de Outubro. Sabemos agora que estes dados não estão totalmente corretos porque o apuramento tem vindo a sofrer sucessivos percalços e parece estar instalada alguma confusão cujo desfecho está remetido para os Tribunais. 

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4 comentários:

Anónimo disse...

No essencial estou de acordo com o balanço feito pelo Vasco, mas se me fosse permitido, gostava de chamar atenção. A responsabilidade não morre solteira, o PS do Costa, tem culpas no cartório. E porquê? Porque, enviou para cascais uma candidata que não conhece, a realidade do concelho, e muito menos, as tradições e os costumes do povo cascalenses.
Apetece-me dizer, que que o PS/Cascais já não existe! Ou esta contentado com o procedimento desta democracia burguesa, por parte do Sr. Carreiras Lavrador. E não digo mais nada, porque posso ser multado ou preso, porque sei que existe muita gente por estes lados que defende esta lei da chamada “difamação e injúrias” do Código Penal, é o único país da UE, que as aplica, para mais informações: Observatório do Tribunal dos Direitos do Homem.

Anónimo disse...

Sabemos que a democracia colapsou em Cascais .
Não podemos ser refens desta liderança paroquial, e muito menos com medo de exprimir a opinião que nos assiste .
Outros não respeitaram a CNE e foram alvo de processos por desobidiencia qualificada ... desafio todos aqueles que denunciaram as situações a insistirem junto da tutela para se fazer justiça .


A BEM de CASCAIS

Francisco Aires disse...

Felicito o Cascais24 pela excelente análise que publica. Ao autor agradeço a prova de que afinal, em Cascais há quem pense para além da festarola e do festival do pastel da coligação e perspective uma alternativa de futuro que é já

Anónimo disse...

Texto bem articulado que retrata fielmente o que se passou nas eleições autarquicas ... não nos podemos esquecer que, quem estava no poder usou os meios que foram alvo de denuncia tempestiva quer de cidadaos e forças politicas à CNE ... foi seguramente um combate desigual , mas nada está perdido ... o colossal endividamento da autarquia deve estar a aparecer, em função das obras levadas a cabo pelos eleitos ...seguramente que os nossos impostos e taxas cobrados em Cascais não devem chegar, e se olharmos para o lado vemos que em Oeiras e Sintra foi seguida uma politica de investimento economico baseada no rigor , critério, sustentabilidade, e na perspectiva ambiental , que levará forçosamente nos anos seguintes a baixas de IMI e derramas para fixação de empresas .... os jovens das festarolas, devem continuar desempregados em Cascais ... vão apreender por eles próprios que foram vitimas de erro de casting.
Lamento sobretudo o tempo que se vai perder com mais politicas autocráticas, show off, pseudo smart cities e mobilidades que não vão existir , apesar do forte investimento com dinheiro dos contribuintes para dizer o contrário ..
Cascais está isolada das decisões da area metropolitana de Lisboa, e nem a dita mobilidade se articula com os concelhos vizinhos, do poder central nada se espera, e os conhecidos atritos com o Ministério das Obras Públicas e Transportes e mais alguns orgaões da Tutela ...claramente os que não se revêem nesta liderança e nesta politica , devem continuar com a coluna vertebral, e andar por ai, porque o actual regime vai ser vitima de si próprio .

A BEM DE CASCAIS