Uma maioria de betão

Opinião




Na última campanha eleitoral, o PAN alertou para a visão política da Coligação Viva Cascais se basear na construção desmesurada, desproporcionada e descontextualizada no nosso município. Poucos meses depois, o seu plano é claro e público: betonar e privatizar o litoral de Cascais e condenar o interior do concelho ao desinvestimento e ao aumento da poluição. Parece impossível? Então vejamos.

Já sabemos que a Nova School of Business and Economics é apregoada como um polo de desenvolvimento para o concelho, mas a sua construção no litoral de Carcavelos virá condicionar ainda mais o acesso à marginal, sobrecarregar a praia e os já parcos estacionamentos. Porém, o pior é que gerará mais especulação imobiliária na zona. Este investimento, ainda envolvido em controvérsias com as expropriações por parte da Câmara, deveria ter sido pensado numa lógica de reforço do interior do concelho, melhorando acessos e zonas habitacionais, e não numa perspetiva de curto prazo com a sobrecarga do litoral. Como estratégia de contenção deste fenómeno especulativo, o executivo pretende isentar de IMI os imóveis que não sejam de primeira habitação e que estejam fora do mercado em São Domingos de Rana e na União de Freguesias de Carcavelos/Parede, mas isto, mais uma vez, não beneficia quem menos rendimentos tem, muito menos a classe média.

No seguimento desta política de betão, o executivo reforça o paradigma do turismo estilo Albufeira, onde o litoral é cravado de hotéis e onde, sem transportes coletivos eficazes e eficientes, os problemas da mobilidade agravar-se-ão para os residentes. Mas e no interior? Em São Domingos de Rana vai nascer um El Corte Inglês. Exatamente o que esta freguesia necessita. Outro centro comercial. 

Ainda nesta visão, o executivo promete privatizar a marina de Cascais, tornando-a numa nova Marina de Vilamoura, e construir, por exemplo, o Edifício Dom Luís, com apartamentos e lojas, mesmo em frente à estação de comboios de Cascais. Este nada tem a ver com o traçado na área. Passem lá e vejam a magnificência do prédio que se vai construir. É tão ou mais belo e enquadrado que o CascaisVilla Shopping Center. E por falar nesta obra de arte iremos ter mais um lote de apartamentos de luxo lá perto. Sim, porque o cidadão comum não aufere para ter casas neste litoral Cascalense, com a remodelação da entrada de Cascais, junto ao Jumbo. Acresce a esta construção, a cimentação da conhecida zona da “Praça de Touros”. Mais um prédio será construído para a satisfação de construtores e de (escassos) cidadãos, nacionais ou estrangeiros, com mais elevada capacidade económica. O que virá a seguir? A deslocalização da Escola Secundária de Cascais que pode ferir as vistas de tal local de excelência? Com a desculpa desta não ter condições ou por ser temporária faz décadas? Esperamos para ver. 

Entre outras maravilhas, esta visão urbanística e económica irá garantir ainda que os espaços do antigo hospital e do antigo edifício da Águas de Cascais sejam cedidos à construção de uma nova escola de medicina, numa parceria entre a Câmara e os privados da Universidade Católica e do Grupo Luz Saúde. Se este negócio for como o promovido pelo executivo no antigo espaço da fábrica Legrand, com a vinda da Nestlé, desmentido pela empresa ao jornal Eco, estamos bem encaminhados. Melhor ainda é a oportunidade de juntar a todo este boom urbanístico, turístico e económico, a modernização do aeródromo de Tires. Este, que já serve a linha Portimão-Bragança, está a ser alvo de investimentos para a partir de fevereiro passar a ter nível 4, ou seja, passível de receber todos os voos executivos que atualmente utilizam o aeroporto de Lisboa. Isto, mesmo sabendo que a esmagadora maioria dos voos de Tires são de instrução (35.887 de 49.952; dados de 2016). 

Mas apesar da coligação Viva Cascais ter ganho com maioria as últimas eleições autárquicas questionamo-nos se esta é realmente a visão dos Cascalenses que confiaram o seu voto neste projeto político. Não estamos certos disso. 

O PAN teria outras prioridades. Na educação, garantiria a universalidade do acesso público a creches, melhoraria definitivamente as condições físicas de todo o parque escolar já existente e apostaria numa cultura de bairro, não de massas. Na Saúde, reforçaria a oferta em cuidados médicos continuados, e criaria mais centros de acolhimento a cidadãos seniores, investindo também em mais prevenção de doenças. No ambiente, expandiríamos as áreas verdes urbanas, nomeadamente no interior, verdificaríamos os edifícios municipais, limparíamos as arribas e o fundo oceânico, e construiríamos corredores verdes na A5. Em termos urbanísticos, melhoraríamos as condições de quem já vive no concelho com um plano financeiro de apoio às habitações que desejassem instalar sistemas de captação de energias renováveis e renovaríamos o edificado degradado com o traçado original da vila. A nível económico faríamos todos os esforços para trazer empresas ligadas às energias renováveis e a indústrias limpas para o interior do concelho dinamizando assim o emprego e a resiliência económica local. 

Assim, vemos que um concelho à medida de cada Cascalense não se coaduna com uma política à métrica de alguns agentes económicos. E, na nossa visão, o executivo, por melhor intenção que tenha, reforça duas realidades diametralmente inconciliáveis. Aumenta a diferença entre os nossos Cascalenses implementando políticas públicas que não harmonizam a integridade do concelho nem tampouco vislumbram um futuro mais equitativo e sustentável. 

Resumindo, nós avisámos, eles cumprirão. 


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